Crítica | 51º TIFF | Stuffed

Stuffed (Reino Unido, 2026)

Título Original: Stuffed
Direção: Theo Rhys
Roteiro: Theo Rhys e Joss Holden-Rea
Elenco principal: Jodie Comer, Harry Melling, Claire Novelli, Jonathan Aris, Sian Gibson, Joshua Griffin e Robert Goodman
Duração: 117 min (1h 57min)

Considerando que o TIFF é um festival conhecido por um equilíbrio entre super produções hollywoodianas, lançamentos do cinema asiático e filmes menores com certa ousadia estética ou narrativa, Stuffed é exatamente o tipo de obra que cai na última categoria e que estreia no festival em busca de distribuição. Afinal, ele é um musical de horror corporal que lida com a solidão e taxidermia, e essas palavras todas parecem não fazer sentido em uma só frase, então a transposição disso para telonas é uma experiência pouco usual.

A obra dialoga bastante com a estética gótica ao contar a história de Bernie (Harry Melling), um homem que percebe a mediocridade da própria vida, e seu inesperado encontro com Araminta (Jodie Comer), uma taxidermista que deseja realizar o seu grande desejo de poder finalmente eternizar um ser humano através das técnicas de empalhamento. Transportando o universo das grandes mansões para uma Inglaterra industrial e aproveitando para acrescentar músicas que soam como musicais mais clássicos para que os personagens possam expressar os seus desejos, cria-se um universo realmente particular. 

O filme aproveita muito bem a dualidade apresentada que fica entre a amizade sendo criada pelos dois personagens e suas situações individuais bastante complexas, com a solidão quase existencial de Bernie sendo comparadas frequentemente à solitude brutal e sanguinolenta de Araminta esfolando criaturas. Mais do que isso, ele consegue também explorar a noção de imortalidade e do decaimento natural do corpo humano, justamente quando o medo de Bernie em ter uma existência simplória se encontra com a alegria de Araminta em poder tentar alterar essa perspectiva.

A grande questão que permanece com o final do filme é compreender exatamente qual é o seu público, porque ele tem uma proposta de roteiro bastante ousada somada a uma proposta de realização audiovisual muito mais rígida. Temos, por exemplo, esses personagens perturbadoramente interessantes sendo colocados em uma narrativa clássica com todos os meandros do musical clássico. Ao mesmo tempo, eles também passam por situações extremamente violentas graficamente, mas que ressaltam um pouco do seu vazio interno. Justamente por lidar com questões que estão tão diametralmente opostas dentro das preferências de público – por exemplo, geralmente quem adora horrores corporais não costuma ser um grande fã de musicais – que se torna difícil conseguir enxergar qual é o meio termo de quem vai assisti-lo nos cinema. Isso, somado a uma duração um pouco exagerada e às músicas muito bem produzidas, mas que não conseguem se manter vivas na cabeça do espectador, fazem com que as suas perspectivas de lançamento sejam um tanto limitadas.

Stuffed (UK, 2026)

Original Title: Stuffed

Director: Theo Rhys

Writers: Theo Rhys and Joss Holden-Rea

Cast: Jodie Comer, Harry Melling, Claire Novelli, Jonathan Aris, Sian Gibson, Joshua Griffin, and Robert Goodman

Runtime: 117 min (1h 57min)

Given that TIFF is a festival known for balancing Hollywood blockbusters, Asian cinema releases, and smaller films with a certain aesthetic or narrative boldness, Stuffed is exactly the kind of work that falls into the latter category — premiering at the festival in search of distribution. After all, it is a body-horror musical dealing with loneliness and taxidermy; these concepts seem incongruous in a single sentence, making the film’s translation to the big screen a highly unusual experience.

The film engages deeply with Gothic aesthetics, telling the story of Bernie (Harry Melling), a man who realizes the mediocrity of his own life, and his unexpected encounter with Araminta (Jodie Comer), a taxidermist eager to fulfill her ultimate ambition: immortalizing a human being through her craft. By shifting the setting from grand mansions to industrial England and incorporating songs reminiscent of classic musicals, allowing characters to voice their desires, the film creates a truly unique universe.

It effectively capitalizes on the duality between the budding friendship of the two characters and their complex individual circumstances; Bernie’s near-existential loneliness is frequently juxtaposed with the brutal, bloody solitude of Araminta as she skins creatures. Moreover, the film explores notions of immortality and the natural decay of the human body, specifically where Bernie’s fear of a mundane existence meets Araminta’s joy at the prospect of altering that perspective.

The major question remaining at the end of the film is identifying its target audience, as it combines a bold screenplay concept with a much more rigid audiovisual execution. For instance, we see disturbingly interesting characters placed within a classic narrative framework that incorporates all the conventions of the traditional musical. At the same time, they endure situations of extreme graphic violence that nonetheless highlight their inner emptiness. Precisely because it deals with elements that appeal to diametrically opposed audience tastes — fans of body horror, for example, are rarely fans of musicals — it is difficult to envision the middle ground for its theatrical audience. This, combined with a somewhat excessive runtime and songs that, while well-produced, fail to linger in the viewer’s mind, suggests somewhat limited release prospects.

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