Julián (Irlanda, Estados Unidos, França, 2026)
Título Original: Julián
Direção: Louise Bagnall
Roteiro: Juliany Taveras baseado na obra de Jessica Love
Elenco principal: Knyght Darius Jack, Anthony Sardinha, Milcania Diaz-Rojas, Zariah Georgia Ellis, Kim Roberts e Stephanie Herrera
Duração: 85 minutos (1h 25min)
Em um mundo de temas pesados e filmes que refletem uma realidade repleta de guerras e conflitos, Julián é uma pausa colorida e delicada, que nos ajuda a parar por um pouco mais de uma hora e imergir em um mundo alegre, colorido e que nos permite depositar novamente alguma fé na humanidade.

Julián é um garoto que vai passar as férias com a avó, enquanto seu pai trabalha. Já na despedida, o pai relembra sua mãe, Carmella, que o seu filho é uma criança diferente de quem ele era quando jovem. Esse é o prenúncio para entendermos um pouco da mensagem de pertencimento e busca de identidade que a obra vai tratar, pois os conflitos entre esses quase dois desconhecidos são inevitáveis. Carmella é uma senhora do Brooklyn, orgulhosa de suas origens dominicanas e que tem uma rotina bem organizada, do cuidado com suas plantas até o momento de fofoca com as amigas. Julián é um garoto curioso, que não conhece tanto sobre as suas origens familiares, mas que não tem as mesmas travas sócio-culturais que a maioria das pessoas. Isso pode ser entendido tanto como uma neuro divergência quanto como uma identidade queer em formação, mas a obra não está tão interessada em limitar a interpretação de quem assiste, mas sim em deixar o filme aberto para uma mensagem de aceitação que pode ser universal.
Além dos conflitos cotidianos, a grande questão da obra é que Julián faz amizade com três garotas que o convidam para participar do desfile de sereias que acontece em Coney Island, e supostamente a ideia de um garoto ser uma sereia não é bem aceita pelos outros ao seu redor. Isso gera toda uma jornada de reflexão e conexão entre o garoto e a avó, com caminhos que vão desde a redescoberta da senhora de alguns de seus interesses até o conhecimento do garoto da orixá Iemanjá, que o auxiliará nessa jornada.
É um alívio ver uma obra cheia de cores e formas, com imagens que também nos evocam aromas e gostos, e que conseguem causar um impacto sensorial tanto em crianças quanto em adultos. Pode ser fácil fazer uma obra que alcance o público infantil, mas trazer as camadas de profundidade que a tornam interessante para os adultos é uma tarefa mais complicada, mas que o filme tira de letra. Trazer a identidade latina, a busca do garoto por entender o conflito entre a sua identidade e o que as pessoas acreditam ser o correto e a conexão familiar como valores centrais são o que ajuda a criar esse lindo caminho, e somos facilmente levados por ele.
É necessário também notar a qualidade da animação, com o estúdio Cartoon Saloon que já é conhecido tanto pela sua qualidade técnica quanto pelo uso criativo de cores e movimentos. Em uma obra muito mais urbana que as suas anteriores, eles foram capazes de criar uma cidade viva e pulsante, com um uso de cores que consegue evocar esse universo infantil ao mesmo tempo em que hipnotiza adultos interessados pela arte da animação.
Julián é um lembrete sobre o diálogo, a honestidade e a compreensão em uma época em que todas essas palavras estão quase caindo em desuso. Mais uma prova de que, quando miramos nas crianças, ainda existe uma esperança de que a humanidade comece a melhorar.
Julián (Ireland, United States, France, 2026)
Original Title: Julián
Director: Louise Bagnall
Writer: Juliany Taveras, based on the work by Jessica Love
Cast: Knyght Darius Jack, Anthony Sardinha, Milcania Diaz-Rojas, Zariah Georgia Ellis, Kim Roberts, and Stephanie Herrera
Runtime: 85 minutes (1h 25min)
In a world of heavy themes and films reflecting a reality rife with war and conflict, Julián offers a colorful, delicate respite. It allows us to pause for just over an hour and immerse ourselves in a joyful, vibrant world — one that restores a measure of faith in humanity.
Julián is a boy spending his vacation with his grandmother while his father works. As they say goodbye, his father reminds his mother, Carmella, that her grandson is a different kind of child than he himself was at that age. This foreshadows the film’s exploration of belonging and the search for identity, as friction between these two near-strangers is inevitable.
Carmella is a Brooklyn woman proud of her Dominican roots; she leads a highly organized life, from tending to her plants to gossiping with friends. Julián is a curious boy who knows little about his family background but lacks the sociocultural inhibitions that constrain most people. This trait could be interpreted as neurodivergence or an emerging queer identity; however, the film is less interested in limiting the viewer’s interpretation than in remaining open to a universal message of acceptance.
Beyond the everyday conflicts, the story’s central premise is that Julián befriends three girls who invite him to join the mermaid parade at Coney Island — an idea that isn’t exactly well-received by those around him, given that he is a boy. This sparks a journey of reflection and connection between the boy and his grandmother, leading to everything from her rediscovering old passions to the boy learning about the Orisha Yemayá, who guides him along the way.
It is a relief to see a work so rich in color and form — featuring imagery that evokes scents and flavors — that manages to create a sensory impact on both children and adults. While creating something that appeals to children can be easy, adding the layers of depth that make it engaging for adults is a far more complex task — yet this film pulls it off effortlessly. By centering on Latin identity, the boy’s struggle to reconcile his true self with societal expectations, and the importance of family bonds, the film crafts a beautiful narrative journey that effortlessly draws the viewer in.
The quality of the animation is also noteworthy; the studio, Cartoon Saloon, is already renowned for its technical excellence and creative use of color and movement. In a setting far more urban than their previous works, they have created a vibrant, pulsating city — using a color palette that evokes a child’s world while simultaneously mesmerizing adults who appreciate the art of animation.
Julián serves as a reminder of the value of dialogue, honesty, and understanding — qualities that seem to be falling out of fashion these days. It is further proof that when we create for children, there remains hope that humanity can begin to improve.




