Crítica | Jovens Mães

Jovens Mães (Bélgica, 2025)

Título Original: Mères au foyer
​Direção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
​Roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
​Elenco principal: Lucie Laruelle, Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaïna Halloy Fokan, Samia Hilmi, Jef Jacobs
​Duração: 1h45min
Distribuição: Vitrine Filmes

Jovens Mães reconecta os irmãos Jean e Luc Dardenne ao que lhes é mais caro em seu cinema: a existência dos que vivem à margem. Ambientado em um abrigo para adolescentes que acabaram de iniciar a maternidade, o filme acompanha estas jovens em situação de vulnerabilidade e que precisam se tornar adultas antes do tempo, ao mesmo tempo que precisam de seus próprios cuidados. A precariedade econômica e ausência familiar marcam e atravessam a vivência dessas meninas.

Temas urgentes, naturalmente, como é comum para os Dardenne. Gravidez precoce, adoção, aborto, dependência química, abandono parental, depressão pós-parto, e a ausência de políticas públicas tomam conta do dia-a-dia delas. É novamente o cinema como arma de denúncia das mazelas construídas e sustentadas pelo capitalismo e pelo desdém social, muito mais interessado em existências produtivas e moldadas por um ideal patriarcal, de hierarquias entre gêneros muito bem definidas. Ainda surgem temas como a precarização do trabalho, imigração, e indivíduos empurrados a fórceps para a base da pirâmide social. 

Apesar de empáticos em seu olhar, ainda considerando que são cineastas homens, Jovens Mães desperta novamente um incômodo que já acompanhava alguns dos filmes mais recentes da dupla, que consiste num distanciamento muito latente dos diretores com aquela realidade. Claro, exigir uma vivência direta com as temáticas seria absurdo, e o cinema não exige isso como um pré-requisito para que essas histórias sejam filmadas. Mas fica a impressão de que existe uma simplificação, em alguns pontos, sobre a real complexidade de tudo aquilo. Alguns estereótipos se fazem presentes a partir disso, assim como oportunidades dramáticas que o roteiro não abraça a contento. Existe a empatia, mas também uma certa frieza de olhar que fragiliza o texto e suas abordagens, e considerando isso, o próprio prêmio de roteiro no Festival de Cannes se torna, no mínimo, questionável.

Mas é louvável a capacidade dos Dardenne em, mesmo diante de tantas armadilhas do típico cinema europeu que clama por uma auto-importância, darem vida a um filme de olhar tão sensível e empático como Jovens Mães, principalmente por recusar julgamentos que seriam tão fáceis de acontecer na mão de outros cineastas (Jacques Audiard faria isso, por exemplo). Naquele ambiente que poderia parecer opressor como tantos abrigos, as meninas encontram um espaço de respiro, de acolhimento, um universo muito particular sustentado por políticas públicas que entram em contraste com a dureza sobre debates que essas mães nunca tomam a frente, como o direito ao aborto, suas autonomias e a própria rede de apoio que as cercam. Naquele espaço, elas encontram alguma ternura, principalmente entre si. É um microcosmo que é lar, escola e afago.

Na abordagem dos Dardenne, essas maternidades representam mundos muito particulares, pessoais, individuais, e por isso partem com uma câmera que acompanha o cotidiano dessas vidas dentro de um sistema regado por burocracias, mas que oferecem algum suporte e liberdade de escolha no fim do arco-íris. Sem julgamentos morais, os diretores defendem os direitos de escolhas de cada uma daquelas mães, inclusive a de não maternar, embora algumas armadilhas aproximem o filme de um certo paternalismo em alguns momentos.

Esteticamente, o filme segue a rigor o estilo de filmar dos Dardenne, o que talvez cause a impressão de que os diretores andam se repetindo dentro de suas próprias marcas registradas. A câmera é sempre próxima, documental, urgente, como se respirasse junto com as personagens. A luz natural impera num trabalho de fotografia encantador de Benoît Dervaux, onde os planos longos se fixam constantemente nos corpos em movimento. Nesse caminho, são os gestos pequenos e mínimos que importam, desde os olhares de cumplicidade entre as jovens mães até o choro contido durante a amamentação, assim como o silêncio desolador de quem parece ter atingido seu limite. A sensibilidade estética dos Dardenne segue admirável, com cada plano e cada corte servindo a um objetivo emocional.

E para um filme com tantos sentimentos angustiantes, Jovens Mães é milagrosamente carregado de leveza, sempre acompanhado de um alívio que surge como uma bem vinda quebra aos momentos de dor. Talvez seja um dos filmes mais esperançosos dos Dardenne, um cinema que busca, no fim de tudo, a reconciliação. Não há protagonistas, o que talvez disperse a dramaticidade geral, mas ao mesmo tempo cada recorte representa uma camada das reflexões que o filme quer buscar. A cena final, em especial, é extremamente bonita por reforçar esse alívio, esse respiro, esse vislumbre de um futuro que atravessa as personagens e chega até o público. Não se trata de redenção, mas sobre a continuidade da vida, no sentido mais humanista possível. 

Se não é o trabalho mais impactante da dupla belga, Jovens Mães é um retrato muito profundo em sua empatia e respeito pelas vidas que retrata, por mais que lhe falte uma certa densidade que, arrisco dizer, teria sido encontrada caso tivesse sido realizada por uma mulher ou mulheres. Mesmo com essas limitações evidentes, faz jus ao compromisso ético que marca o cinema dos irmãos Dardenne.

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