Crítica | 51º TIFF | Congo Boy

Congo Boy (República Centro-Africana, República Democrática do Congo, França, Itália, 2026) 

Título Original: Congo Boy
Direção: Rafiki Fariala
Roteiro: Rafiki Fariala, Tommy Baron e Boris Lojkine
Elenco principal: Bradley Fiomona Dembeasset, Christy Djomanda Louba, Pétruche Mbomba, Rosiana Kotozia, Gloria Ambacko, Dieufera Sana
Duração: 95 minutos  (1h35min)

Ainda que exista uma infinidade de filmes que lidam com a imigração de países africanos para os europeus, fala-se muito menos, dentro das telonas, sobre a imigração entre os países africanos. Um primeiro impeditivo claro é a questão de que o cinema europeu tem muito mais incentivo interno e externo, podendo contar essas histórias de pessoas que vêm nessa travessia uma possibilidade de ter uma vida diferente, enquanto os cinemas africanos ainda são muito menos visíveis e viáveis, com poucos expoentes conseguindo sair das fronteiras invisíveis do continente e chegando ao público consumidor de cinema de outras regiões. Além disso, ainda há a questão de que os fluxos migratórios são bem diferentes, mais confusos e circulares, com qualquer situação política específica podendo mudar bastante em um curto período de tempo.

Essa já é uma feliz surpresa de Congo Boy, produzido entre a República Centro-Africana (RCA), República Democrática do Congo (RDC), França e Itália, e que lida com a situação de um jovem imigrante congolês que vive na RCA. Ainda que exista um fluxo migratório enorme saindo da RDC, são poucas as pessoas que param no país vizinho, até porque a regularização de sua situação é bastante complicada, como o próprio filme irá demonstrar. Mas o diretor e co-roteirista Rafiki Fariala se recusa a manter uma história que caiba em um estereótipo, incluindo a arte como ponto de resistência e de grande interesse na vida de Robert (Bradley Fiomona Dembeasset). Sua vida pode ser extremamente complicada e cheia de responsabilidades, mas sempre existe a possibilidade de se expressar através do rap e sonhar com uma vida melhor vinda pelo caminho da música.

É até interessante como o diretor consegue equilibrar todos os pormenores dessa vida que ele cria em tela, com situações importantes sendo colocadas em tela e criando uma imagem muito mais humanizada sobre a crise humanitária congolesa e as necessidades dos imigrantes do país. No caso de Robert, ele tem seus pais presos pela falta de papéis, precisa buscar abrigo para si mesmo e para os seus irmãos com uma figura que não compreendemos exatamente quem é, apenas que é um político ou militar (ou ambos) relevante, tem uma centena de pequenos empregos para tentar garantir o mínimo para a família, ainda lida com a escola e com tentar equilibrar os seus sonhos no meio de tudo isso. O filme faz questão de mostrar as dificuldades com cenas que vão desde as suas visitas aos pais nas prisões, a tentativa de regularizar a sua situação com ajuda de uma ONG internacional, a rotina atribulada. Mas ao mesmo tempo, ele também faz questão de mostrar os momentos de felicidade, sejam eles a possibilidade de cantar com os seus colegas enquanto trabalha, as conversas com a sua irmã, a cena emocionante na qual ele apresenta a RDC para o seu irmão mais novo ou a energia de entrar em um palco. Também existe um conflito externo que é difuso, mas que deixa claro que a situação da instabilidade da qual seus pais tentaram fugir segue como parte de seu dia-a-dia, com o público sendo surpreendido a qualquer momento com uma bala que pode vir de qualquer direção.

Formalmente, percebe-se que é um filme que tenta fazer o máximo com poucos recursos, com a utilização de iluminação natural sempre que possível, câmeras que parecem mais instáveis mesmo em momentos nos quais isso não se traduz claramente como uma linguagem e uso de locações que parecem ser os locais reais do dia-a-dia da população. Mesmo que às vezes a linguagem se perca um pouco pela necessidade, isso não impede o filme de contar a sua história e trazer luz a uma possibilidade de vida que muitas vezes aparece apenas como uma linha de dado em um telejornal.

