Crítica | Godzilla Minus Zero

Godzilla Minus Zero (Japão, 2026)

Título Original: ゴジラ-0.0 (Gojira Mainasu Zero)
Direção: Takashi Yamazaki
Roteiro: Takashi Yamazaki
Elenco principal: Ryunosuke Kamiki, Minami Hamabe, Miō Tanaka, Min Tanaka
Duração: 135 minutos
Distribuição: Sato Company

Quando Godzilla Minus One (2023) foi lançado, ele retornou os olhos do mundo para o país que inventou um dos monstros mais conhecidos do mundo, cuja fama é tão prolífica que lhe rendeu até uma série de filmes na indústria hollywoodiana. Com a criatura de volta ao estúdio que a criou, a Toho, e com o foco de volta ao cenário catastrófico do Japão pós II-Guerra Mundial, a obra acabou funcionando tanto como um retorno às suas origens quanto como uma modernização das suas temáticas iniciais. Ele conseguiu trazer uma visão pessoal de seu protagonista Kōichi (Ryunosuke Kamiki) misturada ao trauma de toda uma geração, dando profundidade ao dilema moral da culpa de quem sobrevive a um acidente horrível.

Este mesmo personagem retorna em Godzilla Minus Zero, que se passa alguns anos depois, quando uma grande ameaça volta a rondar o Japão. Só que agora Kōichi não é mais um ex-soldado com praticamente nada a perder, mas sim um homem que conseguiu constituir uma família junto a Noriko (Minami Hamabe) e Akiko (Sae Nagatani), aumentando todas as expectativas sobre a sua própria vida. Mas, quando a sua pátria precisa dele novamente, a questão é se essa necessidade seria o suficiente para fazer com que ele potencialmente abra mão deste novo equilíbrio alcançado em vida.

A mesma excelência alcançada em relação aos efeitos especiais do primeiro longa consegue se manter no novo, sendo esse um dos principais elementos que chamou a atenção das audiências ao redor do mundo. A obra conseguiu um maior orçamento incentivado pelo sucesso do primeiro filme, e isso permitiu uma parte das cenas com câmeras Imax, dando uma resolução altíssima ao que é gravado. Além disso, existem cenas incríveis de ação e combate que remetem ao cinema blockbuster estadunidense, que o diretor afirmou inclusive terem sido parte de sua inspiração. Quase como em um movimento anticolonialista, ele parece conseguir absorver muito bem a emoção e adrenalina que fazem com que esse tipo de cena funcione, mas aplique esses métodos a uma ótica  japonesa, reciclando e tornando essas fórmulas em algo mais autoral. Se isso já era presente no primeiro filme, aqui encontra o seu ápice, exatamente por conta dessa maior liberdade promovida pelo maior orçamento. Também existe uma mistura entre elementos de efeitos visuais com a produção de elementos de cena que fazem com que o filme tenha um visual bem próprio, como nas cenas que envolvem a batalha com aviões, que foram construídos em escala real para a filmagem.

O que não consegue alcançar o mesmo desenvolvimento quanto a sua parte estética é o modo com que os dramas pessoais se intercalam com os dramas coletivos. Aqui, por mais que exista uma grande temática do questionamento moral de abrir mão de uma tranquilidade por conta de uma obrigação com o país, isso acaba sendo muito menos interligado com a trama histórica do que no primeiro filme. Conseguimos perceber, por exemplo, que o Japão ainda está em recuperação no pós-Guerra, como com as visitas que a família faz ao orfanato para crianças órfãs, mas isso é muito menos relacionado com a trama geral da obra. Entre isso e um drama familiar que não consegue convencer os espectadores dado o seu pouco contato com esses personagens, o filme acaba perdendo bastante nessa interação. Existe um sentimentalismo muito forte que parece rondar toda a trama, e isso por vezes até acaba retraindo um pouco dos aprendizados que Kōichi teve na primeira obra. Ao invés de se expandir a sua jornada, ela acaba se tornando circular.

Ainda assim, o filme está longe de ser apenas uma batalha visual sem sentido, como as obras mais recentes do Godzilla vindas de Hollywood acabaram se tornando. Ele lida com a moralidade japonesa e com a inserção de camadas do horror persistente de uma nação que acaba de perder uma guerra e tem duas cidades dizimadas nuclearmente, ainda que isso não esteja no foco da narrativa como no anterior. Entre as surpresas apresentadas, percebe-se uma preocupação profunda do diretor em respeitar o histórico e ainda assim trazer algo de novo para a franquia.

Godzilla Minus Zero não tem o elemento surpresa que fez com que o público se apaixonasse pelo seu antecessor, mas ainda assim tem elementos suficientes para que o público se encante mais uma vez com a sua trama ainda humana, mesmo quando enfrentando um kaiju. 

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