Klara e o Sol (Estados Unidos, 2026)
Título Original: Klara and the Sun
Direção: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi e Dahvi Waller (baseado no romance de Kazuo Ishiguro)
Elenco principal: Jenna Ortega, Amy Adams, Natasha Lyonne, Simon Baker, Mia Tharia
Duração: 116 minutos
Distribuição: Sony Pictures
Misturar Taika Waititi e Kazuo Ishiguro não parece uma escolha óbvia, principalmente após a passagem do diretor pelos estúdios da Marvel para participar da série de filmes do Thor. Mas, pensando no cineasta que conseguiu trazer tão bem a estranheza da infância em Hunt For The Wilderpeople em 2016 e no sutil equilíbrio de Jojo Rabitt em 2019, essa escolha parece fazer mais sentido.
Na trama, baseada de forma direta no romance de Ishiguro, seguimos Klara (Jenna Ortega), uma Amiga Artificial criada para auxiliar adolescentes nesses anos complicados de suas vidas. Ou seja, uma inteligência artificial robótica cuja existência está atrelada à subserviência a um humano. Se 2026 foi um ano no qual as IAs foram muito discutidas no campo das artes, mas sem chegar a nenhuma conclusão ou regulamentação real, essa poderia ser uma trama a trazer mais elementos para fomentar um debate aprofundado. Ainda que pareça que o universo fictício no qual o filme se passa seja bem estabelecido e tenha clareza de suas regras, essas não são realmente explicadas aos espectadores, que acabam assumindo algo próximo às leis da robótica de Asimov. Acaba se falando muito mais sobre o comportamento humano do que sobre a interação humano-máquina, na primeira das oportunidades perdidas da obra.

A segunda dessas oportunidades é a de aprofundar o luto das personagens. Josie (Mia Tharia), a humana que acaba escolhendo Klara como sua companhia, e sua mãe, Chrissie (Amy Adams), passaram por um grande trauma com o falecimento de sua irmã quando elas eram apenas crianças. Isso influencia muito em sua solidão, assim como o fato de Josie ter passado pelo processo de elevação, uma terapia genética para torná-la mais inteligente. Com isso, existe toda uma abertura pra lidar com traumas e uma introspecção, mas se escolhe ir pelo caminho da ação, com a necessidade de algo grande e novo a cada momento, como que com medo de que o espectador se entedie.
Em compensação, há dois elementos que realmente fazem com que o filme recupere seu brilho. O primeiro é a atuação de Jenna Ortega e Mia Tharia, que conseguem transpor para as telas a alegria e encantamento de encontrar uma pessoa que te compreende no mundo. Não à toa, a imagem que fica na mente dos espectadores é a dessas duas garotas conversando e se divertindo.
O segundo elemento que acaba chamando a atenção é a direção de arte do longa. Com uma brincadeira de retrofuturismo alinhado a essas tecnologias realmente futuristas, cria-se uma ideia ao mesmo tempo nostálgica e exagerada do visual que combina com essa visão inocente que a protagonista tem do mundo. Com uma paleta de cores com alguns azuis e amarelos profundos misturada aos figurinos mais futuristas, existe esse equilíbrio que torna a obra mais interessante ao observarmos seus detalhes.
Longe de ser o terror anunciado pelo seu primeiro final de semana nos EUA, mas também não conseguindo aprofundar as temáticas que propõe, Klara e o Sol parece bem alinhado às últimas produções de Waititi: um potencial desperdiçado.




