O Fim da Rua (Estados Unidos, 2026)
Título Original: The End of Oak Street
Direção: David Robert Mitchell
Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco principal: Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella, Christian Convery
Duração: 100 minutos
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Nada poderia ser mais comum e suburbano que a Rua Oak. Em um fim de semana no meio do verão dos anos 1980, acompanhamos a família Platt com todas as suas idiossincrasias em uma festa que eles ajudam a organizar em seu quarteirão. Denise Platt (Anne Hathaway) é uma mãe carinhosa, mas que esconde da família um desejo de ter certa independência. Gregg Platt (Ewan McGregor) é o marido carinhoso, mas que esconde do mundo que está fazendo um bico como entregador para uma pizzaria. Audrey Platt (Maisy Stella) é a irmã mais velha que sonha em sair daquela situação provinciana e estudar astronomia, se sentindo desconectada de todos os outros jovens de sua idade. E por fim, Brian Platt (Christian Convery) é a criança que está sentindo o fim do relacionamento dos pais e demonstrando os primeiros sinais de rebeldia. Poderia facilmente ser um filme de Steven Spielberg ou do Tim Burton, mas talvez não seja o primeiro roteiro que se ligue ao nome de David Robert Mitchell (conhecido principalmente pelo filme de terror Corrente do Mal, de 2014).

Felizmente, o plot twist chega e deixa mais clara a relação entre diretor e conteúdo do filme: uma anomalia acontece, e de repente dinossauros e outras criaturas jurássicas começam a aparecer na rua. Antes que isso possa ser considerado um spoiler, é uma informação presente em todos os trailers e divulgação da obra. A grande questão é o caminho que essa família vai precisar percorrer para sobreviver e, ocasionalmente, tentar retomar alguma normalidade em seu cotidiano. Aí, temos a questão: será que mais de 30 anos após o lançamento do primeiro Jurassic Park, que formou todo o imaginário de filmes de dinossauros na cabeça dos espectadores do cinema, ainda há espaço para uma aventura familiar os envolvendo?
Ainda que a minha resposta particular para essa pergunta seja a de que sempre deve haver espaço para mais filmes de dinossauros, para a maior parte do público a questão não é tão simples. Equilibrar a aventura e diversão com uma boa dose de ação com consequências no mundo real não é uma tarefa tão simples, ainda mais considerando a necessidade de criar certa profundidade emocional nos personagens para que o público se identifique e se importe com eles. Mas, felizmente, David Robert Mitchell é extremamente qualificado para o papel.
Desde os primeiros minutos de filme, antes mesmo da invasão jurássica se iniciar, percebemos que estamos sendo emocionalmente manipulados para essa identificação, seja pelo ar nostálgico da trama ou por sua aparência que também evoca esse passado recente. Ao invés dos filmes sombrios e insaturados da atualidade, somos apresentados a um universo no qual tudo parece ter peso e textura, o que para os espectadores com mais de 25 anos já é uma forma de nostalgia do cinema de ação ao qual fomos acostumados quando jovens.
Mas, além disso, temos uma maior modernidade sendo trazida em dois elementos. O primeiro é a aparência dos dinossauros. Utilizando técnicas de computação bem avançadas, existe uma variedade de espécies enorme, talvez maior do que a de toda a série de filmes de Jurassic Park e World. E elas não aparecem na trama de maneira aleatória, mas são aproveitadas de acordo com o que o momento do filme pede. Temos, por exemplo, momentos hilários que são justapostos temporalmente a alguns dos momentos mais tristes da obra, e justamente por essa proximidade que ambos acabam tendo um peso tão forte. Percebe-se um controle profundo de conteúdo e forma que dialogam, ao invés de funcionarem apenas cada um em sua esfera.
O segundo é a relação que é construída entre os personagens e a sua profundidade. Novamente, claro que existem os estereótipos sobre os anos 1980, e existe também uma autoconsciência sobre eles. Se no primeiro momento, por exemplo, ele coloca essa família que parece estar desmanchando e a reação das crianças a isso, ao longo da trama vamos percebendo os amadurecimentos individuais e também deles como um grupo. Talvez um dos melhores exemplos seja com a personagem Audrey, que acaba contrariando a expectativa que o próprio filme brinca de que poderia estar buscando um romance, e na verdade está apenas em busca de uma amizade real com a qual possa se conectar. Pequenos exemplos como esse são presentes em todos os personagens, assim como falhas – algo que lhes dá mais humanidade e os aproxima do público.
Assim, temos um filme que consegue jogar muito bem com a nostalgia, mas não esquece que está lidando com esse público que não é o mesmo nos anos 1990. Como um excelente cinéfilo, David Robert Mitchell sabe aproveitar bem os exemplos do cinema anterior a ele, mas deixa clara a sua marca de autenticidade para diferenciá-lo de quem homenageia.




