Insaciável (Austrália, 2026)
Título Original: Saccharine
Direção: Natalie Erika James
Roteiro: Natalie Erika James
Elenco principal: Midori Francis, Danielle Macdonald, Madeleine Madden
Duração: 113 minutos
Distribuição: Diamond Films
Com a criação e popularização dos tratamentos de semaglutida e tirzepatida, 2026 certamente está sendo um ano no qual estamos discutindo, como sociedade, a volta da estética da extrema magreza e de como ela é prejudicial, especialmente para mulheres. Assim, seria difícil um momento mais adequado para criar um filme de horror corporal que lide com a questão da autopercepção.

Em Insaciável, acompanhamos a estudante de medicina Hana (Midori Francis) vivendo a sua vida enquanto luta constantemente com a compulsão alimentar e tenta se impor uma rotina de exercícios severa. Já em seus primeiros momentos, antes mesmo de conhecermos a personagem, temos imagens bastante perturbadoras que colocam o ato de comer compulsivamente de maneira pornograficamente nojenta, deixando claro para os espectadores que o filme não será uma jornada confortável.
Ainda que ela tenha uma vida relativamente tranquila, com a presença de amigos e familiares por perto, percebe-se que a culpa e a baixa autoestima são elementos que estão sempre jogando contra ela. Do seu crush na instrutora da academia Alanya (Madeleine Madden) até a dificuldade de interagir em festas, fica bastante claro que o que lhe falta é a autoconfiança. É até interessante que o casting para sua melhor amiga, Josie (Danielle Macdonald), tenha sido de uma atriz gorda, justamente para colocar o contraponto de que o filme está lidando muito mais com uma questão interna, dado que Josie é uma mulher muito bem resolvida e que não passa pelos mesmos dilemas que Hana.
A solução mágica aparece na sua comemoração de aniversário, quando ela reencontra Melissa (Annie Shapero), que a apresenta para as pílulas que a fizeram emagrecer surrealmente em pouquíssimo tempo. O porém, é claro, está no preço, que é elevado e tornaria impossível para Hana manter o tratamento. Só que ela é uma mulher inteligente e com acesso a diversos dispositivos da sua faculdade, permitindo que ela descubra do que essa pílula é feita e passe a produzi-la de maneira pouco ortodoxa.
Até esse momento, o clima de horror talvez estivesse presente apenas para quem já sofreu de algum tipo de compulsão: acordar e perceber que você comeu excessivamente na noite passada, ter que jogar detergente na comida para garantir que você não irá atacá-la, a dificuldade em lidar com o ambiente das academias. Mas é aqui que ele se torna um terror mais generalizado, pois um fantasma passa a assombrá-la para garantir que ela coma, com essas calorias sendo rapidamente queimadas pelo seu corpo que emagrece em uma velocidade assustadora e pouco saudável.
O filme acerta em diversos momentos de tensão e consegue criar uma mistura entre o drama e o terror, justamente pela sua proposta visual extremamente estilizada das primeiras cenas, mas temos a sensação de que ele não consegue alcançar aquele potencial que propôs nos primeiros minutos. Existe essa mistura entre o terror existencial de Hana sendo perseguida por um fantasma obeso e o horror corporal do consumo crescente de calorias que ocorre de forma nem sempre agradável, mas a sensação de agonia que é transmitida nas primeiras imagens se sobrepõe a grande parte da obra.
Um grande acerto está na construção da personagem Hana como alguém multifacetado, o que faz com que o espectador crie empatia por ela mesmo quando ela está tomando decisões questionáveis. Há, por exemplo, a presença de sua mãe que aparece em seu apartamento nos momentos menos oportunos e tenta ajudá-la de maneira estereotipadamente asiática, e que parece tentar ajudar a filha de forma quase ofensiva, algo que acontece bastante quando a sociedade te percebe como alguém acima do peso desejado. Contudo, existe toda uma dinâmica familiar que é apenas pincelada e que acaba trazendo um peso dramático mais acentuado para a autopercepção da personagem, algo que também funciona positivamente para a narrativa.
Com uma boa percepção do momento que passamos e algumas excelentes ideias, a maior falha do filme é a de construir tantas pequenas narrativas que acaba não conseguindo cumprir com as expectativas que cria para si mesmo. Isso, somado à dificuldade de encontrar um fim definitivo para a trama, fazem com que o espectador saia do cinema com uma sensação muito menos impactante do que aquela que ele tem no início e meio do filme.




