Crítica | 51º TIFF | Look Back

Look Back (Japão, 2026)

Título Original: ルックバック
Direção: Hirokazu Kore-eda
Roteiro: Hirokazu Kore-eda baseado no mangá de Tatsuki Fujimoto
Elenco principal: Masaki Suda, Kankurō Kudō, Kayo Noro, Ryō Ikeda, Miyu Sasaki, Maho Yamada
Duração: 100 minutos (1h 40min)

Hirokazu Kore-eda é um cineasta que já tem uma carreira muito bem estabelecida, apesar da recepção morna da crítica ao seu novo filme Sheep In The Box. Em seu segundo longa-metragem lançado em 2026, ele faz uma abordagem live action da história lançada no mangá de Tatsuki Fujimoto que já ganhou uma adaptação em animação de 2024 dirigida por Kiyotaka Fujimoto.

Partindo do mesmo material de base, os dois filmes seguem roteiros muito parecidos: seguir a amizade das garotas Fujino (Natsuki Deguchi) e Kyomoto (Aju Makita) alimentada pela sua paixão por desenhar ao longo dos anos. É interessante que na introdução ao filme que aconteceu no festival, Kore-eda afirmou ter lido o mangá e se apaixonado antes de qualquer possibilidade de transformá-lo em filme, e apenas depois de uma reunião com Fujimoto decidiu realmente adaptar a obra. Percebe-se que existe um carinho enorme do diretor pelo material original, e um cuidado em como transformar uma história sensível em um filme que consiga captar essa sensibilidade.

O primeiro ponto fundamental para esse sucesso foi a escolha das atrizes, justamente porque as personalidades das personagens precisavam funcionar de maneira complementar. Como o filme lida com crianças, seria fácil perder esse equilíbrio entre uma mente mais introvertida e outra extrovertida, a diferença entre a pessoa que faz os planos e aquela que tem a coragem de jogá-los no mundo. A dupla Natsuki Deguchi e Aju Makita consegue fazer essa situação funcionar muito bem, causando deleite em quem assiste e teve qualquer amizade profunda movida por uma paixão em comum. O filme avança no mesmo ritmo mais lento do mangá, sendo mais exploratório em seu início e acelerado em sua última parte, mas isso faz parte do ritmo da narrativa e não incomoda o espectador, apenas o ajuda a se ambientar nessa realidade específica de meninas no interior do Japão.

O segundo elemento que encanta é a forma como a fotografia do longa foi captada, com luzes naturais sendo refletidas na película através das estações do ano da mesma forma que as formas e cores geram um movimento próprio no mangá. É um trabalho obsessivo que reflete a mesma paixão demonstrada no filme, e que tanto ajuda o público a compreender aquele espaço e a relação das meninas com ele quanto nos faz pensar sobre essa paixão que move os realizadores, mesmo quando eles estão fazendo um trabalho complexo. O mesmo se reflete no design de som do longa, que consegue nos transmitir elementos tão simples quanto o passar de lápis em uma folha de maneira aumentada, mas ainda muito satisfatória. São as preocupações que acabam dando o acabamento mais refinado à obra e gerando esse reflexo do seu conteúdo.

Ainda assim, é necessário reconhecer que a obra é bastante econômica em palavras e muitas vezes prefere mostrar a explicar, e isso pode incomodar quem deseja uma maior complexidade psicológica explícita. O filme lida muito mais com os interiores de suas personagens do que em dar grandes explicações, em uma sensibilidade um pouco distante das expectativas mais industriais do cinema.

É muito feliz ver uma adaptação conseguindo ser feita com o mesmo ímpeto apaixonado do que a obra que a deu origem. Mesmo correndo o risco de ser um pouco redundante à animação, Look Back é uma experiência encantadora por si só.

Look Back (Japan, 2026)

Original Title: ルックバック (Rukku bakku)
Director: Hirokazu Kore-eda
Writer: Hirokazu Kore-eda, based on the manga by Tatsuki Fujimoto
Cast: Masaki Suda, Kankurō Kudō, Kayo Noro, Ryō Ikeda, Miyu Sasaki, Maho Yamada
Runtime: 100 minutes (1h 40min)

Hirokazu Kore-eda is a filmmaker with a well-established career, despite the lukewarm critical reception of his recent film Sheep In The Box (箱の中の羊 , Hako no naka no hitsuji, 2026). In this second feature film released in 2026, he presents a live-action take on the story from Tatsuki Fujimoto’s manga — which already received an animated adaptation in 2024 directed by Kiyotaka Fujimoto.

Drawing from the same source material, both films follow very similar storylines: tracing the friendship between Fujino (Natsuki Deguchi) and Kyomoto (Aju Makita), a bond fueled by their shared passion for drawing over the years. Interestingly, during the film’s festival introduction, Kore-eda stated that he had read and fallen in love with the manga long before any possibility of a film adaptation arose, deciding to actually adapt the work only after meeting with Fujimoto. The director’s immense affection for the original material is evident, as is the care taken to transform a delicate story into a film that successfully captures that sensitivity.

A key factor in this success was the casting, as the characters’ personalities needed to complement one another. Since the film deals with children, it would have been easy to lose the balance between an introverted mind and an extroverted one — the distinction between the planner and the person with the courage to put those plans out into the world. The duo of Natsuki Deguchi and Aju Makita makes this dynamic work beautifully, delighting viewers who have experienced a deep friendship fueled by a shared passion. The film moves at the same measured pace as the manga, taking its time early on before picking up speed in the final act, yet this narrative rhythm never feels jarring; instead, it helps immerse the viewer in the specific world of these girls living in rural Japan.

Another enchanting element is the cinematography, which captures natural light shifting with the seasons — much like how shapes and colors create a sense of movement in the manga. It is a meticulous, obsessive effort that mirrors the passion depicted in the film itself; it not only helps the audience understand the setting and the girls’ connection to it but also prompts reflection on the passion driving the filmmakers as they tackle such complex work. This same attention to detail extends to the sound design, which amplifies simple sounds, like a pencil moving across paper, into something deeply satisfying. Such thoughtful touches lend the film a refined finish that perfectly reflects its subject matter.

That said, it is worth noting that the film is sparing with dialogue, often preferring to show rather than tell — an approach that might not suit viewers seeking explicit psychological complexity. The film focuses far more on the characters’ inner lives than on providing elaborate explanations, adopting a sensibility that diverges from mainstream cinematic expectations.

It is truly gratifying to see an adaptation crafted with the same passionate spirit as the original work. Even if it risks feeling somewhat redundant given the existence of the animated version, Look Back stands as a delightful experience in its own right.

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