Furnas Fundas – Uma fábula gótica brasileira (Brasil, 2026)
Direção: Beto Marquez
Roteiro: Antonia Baudoin
Baseado em uma história original de: Reinaldo Moraes
Elenco principal: Gabriela Dias, Eriberto Leão, Elisa Volpatto, Johnnas Oliva, Otávio Müller, Rodrigo Pandolfo, Wilson Rabelo, Natália Lage, Felipe Rocha, Caio Mutai, Ricardo Bittencourt e Lourenço Mutarelli
Duração: 113 minutos
Distribuição: Capuri
Furnas Fundas é o tipo de projeto que tem tudo para dar muito certo ou ser um desastre – fazer filme de gênero no Brasil já não é fácil, quem dirá misturar comédia com terror de vampiros. Felizmente, podemos dizer que o risco valeu a pena.

O filme se apresenta como uma comédia de costumes que, aos poucos, vai mostrando seus aspectos fabulescos até se revelar a “fábula gótica brasileira” que o subtítulo anuncia. A partir do cotidiano de uma cidade pequena do interior de São Paulo em época de eleições, o longa comenta o cansaço da população com a mesmice dos candidatos e do jogo eleitoral. O povo de Furnas Fundas vive constantemente embriagado, a ponto de a prefeitura precisar lançar um programa de recolhimento dos bêbados que sobram caídos na rua ao nascer do sol.
O humor do roteiro de Antonia Baudoin funciona e a direção e o elenco conseguem momentos ótimos a partir de seus diálogos.
Falando em direção, Beto Marquez dirige com segurança e, junto à direção de fotografia de Paulo Vainer, consegue explorar bastante o visual do filme, com direito à mudanças na janela de projeção e na coloração do filme, ora em cores, ora em preto e branco, ora em um preto e branco com tonalidades de azul, verde ou amarelo. Isso, inclusive, éresultado de uma pesquisa da equipe sobre a coloração de filmes antigos – a coincidência de serem as cores da bandeira nacional é propositalmente explorada.
O elenco todo está muito bem e é perceptível que todo mundo se divertiu muito explorando seus personagens e gravando os diálogos absurdos. Gabriela Dias, Johnnas Oliva, Rodrigo Pandolfo, Natália Lage e Felipe Rocha se divertem fazendo os “mocinhos” investigadores que batem de frente com o agroboy tóxico de Otávio Müller, enquanto Eriberto Leão, Elisa Volpatto e Caio Mutai deitam e rolam (literalmente) com os vampiros que bebem o sangue do povo de Furnas Fundas e se embriagam por tabela.
Vale destacar o trabalho da montagem de Jair Pares, que poderia ter acabado com o ritmo das cenas cômicas, mas consegue valorizar as atuações e se somar ao elenco na função de arrancar risadas do público.
Por fim, também é preciso elogiar Fernanda Carlucci e Mari Sued que fazem um ótimo trabalho na direção de arte e figurinos. A maquiagem pesadíssima e o figurino bem estereotipado, quase teatrais, dão o tom de fábula que o filme pede.
Um ponto que me incomodou foi a falta de um posicionamento político mais claro. Na conversa com a equipe após a sessão, eles comentaram sobre não querer fazer um filme panfletário, mas que representasse o cansaço do povo com o jogo político – e nesse ponto se saem bem. Porém é de se estranhar que a crítica à direita e ao agro seja tão clara, enquanto a esquerda é retratada de forma um tanto estranha, com um candidato que é um padre paranóico com “seres do mal que invadirão a cidade” e com a sua sobrinha, talvez a personagem mais sóbria da narrativa (e o uso do termo não deixa de ser irônico, já que ela passa boa parte filme um tanto embriagada).
É através da personagem da sobrinha, Bartira (Dias), que o filme retrata uma mudança de atitude frente ao atual cenário político do país. Mas apenas se conscientizar da situação e decidir “fazer alguma coisa” (de forma bem vaga mesmo) é o suficiente? Por que não propor uma movimentação de organização de parte do povo para lutar por uma cidade melhor? Uma andorinha sozinha faz verão? Eu acredito que não. Nisso, o filme acaba ficando com um discurso um tanto vago, que expõe um problema sem parecer se importar com trazer uma solução efetiva para além da mudança de atitude individual.
Acho importante dizer que esse ponto não me incomodou tanto durante o filme, mas com a importância que recebeu na conversa, acabou crescendo e ganhando a minha atenção.
Furnas Fundas funciona muito bem como comédia escrachada e como fábula. É um filme tecnicamente bem realizado (não falei deles, mas até os poucos efeitos especiais – geralmente um ponto fraco em filmes nacionais – estão bons) e que consegue ser engraçado enquanto aborda um tema espinhoso, mesmo que se perca um pouco na própria mensagem. Considerando o cenário de filmes de gênero no Brasil, principalmente os que trazem narrativas originais, é ótimo ver um esforço como esse se saindo bem.