A obra funciona, então, como uma ode à possibilidade de sonhar mesmo em um cenário que está longe de ser ideal. Ele não romantiza a pobreza nem a dificuldade, deixando claro que elas estão presentes nessa vida de maneira muito prejudicial, mas mostra o quanto que a vida consegue continuar acontecendo apesar delas. Seguindo esse molde mais clássico de narrativa, ele consegue emocionar todo o público, independentemente da sua compreensão de todos os conflitos aos quais se refere.

Congo Boy (Central African Republic, Democratic Republic of the Congo, France, Italy, 2026)

Original Title: Congo Boy

Director: Rafiki Fariala

Screenplay: Rafiki Fariala, Tommy Baron, and Boris Lojkine

Cast: Bradley Fiomona Dembeasset, Christy Djomanda Louba, Pétruche Mbomba, Rosiana Kotozia, Gloria Ambacko, Dieufera Sana

Runtime: 95 minutes (1h 35m)

While there are a multitude of films dealing with migration from African countries to Europe, far less is said on the big screen about migration between African countries. A clear initial obstacle is that European cinema benefits from far greater internal and external support, allowing it to tell the stories of people who view this journey as a chance for a different life; in contrast, African film industries remain much less visible and viable, with few standout works managing to cross the continent’s invisible borders and reach audiences in other regions. Furthermore, migration flows within the region are distinct, more complex and circular, with specific political situations capable of shifting drastically in a short period.

This is a welcome surprise offered by Congo Boy, a co-production between the Central African Republic (CAR), the Democratic Republic of the Congo (DRC), France, and Italy, which focuses on a young Congolese immigrant living in the CAR. Although there is a massive flow of migrants leaving the DRC, few settle in the neighboring country, partly because legalizing one’s status there is highly complicated, a fact the film itself demonstrates. Yet, director and co-writer Rafiki Fariala refuses to tell a story that fits into a stereotype, incorporating art as a form of resistance and a central passion in the life of Robert (Bradley Fiomona Dembeasset). Life can be incredibly complicated and fraught with responsibility, yet there is always the possibility of expressing oneself through rap and dreaming of a better life forged through music.

It is fascinating how the director balances the intricacies of the life depicted on screen; by presenting key situations, the film creates a deeply humanized portrait of the humanitarian crisis in the Congo and the needs of the country’s immigrants. Robert’s situation is complex: his parents are imprisoned due to a lack of legal documentation; he must seek shelter for himself and his siblings through a figure whose exact identity remains unclear, though it is clearly a prominent politician or military official (or both). He juggles countless odd jobs to provide the bare minimum for his family; and he still has to manage school and try to keep his dreams alive amidst it all. The film highlights these hardships through scenes ranging from prison visits to his parents and attempts to regularize his status with the help of an international NGO, to the sheer chaos of his daily routine. Yet, it also makes a point of showing moments of happiness: whether it’s singing with colleagues while working, talking with his sister, the moving scene where he introduces his younger brother to the DRC, or the electric energy of stepping onto a stage. There is also a diffuse external conflict that makes it clear the instability his parents tried to escape remains a part of their daily lives, with the audience constantly vulnerable to the shock of a bullet that could strike from any direction.

In terms of form, the film clearly strives to achieve the most with limited resources, utilizing natural light whenever possible, employing handheld camerawork that often feels unsteady, even when that choice doesn’t serve a clear stylistic purpose, and shooting on location in the actual places where the local population lives and works. Even if the storytelling sometimes falters slightly due to necessity, this does not prevent the film from telling its story and shedding light on a way of life that often appears merely as a data point on the evening news.

The film thus serves as an ode to the possibility of dreaming, even in a setting that is far from ideal. It neither romanticizes poverty nor hardship, making it clear that they are present in this life in deeply damaging ways, yet it shows how life manages to go on despite them. By following a more classic narrative structure, it succeeds in moving the entire audience, regardless of their familiarity with the specific conflicts depicted.

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