Crítica | Barba Ensopada de Sangue

Barba Ensopada de Sangue (Brasil, 2026)
Título Original: Barba Ensopada de Sangue
Direção: Aly Muritiba
​Roteiro: Aly Muritiba, Jessica Candal baseados no livro de Daniel Galera
Elenco principal: Gabriel Leone, Thainá Duarte, Ricardo Blat, Ivo Müller, Ari Willians
Duração: 1h 48min
Distribuição: O2 Play

Baseado em um livro homônimo de Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue já vem de uma ideia consagrada da literatura brasileira contemporânea. Gabriel (Gabriel Leone, que no livro é um personagem sem nome) se depara com o falecimento do pai logo após algumas falas misteriosas de seu pai (interpretado por Roberto Birindelli) sobre a morte de seu avô. Sabendo que o pai deixa como herança uma casa na cidade fictícia de Armação, no litoral de Santa Catarina, ele sai de Porto Alegre para investigar a morte do avô e lidar com os seus próprios processos de luto.

O filme trabalha em uma chave menos abordada dentro do cinema brasileiro que é de trazer a rotina como elemento essencial para o seu funcionamento. Acabamos vendo algumas ações e cenas acontecendo repetidamente, como Gabriel nadando no mar ou as falas sobre as baleias da região. Se isso pode parecer em alguns momentos um excesso de exposição, na verdade acaba funcionando como uma espécie de espiral ascendente para culminar em um final com um efeito mais impactante justamente por quebrar essa rotina. Isso também se relaciona com a maneira que a doença do personagem principal, a prosopagnosia, se manifesta, fazendo com que ele seja incapaz de lembrar dos rostos das pessoas que ele conhece. Se inicialmente estranhamos alguns zooms mais diretos na cara de outros personagens, aos poucos compreendemos que se trata de uma câmera subjetiva para nos mostrar os detalhes aos quais Gabriel se apega para lembrar quem são eles.

Com isso, também conseguimos compreender melhor a solidão do personagem principal, além de sua vontade de se isolar voluntariamente após a perda de um ente querido. Leone surpreende em um papel que foge bastante dos estereótipos mais usuais, e consegue convencer dentro da chave introspectiva na qual atua. É necessário dizer, no entanto, que a barba citada no título acaba atuando contra o próprio personagem, pois a variação em seu comprimento ao longo da obra distrai o espectador daquilo que é realmente importante. O mesmo acontece com a barriga de Jasmine (Thainá Duarte), mulher grávida com quem ele forma um laço afetivo nessa nova cidade que não quer a sua presença ali, e também com a cadela Beta, que só é lembrada quando é conveniente para a narrativa.

Ainda que o filme seja uma adaptação literária e, como tal, carregue a necessidade de trazer algumas das questões ali abordadas, existem momentos do longa que não fazem sentido com a estrutura que ele mesmo cria. Quando a personagem interpretada por Ana Hartmann, namorada do irmão do protagonista, aparece em cena, isso parece completamente deslocado do filme. Não sabemos nada sobre essa personagem e nem sobre o irmão de Gabriel, então apesar de compreender o momento como um chamado para um retorno para casa, o modo extremamente expositivo que tudo acontece, e que joga a agência de uma personagem mulher apenas aos acontecimentos na vida dos dois irmãos, fazem com que toda a questão se torne ainda mais problemática. O momento parece muito deslocado do clima austero do resto do longa de forma incômoda.

Com esse caminho menos utilizado e com algumas cenas que brincam com um lirismo, o filme tem um nicho bastante específico de pessoas que vão se interessar por ele. Ainda assim, é uma das obras sobre luto com as quais eu, pessoalmente, melhor consegui me relacionar nos últimos anos.

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