Resident Evil (EUA, 2026)
Direção: Zach Cregger
Roteiro: Zach Cregger e Shay Hatten
Elenco principal: Austin Abrams
Duração: 95 minutos
Distribuição: Sony Pictures
O novo reboot de Resident Evil chega com a promessa de dar nova vida a uma franquia cinematográfica que vinha penando para conseguir bons números há alguns anos e alguns longas. Com direção e roteiro de Zach Cregger, recém lançado ao estrelato após o sucesso estrondoso de seu longa anterior, A Hora do Mal (2025), o filme chega aos cinemas com uma mistura de boas expectativas e um certo medo (não do tipo que o filme pretende causar) por parte do público. Por um lado, os dois longas anteriores de Cregger garantem que ele é um bom diretor, por outro, foram anos se frustrando.

A minha experiência com a franquia nunca foi além do cinema e sempre tive carinho pelos filmes de Paul W. S. Anderson, que marcaram a minha adolescência. Nunca joguei os jogos e nem assisti a outras tentativas de levá-los para as telas. Para mim, a notícia é boa: o filme é ótimo e funciona muito bem para quem não é iniciado, e até mesmo para quem nunca teve contato com nada relacionado à franquia.
A direção segura de Cregger garante ótimos momentos de terror, mesmo que ele repita alguns elementos visuais de A Hora do Mal, o filme flutua muito bem entre momentos leves e tensos. Uma decisão corajosa foi a de incluir vários momentos cômicos durante a projeção, o que poderia ter gerado cenas constrangedoras e derrubado o filme, mas Cregger e o elenco se saem muito bem nesses momentos também.
O roteiro que Cregger assina com Shay Hatten é um tanto básico e não se pretende muito mais do que isso. Temos um personagem que começa o filme recebendo uma missão e o acompanhamos em tempo real enquanto ele tenta executar a ordem recebida, custe o que custar. Para qualquer pessoa que conhece o mínimo de vídeo-games, fica bem clara a inspiração da história e o roteiro e a direção se divertem criando momentos clássicos para quem já jogou um jogo em que tinha que executar funções desconhecidas. Alguns dos momentos mais engraçados do filme se dão quando Bryan (nosso personagem principal, interpretado por Austin Abrams) precisa montar e disparar diferentes armas de fogo, por exemplo. Qualquer um de nós estaria na mesma situação que ele: sem saber por onde começar. Outra piada com a qual o filme brinca é a quantidade absurda de cadeados que é preciso abrir para cumprir uma missão em um jogo.
A ideia de colocar um civil, uma “pessoa comum”, no centro da narrativa ajuda bastante não só na nossa conexão com as dificuldades de Bryan, mas a gerar situações absurdas (seja para o horror, seja para o cômico) que se destacam em relação a filmes em que todo mundo é muito habilidoso e sabe lidar com a maior parte dos obstáculos.
Abrams sustenta bem a hora e meia de duração do longa, em um papel de destaque para um ator de nome tão pouco conhecido. Ele lida bem com a tensão constante e tem ótimos momentos de humor físico, inclusive em sequências em que não seria de se esperar, como quando precisa fugir de alguma criatura assustadora e não se priva de fazer uma fuga desengonçada (como seria na vida real).
É divertido acompanhar o que, nos jogos, seria claramente um personagem não jogável, os famosos NPCs. O filme toma diversas decisões corajosas, tanto na forma (ter menos de 1h40, por exemplo), quanto no conteúdo (não se demorar muito na apresentação do mundo e já nos jogar direto nos horrores de Racoon City). É um filme todo econômico e rápido em que essas escolhas funcionam bem. A sensação que nos causa é justamente a que sentimos quando jogamos um jogo. Ainda é possível ver um comentário social ali no meio, já que Bryan é só uma vítima de seu próprio trabalho. Com o que ele trabalha? Entregas, em formato uberizado. Não há horário de trabalho e ele recebe por entrega feita – o que o leva aceitar o pedido um tanto absurdo, mas que garantiria uma boa grana, que dá início ao seu próprio apocalipse.
No geral, esse nonagésimo filme da franquia e segunda tentativa de reboot em apenas 5 anos (Homem-aranha e Batman fazendo escola) atinge o alvo no centro: traz nova vida, conta uma história simples, mas boa e serve de introdução enquanto dá diversos acenos para os fãs antigos. O próprio Cregger já disse que não pretende voltar para uma possível continuação e deu um final bem fechado para a narrativa, mas não seria surpreendente se o estúdio decidir voltar a investir na franquia. Só resta saber se vão mantê-la nas mãos de bons cineastas ou se esse filme acabará sobrando como ponto positivo em meio a um mar de mídias genéricas.




