No Rest for the Wicked (Dinamarca, 2026)
Título Original: No Rest for the Wicked
Direção: Kasper Kalle (Kasper “Kalle” Skovsbøl)
Roteiro: Rasmus Birch
Elenco principal: Egor Venned, Pilou Asbæk, Sofia Nolsøe Mikkelsen, Kjartan Hansen e Jóhannes Haukur Jóhannesson
Duração: 103 minutos
Quando estamos tratando de filmes que vão lidar com seres sobrenaturais, existem alguns que os fazem através de uma narrativa explosiva, cheias de ação e sustos, e aqueles que optam pela queima mais lenta, com fatos simples que se intensificam pelo local, época e pela passagem do tempo.

Não tão cinematográficas quanto a sua irmã fonética Ilha Faro, as Ilhas Faroé são um elemento essencial na construção de No Rest for the Wicked. Localizadas entre a Escócia e a Islândia, e sob domínio da coroa dinamarquesa, as ilhas são até hoje pouco habitadas e fisicamente isoladas do resto do mundo. Como o filme se passa ainda no final do século XIX, antes de invenções como os aviões ou a internet, essa sensação é aumentada. Então, quando o baleeiro Helge (Pilou Asbæk) surge em uma pequena cidade, é simples imaginar a curiosidade e preocupação dos locais.
É nesse clima de interesse e paranoia que a trama vai se desenvolvendo lentamente, mas com um ritmo que combina perfeitamente com a sensação da passagem do tempo naquele espaço. E, para evitar que o filme se torne massante considerando esse vagar um pouco diferente da atualidade super acelerada, Kasper Kalle acerta em criar ambientes e iluminação que criam um campo visual interessante, fazendo com que o olhar do espectador esteja sempre ativo. Isso, somado à sensualidade de diversos momentos da obra e de sua capacidade de misturar elementos de horror e romance fazem com que a obra seja bastante memorável.
Fazendo um paralelo com a literatura, quando pensamos nos clássicos do romance gótico, encontramos alguns elementos que estão sempre presentes. Locais isolados e pouco conhecidos, seres sobrenaturais e temáticas de culpa e repressão sexual estão entre essas características, e é impressionante como esses elementos conseguem se repetir no longa de uma forma muito mais moderna. Parece que o diretor mergulha nessas temáticas clássicas e traz consigo o elemento da homossexualidade como o toque da modernidade necessário para torná-lo relevante na atualidade.
Isso se reflete também na maneira que as imagens são compostas no filme. Fiordes maravilhosos, uma natureza bonita porém igualmente perigosa, todas as cenas que se passam na quase cegueira causada pela neblina: todas relacionam o interior dos personagens com o que acontece externamente.
Assim, enquanto caminhamos pela sua primeira metade, parecemos caminhar para um drama de época bastante clássico, com a adição do elemento queer, o que já seria interessante. Mas é quando a obra decide seguir por uma linha mais ligada ao terror que a ela realmente surpreende, com forma e conteúdo se complementando de maneira harmônica. Vamos seguindo e chegando a um ápice inesperado, mas que nos leva novamente a um certo sentimentalismo que sentimos no início da obra.
O filme mostra bastante maturidade do diretor, mesmo que seja apenas o seu segundo filme. Acabamos com a sensação de querermos saber quais serão os seus próximos passos de carreira, e se ele conseguirá um êxito semelhante em sua futura filmografia.




