Hope (Coreia do Sul, 2026)
Título Original: Hopeu (호프)
Direção: Na Hong-jin
Roteiro: Na Hong-jin
Elenco principal: Hwang Jung-min, Zo In-sung, Jung Ho-yeon, Michael Fassbender, Alicia Vikander, Taylor Russell, Cameron Britton
Duração: 160 minutos (2h 40min)
Iniciar um filme de quase 3 horas de duração em um horário que passa das 10 da noite é um movimento ousado. Se nas conversas de corredor se falava sobre o fato de colocarem filmes asiáticos ou dirigidos por mulheres em horários ou momentos menos movimentados do festival, se isso foi um movimento consciente, ele certamente saiu pela tangente. Seja para elogiar, comentar a maluquice ou detestar, Hope foi um filme que incitou muitos diálogos dentro da programação de filmes da mostra competitiva.

Começamos a narrativa em Port Hope, uma pequena cidade fictícia perto da Zona Desmilitarizada (DMZ), na qual o chefe de polícia Bum-seok (Hwang Jung-min) é chamado para uma ocorrência de um animal de grande porte que está despedaçado na zona rural. A partir dessa premissa simples, passamos a um longa-metragem de ação incessante sobre essa criatura misteriosa que simplesmente destrói tudo o que vê pela frente, misturado com uma grande dose de comédia baseada na ação da polícia local e de personagens extremamente peculiares que são encontrados nesse processo.
Novamente, é muito difícil não citar um pouco da história recente do cinema sul-coreano para falar sobre a obra, até porque ela dialoga muito diretamente com os grandes blockbusters estadunidenses que foram o padrão de consumo internacional por muitos anos. Ainda que esse ritmo acelerado, a sensação de urgência e o perigo iminente estejam presentes em tela, Na Hong-jin consegue fazer isso de forma muito autêntica e peculiarmente coreana, tanto pelas preocupações dos personagens quanto pela sua geografia específica, ainda que seja uma cidade inventada. Enquanto ainda não sabemos exatamente o que é a criatura, existe uma camada de mistério se seria um animal ou até mesmo algo relacionado ao país vizinho, algo que dificilmente poderia ser produzido em algum outro local do mundo. Além disso, pelo uso da mão de obra coreana, ainda que este seja um filme longo e que envolve muita tecnologia, sendo o filme mais caro da história da Coreia do Sul, ele ainda é barato para os padrões hollywoodianos. Por mais que exista uma parte da crítica internacional que reclame da técnica de CGI utilizada, para alguém menos preciosista isso acaba fazendo pouca diferença.
O que temos é uma versão coreana caricata do que sempre esteve em pauta nesse cinema de catástrofe estadunidense, da necessidade de criação de herois inesgotáveis até a escolha de um lugar completamente despreparado, com uma população majoritariamente empobrecida e mais velha. Quando repentinamente aparecem todos os tipos de armamentos possíveis e uma quantidade surreal de pessoas dispostas a arriscar a sua vida para deter o monstro, entende-se que também se está falando de valores relacionados ao nacionalismo, ainda que a própria obra não se leve tão a sério.
Mais uma vez, é difícil não comentar sobre o soft power da cultura sul coreana nas artes nesse momento. Em um festival cheio de dramas europeus, marcado pela falta de filmes latinos e africanos e com poucos representantes da América do Norte, foi justamente este o filme a conseguir as maiores reações da plateia, mesmo tarde da noite em um dia de semana. Dos risos aos aplausos com a aparição de Jung Ho-yeon, os sul coreanos estão conseguindo redefinir uma forma de se comunicar com o público.
Ainda assim, é difícil não comentar sobre o momento desconfortável que aconteceu na coletiva de imprensa do filme, no qual uma jornalista lusófona faz questão de fazer uma pergunta apenas para o diretor e para a parte estadunidense do elenco, dizendo nem saber quem eram os outros. É o típico momento que nos lembra sobre como a falta de atualização e de noção de como se portar em um ambiente profissional fazem com que as pessoas percam sua relevância. Em um mundo onde tudo acontece tão rapidamente, ser abertamente ignorante e marginalmente racista é uma atitude que simplesmente não pode mais acontecer – ainda mais em um dos maiores festivais do mundo.
In English, translated by Renata Torres:
Hope (South Korea, 2026)
Original Title: Hopeu (호프)
Director: Na Hong-jin
Screenplay: Na Hong-jin
Main Cast: Hwang Jung-min, Zo In-sung, Jung Ho-yeon, Michael Fassbender, Alicia Vikander, Taylor Russell, Cameron Britton
Running Time: 160 minutes
Starting a nearly 3-hour-long film after 10 p.m. is a bold move. If hallway conversations discussed the fact that Asian films or films directed by women were scheduled for less busy times at the festival, whether this was a conscious move or not, it certainly went off on a tangent. Whether to praise, comment on the eccentricity, or detest it, Hope was a film that incited many dialogues within the competitive film program.
We begin the narrative in Port Hope, a small fictional town near the Demilitarized Zone (DMZ), where police chief Bum-seok (Hwang Jung-min) is called to a scene involving a large animal that has been torn to pieces in the countryside. From this simple premise, we move into a relentless action film about this mysterious creature that simply destroys everything in its path, mixed with a large dose of comedy based on the actions of the local police and the extremely peculiar characters encountered in the process.
Again, it’s very difficult not to mention some of the recent history of South Korean cinema when discussing this work, especially since it directly engages with the major American blockbusters that were the international consumption standard for many years. Even though the fast pace, the sense of urgency, and the imminent danger are present on screen, Na Hong-jin manages to showcase this in a very authentic and peculiarly “Korean way”, both through the characters’ concerns and its specific geography, even though it’s an invented city.
While we still don’t know exactly what the creature is, there’s a layer of mystery surrounding it, whether it’s an animal or even something related to the neighboring country, something that could hardly be produced anywhere else in the world. In addition, being a long film involving a lot of technology, besides the Korean labor, it became the most expensive film in South Korean history with a budget of approximately $52 million, which is still inexpensive by Hollywood standards. Some international critics may complain about the CGI techniques used, but for someone less meticulous this makes little difference.
What we have is a caricatured Korean version of what has always been central to American disaster films: the need to create inexhaustible heroes and the choice of a completely unprepared location with a predominantly impoverished and older population. When suddenly all sorts of weapons appear, along with a surreal number of people willing to risk their lives to stop the monster, it becomes clear that the film is also addressing values related to nationalism, even if the work doesn’t take itself that seriously.
Once again, it’s difficult not to comment on the soft power of South Korean culture in the arts at this moment. In a festival full of European dramas, marked by a lack of Latin American and African films and with few representatives from North America, this was precisely the film that garnered the strongest audience reactions, even late at night on a weekday. From laughter to applause at Jung Ho-yeon’s appearance, South Koreans are managing to redefine the way of communicating with the public.
Still, it’s difficult not to comment on the uncomfortable moment that occurred at the film’s press conference, in which a Portuguese-speaking journalist insisted on asking a question only to the director and the American part of the cast, saying she didn’t even know who the others were. This is the kind of moment that reminds us how a lack of awareness and understanding of how to behave in a professional environment causes people to lose their relevance. In a world where everything happens so quickly, being openly ignorant and marginally racist is an attitude that simply cannot be tolerated anymore – especially not at one of the world’s biggest festivals.
Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.




