Crítica | Anistia 79

Anistia 79 (Brasil, 2026)

Título Original: Anistia 79
Direção: Anita Leandro
Roteiro: Anita Leandro e Alice de Andrade
Elenco principal: Hamilton dos Santos, Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco, Branca Moreira Alves, Denise Crispim, Jean-Marc von der Weid
Duração: 105 minutos
Distribuição: Embaúba Filmes

Quando Anistia 79 se inicia, temos uma sequência de telas informativas sobre a ditadura brasileira, seu avanço nos anos 1970 e a existência da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, evento que aconteceu em Roma em 1979 com parte da esquerda exilada do país para relatar os acontecimentos e tentar fortalecer o movimento que buscava uma anistia para os presos políticos. A informação é importante para a compreensão do documentário, mas ela também demonstra a maior dificuldade que o documentário vai encontrar em sua execução: como equilibrar forma e conteúdo em uma obra que depende de ambos?

Logo compreendemos a lógica do longa, de mostrar as imagens que estavam esquecidas em um porão para as pessoas sobreviventes ou descendentes daqueles que estão em tela. Uma excelente ideia que ajuda a compreender tanto as presenças quanto as ausências que o período ditatorial causaram no nosso país, de uma filha que observa novamente a sua mãe em movimento em tela à esposa e filha que novamente podem ver o companheiro e pai falando e se movimentando pelas ruas da cidade após uma morte violenta. Lidar com a memória e com a possibilidade de ver um material inédito dentro de um país que fez questão de trancar os seus fantasmas no porão ao invés de enfrentá-los de frente é por si só um ato de coragem e dedicação da artista e documentarista Anita Leandro. 

Sua formação como artista inclusive ajuda muito nos resultados obtidos pelo longa. Tanto considerando a exibição de cena e entrevistado ao mesmo tempo, quanto em escolher quais trechos colocar para cada personagem e como editar as suas reações, percebe-se uma preocupação grande em não deixar a temática, que é muito importante, se sobrepor completamente em como a imagem audiovisual está sendo tratada. Algumas cenas parecem perfeitamente pensadas para nos lembrar do trabalho por trás das câmeras do documentário, como as cenas no laboratório francês procurando uma imagem específica ou até mesmo a imagem da conferência que mostra o microfonista em ação. Isso nos ajuda a recordar que esse é um trabalho que envolve uma quantidade enorme de pessoas, desde a gravação do material em 1979 até a sua recuperação, entrevistas e edição do novo material. São esses lembretes que afastam o filme de um formato mais clássico e dão mais camadas de interpretação, afastando-o justamente dessa função puramente informativa.

É belíssimo poder acompanhar os acontecimentos de maneira guiada pelos entrevistados, tanto conseguindo explicar melhor a importância de uma pessoa em particular quanto podendo falar de suas próprias experiências e como elas se relacionam com as imagens. Novamente, existe um papel até histórico para a esquerda brasileira em ter acesso a essas imagens e compreender alguns de seus pontos de luta e personagens esquecidos pela história. Só nas imagens do congresso, temos material suficiente de depoimentos para relembrar ao povo alguns dos acontecimentos tenebrosos da ditadura brasileira.Manter viva essa história e memória, e poder explorar os acontecimentos com as pessoas próximas ao que está sendo mostrado, é dar mais um passo em relação a não permitir a negação dos acontecimentos como estamos vendo na história recente brasileira.

O filme lida com isso justamente ao falar sobre o projeto de anistia, e de como ela aconteceu na prática no nosso país. Se estavam buscando uma anistia aos presos para permitir um julgamento legal das autoridades militares pelos crimes cometidos, o que aconteceu na realidade foi uma anistia para todas as pessoas – esquecendo-se, por exemplo, dos mortos e desaparecidos que jamais poderão recebê-la. O próprio formato pensado para a transição para a democracia brasileira fez com que o nosso atual sistema já nascesse falho e enraizado em práticas ilegais. De certa forma, ele nos ajuda a compreender o nosso presente através da negação do passado, assim como do esquecimento dele.

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