Crítica | 51º TIFF | Ha-Chan, De Volta à Dança!

Ha-chan, Shake Your Booty! (Estados Unidos, 2026)

Título Original: Ha-chan, Shake Your Booty!
Direção: Josef Kubota Wladyka
Roteiro: Josef Kubota Wladyka e Nicholas Huynh
Elenco principal: Rinko Kikuchi, Alberto Guerra, Alejandro Edda, You, Yoh Yoshida
Duração: 122 minutos (2h 2min)
Distribuição: Sony Pictures Classics 

Quando estamos lidando com escolhas feitas dentro de um festival, muitas vezes um filme simplesmente chama a atenção por conta de um pôster, título ou sinopse. Foi exatamente a combinação entre esses três que me levou à vontade de ver Ha-Chan, Shake Your Booty!. A maquiagem propositalmente exagerada do pôster, o figurino igualmente camp e a proposta de uma personagem japonesa apaixonada por dança latina que precisa lidar com o luto da perda de seu esposo e companheiro de dança são uma combinação muito específica, mas que pareceu perfeita para a criação de um longa-metragem. Saber ainda que o diretor Josef Kubota Wladyka escreveu o roteiro pensando em sua própria mãe e, mesmo morando nos EUA, foi realizar a produção no Japão, foi o último ponto para convencer que o filme seria realmente único e potencialmente emocionante.

É realmente satisfatório perceber que seus instintos estavam corretos em relação a uma obra, ou que julgar o livro pela capa por vezes ainda traz resultados que funcionam. A primeira cena já dá o tom da obra: ouvimos o som de pipoca com o fundo preto e, quando finalmente nos é revelada a cena, temos Ha-Chan (Rinko Kikuchi) comendo pipoca de hashi. É nessa mistura de referências japonesas, estadunidenses, mexicanas e latinas de forma geral que o filme se pauta, colocando a multiculturalidade como elemento essencial – e que faz sentido considerando o diretor e sua ascendência que mistura Japão e Polônia. Acompanhamos sua vida com o marido Luis (Alejandro Edda) e rapidamente o vemos partir, deixando Haru em uma nuvem de tristeza e luto.

Se as cenas de dança inicial não são o suficiente para convencer o espectador de seu tom particular, a representação do luto em tela certamente é. Entre os ritos japoneses e mexicanos, acabamos encontrando um corvo gigante que aparece como a representação do luto, mas não um corvo assustador, e sim uma espécie de mascote fofinho, quase estereotipado. O modo que essa figura aparece diversas vezes em cena é um termômetro de como esse luto está sendo superado, e é ao criar esse tipo de imagem metafórica que a trama vai ganhando profundidade emocional.

Mesmo brincando com estereótipos, a obra ainda demonstra uma visão bastante objetiva sobre situações como o machismo e a xenofobia japonesas, colocadas de maneira secundária à narrativa principal, mas que estão sempre presentes, como na cena em que um grupo de homens cerca Haru em uma estação de trem. Ao longo da narrativa, que vai em uma direção completamente inesperada quando Haru acaba se apaixonando por seu novo professor de dança, Fedir (Alberto Guerra), tem-se a sensação de que são esses pequenos elementos que parecem secundários que são os realmente importantes, como a necessidade das amizades para superar desafios.

O clima criado através tanto da direção de arte, os belíssimos figurinos e um pensamento profundo sobre quem são esses personagens e quais são os espaços pelos quais eles circulam indicam tanto uma pesquisa intensa tanto sobre o espaço quanto sobre as pessoas que o habitam. Saímos do filme com a sensação de querer conhecer esse universo fictício criado, o que é um bom indicador do quanto da essência de humanidade que acaba se conseguindo captar na obra. Isso, somado à nostalgia presente em toda a trilha sonora, fazem com que não se consiga tirar o filme da cabeça por alguns dias.

Assim, mesmo tendo uma proposta estética e narrativa um tanto ousadas, o filme consegue captar os espectadores por esse conteúdo que busca a humanidade mesmo sob essas condições inesperadas.

Ha-chan, Shake Your Booty! (United States, 2026)

Original Title: Ha-chan, Shake Your Booty!

Director: Josef Kubota Wladyka
Writers: Josef Kubota Wladyka and Nicholas Huynh
Cast: Rinko Kikuchi, Alberto Guerra, Alejandro Edda, You, Yoh Yoshida
Runtime: 122 minutes (2h 2min)
Distribution: Sony Pictures Classics

When navigating a film festival lineup, a movie often catches one’s eye simply because of its poster, title, or synopsis. It was precisely the combination of these three elements that drew me to Ha-Chan, Shake Your Booty!. The poster’s intentionally exaggerated makeup, the equally campy costumes, and the premise — a Japanese woman passionate about Latin dance who must cope with the loss of her husband and dance partner — formed a very specific mix that seemed perfect for a feature film. Learning that director Josef Kubota Wladyka wrote the screenplay with his own mother in mind — and chose to produce the film in Japan despite living in the U.S. — was the final factor that convinced me the movie would be truly unique and potentially moving.

It is deeply satisfying to realize your instincts about a work were right, or to find that judging a book by its cover can sometimes yield successful results. The opening scene sets the tone: we hear the sound of popcorn against a black screen, and when the image is finally revealed, we see Ha-Chan (Rinko Kikuchi) eating popcorn with chopsticks. The film is grounded in this blend of Japanese, American, Mexican, and broader Latin influences, positioning multiculturalism as an essential element — a choice that makes perfect sense given the director’s mixed Japanese and Polish heritage. We follow her life with her husband, Luis (Alejandro Edda), and quickly see him pass away, leaving her in a cloud of sorrow and grief.

If the opening dance scenes aren’t enough to convince the viewer of the film’s unique tone, its portrayal of grief certainly does the trick. Amidst Japanese and Mexican rituals, we encounter a giant raven that embodies her grief — not a frightening bird, but rather a sort of cute, almost stereotypical mascot. The way this figure repeatedly appears on screen serves as a barometer for how she is processing her loss; it is through such metaphorical imagery that the plot gains emotional depth.

While playing with stereotypes, the film still offers a clear-eyed perspective on issues like Japanese sexism and xenophobia. Though secondary to the main narrative, these themes remain ever-present — such as in the scene where a group of men corners Haru at a train station. As the story takes an entirely unexpected turn — with Haru falling for her new dance instructor, Fedir (Alberto Guerra) — one realizes that these seemingly minor elements are actually the most significant, highlighting themes like the vital role of friendship in overcoming challenges.

The atmosphere — shaped by the art direction, stunning costumes, and a deep understanding of the characters and their environments — reflects extensive research into both the setting and the people who inhabit it. We leave the film wanting to know more about this fictional world — a testament to the film’s ability to capture a genuine sense of humanity. This, combined with the nostalgic quality of the soundtrack, ensures the movie stays with you long after the credits roll. Thus, despite its somewhat bold aesthetic and narrative approach, the film manages to captivate viewers through content that seeks out humanity, even under such unexpected conditions.

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