Crítica | 76º Festival de Berlim | Yellow Letters

Yellow Letters (Alemanha, França e Turquia, 2026)
Título Original: Gelbe Briefe
Direção: İlker Çatak
Roteiro: Ayda Meryem Çatak, İlker Çatak, Enis Köstepen
Elenco principal: Özgü Namal, Tansu Biçer, Leyla Smyrna Cabas, İpek Bilgin, Yusuf Akgün, Kerem Can, Aziz Çapkurt, Ömer Filikci, Eray von Egilmez
Duração: 127 minutos

Um assunto que se manteve em alta durante todo o Festival de Berlim foi a fala inicial do presidente do júri, Wim Wenders: “Porque se fizermos filmes que sejam declaradamente políticos, entramos no campo da política. Mas somos o contrapeso da política, somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho do povo, não o trabalho dos políticos” (fala retirada da reportagem do Nexo Jornal). A fala trouxe muita repercussão, principalmente porque estava contextualizada em um questionamento sobre a falta de posicionamento do festival sobre o conflito entre Israel e Palestina. É bastante interessante que já o primeiro filme a ser exibido na Mostra Competitiva do festival esteja em um diálogo direto com a discussão.

Em Yellow Letters, seguimos a vida do casal turco Derya e Aziz, atriz e diretor de teatro respectivamente, a partir do momento em que ambos começam a ser perseguidos por conta de suas ideologias políticas. Aziz, que é também professor universitário, entra em uma espécie de caça às bruxas governamental que também o impede de dar aulas por conta de seu incentivo de que alunos participem das manifestações democráticas que aconteciam fora das salas de aula. Acompanhamos de perto como essas perseguições afetam as suas vidas e de seus colegas, e também o desenvolvimento de sua família, considerando que eles têm uma filha adolescente que também é abalada pelas mudanças na vida dos pais.

Existem dois elementos bem claros ao longo do filme. O primeiro deles é que esta não é uma obra de respostas fáceis, nas quais tudo rapidamente se resolve como em um passe de mágica. Percebemos a construção de cada elemento, desde a necessidade burguesa de permanecer trabalhando enquanto todo o processo se desenvolve, até a confiança familiar que muitas vezes é quebrada e precisa ser frequentemente discutida. O segundo é uma certa transponibilidade dos elementos entre a Turquia e a Alemanha. Não apenas por conta da filmagem em território alemão, mas também pelo uso de telas que informam essa decisão, o filme busca trazer atenção ao fato de que esse não é um movimento isolado acontecendo em apenas um lugar do mundo. É essa sensação de algo mais universal que aproxima o filme de qualquer audiência.

A obra também tenta trazer diversas discussões à tona, desde o uso da nudez feminina no palco e suas implicações para um diretor e para uma atriz, até sobre a necessidade de uma boa rede de apoio quando se é responsável por uma pessoa, independentemente de ser uma criança de colo ou uma adolescente. Ainda que às vezes se tenha a sensação de que o longa está tentando discutir tantos elementos que não consegue se aprofundar especificamente em nenhum deles, esse tipo de discussão traz maior profundidade aos personagens e uma credibilidade à narrativa, mesmo que o custo disso seja que não haja muito espaço para sutilezas.

Enquanto essa crítica era escrita, o filme recebeu o Urso de Ouro do festival, premiação máxima cedida a um filme, em um movimento de reclamação do Festival como um espaço no qual se deve discutir temas políticos. A premiação foi bastante surpreendente, dado que o filme não parecia estar entre preferidos nem da crítica nem do público, mas fez bastante sentido com a história que esse júri queria contar.

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