My Wife Cries (Alemanha, 2026)
Título Original: Meine Frau weint
Direção: Angela Schanelec
Roteiro: Angela Schanelec
Elenco principal: Vladimir Vulevic, Agathe Bonitzer, Birte Schnöink, Laure-Lucile Simon
Duração: 93 minutos
Talvez estar mais familiarizada com o cinema de Angela Schanelec ou saber que ela é parte da Escola de Berlim tivesse me preparado melhor para a sessão de My Wife Cries. Estar em meio a um festival de cinema de grande porte e chegar na maior parte das sessões sem muitas informações sobre a obra, esperando apenas ser surpreendida pelo filme, é uma opção pessoal que na maior parte das vezes funciona muito bem. Infelizmente, neste caso, o contexto talvez tivesse feito a experiência ser ainda melhor. Fui ao cinema pensando em uma obra mais clássica, como tem sido o caso da maior parte dos filmes da mostra competitiva do festival, e ao me deparar com um formalismo extraordinário, tive alguma dificuldade de entrar no ritmo e proposta do filme – um defeito meu, e não da obra.

O filme se inicia com o fato anunciado no título: a esposa chora. Thomas (Vladimir Vulevic) é um operador de guindaste e recebe a notícia que sua esposa esteve envolvida em um acidente de carro. Ao chegar lá e se deparar com Carla (Agathe Bonitzer), acaba se deparando com a esposa chorando e também contando a ele que seu colega de dança, que estava com ela no carro, morreu no acidente. Sem grandes discussões ou paixões, o filme vai lidando com o presente, o futuro e o passado desses dois personagens a partir de recortes de seu dia a dia juntos e separados, com um enfoque em longos planos e diálogos austeros nos quais ninguém ousa atravessar a fala do outro.
A obra toda funciona a partir desse distanciamento afetivo dos personagens como uma presença quase opressora. Seja pela dificuldade que eles têm em conversar ou até mesmo em transar, vamos compreendendo que essa é uma história sobre a morte de um amor. Ainda que ele force a distância dos espectadores, é impossível não se interessar por seus detalhes e pontos de vista apontados pela fotografia excepcional de Marius Panduru. Com uma grande dose de modernidade, conseguimos enxergar as tramas da vida e do cotidiano criando forças que aproximam e afastam esses dois personagens. Mais do que isso, percebemos que a imprevisibilidade e vulnerabilidade que os relacionamentos trazem são um elemento de sofrimento dentro dos casais modernos, cujas dificuldades de comunicação estão sempre presentes. Isso é constante em todos os personagens que aparecem no longa, e não apenas em seus protagonistas.
Ao utilizar uma forma hermética, o filme pode ter dois resultados. O primeiro, mais óbvio, é o de afastar quem busca um prazer mais rápido e que não consegue assistir a um plano longo sem cair no sono. O segundo é o de fazer com que o espectador queira desvendar os acontecimentos do filme, que é o que acontece com a parte da plateia que resiste ao seu primeiro plano longuíssimo, da primeira cena. Aí, se começamos a buscar os detalhes como o uso de cor nas imagens, a compreensão dos diálogos implícitos entre os personagens e encontrar a beleza no cotidiano, o filme se torna um prato cheio para a discussão.
Se eu puder ser honesta, gostaria de dizer que assistir ao filme uma segunda vez, já com uma noção melhor do que me deparar, seria bastante benéfico para a minha compreensão e escrita de uma crítica mais profunda. Mas, considerando contexto e situação, fica o lembrete para conhecer melhor o cinema de Angela Schanelec.




