Crítica | Xica da Silva

Xica da Silva (Brasil, 1976)

Título Original: Xica da Silva
Direção: Cacá Diegues
Roteiro: Cacá Diegues e João Felício dos Santos (baseado no romance “Memórias do Distrito de Diamantina”, de Joaquim Felício dos Santos)
Elenco principal: Zezé Motta, Walmor Chagas, José Wilker, Altair Lima, Elke Maravilha, Stepan Nercessian, Rodolfo Arena
Duração: 117 minutos
Distribuição: Sessão Vitrine Petrobrás

Assistir a um filme 50 anos após o seu lançamento já é uma tarefa razoavelmente difícil, pensando em todas as transformações que uma sociedade e até mesmo o próprio cinema passaram ao longo desse tempo. Se acrescentamos nessa equação que Xica da Silva foi um filme produzido em meio à ditadura brasileira, tratando de uma personagem histórica desafiadora e lidando com a temática da escravidão, essa complexidade tende a se elevar.

Seria injusto com o filme e quase antiético não refletir, em primeiro lugar, como a historiografia brasileira acessou alguns de seus personagens para refletir sobre estereótipos de gênero e raça que eram embutidos de maneira compulsória. Com Chica, uma mulher negra e que foi escravizada, isso não poderia ser diferente. Se existiu toda uma corrente que lidou com a personagem como uma mulher movida pelos próprios desejos e que desafiava à moral e bons costumes da Coroa portuguesa, nos anos 1990 criou-se uma nova imagem de uma mulher que conseguiu a alforria da escravidão, mas muito mais conformista com os valores sociais impostos à época. Ainda que o cinema não tenha a função de refletir perfeitamente os estudos históricos, é interessante colocar este fato justamente porque a Xica proposta por Diegues foi aquela que permaneceu no imaginário do público, exatamente pela performance memorável de Zezé Motta. Considerando isso, por mais que esta seja obviamente uma obra de ficção, considerando o quão pouco o nosso sistema educacional ensina sobre essa personagem, se coloca a importância de fazer uma espécie de desambiguação.

Zezé Motta estava na faixa dos 30 anos quando interpretou Xica, e o papel foi importante para colocá-la em destaque como atriz. Isso acontece principalmente por este ser um papel desafiador tanto pensando na atuação quanto na representação que ele possuía em um Brasil em ditadura militar. Por um lado, pensamos em todas as representações de nudez e luxúria que ajudaram a reforçar um estereótipo específico sobre mulheres negras e que claramente são reforçados pela imaginação de um diretor branco e homem. Por outro, existe na interpretação uma segurança e uma defesa de seus próprios desejos que fazem com que seja impossível não se afeiçoar pela personagem, imaginando qual será a próxima excentricidade que irá acontecer. Essa segurança está muito atrelada à interpretação que a todo momento mostra a sagacidade da interpretada. Isso somado ao roteiro com propostas estéticas e teóricas que visam a provocação fez com que o filme alcançasse um elevado grau de sucesso. Dentre cenas como a mulher com a face pintada de branco por estar à mesa com um racista ou a sua proposta de criar mecanismos para ajudar outras pessoas escravizadas, cria-se um encanto que se mantém quando a personagem percebe que, mesmo alforriada, jamais conseguirá se livrar do racismo.

O trabalho de restauração realizado para esse lançamento é incrível, tanto considerando o nível técnico que permite uma imagem nítida, quanto considerando a necessidade de manter a memória cultural brasileira ativa. O trabalho de relançar o filme nos cinemas ajuda toda uma nova geração a ter acesso a ele fora do circuito fechado da cinefilia e dos festivais de cinema, tanto retomando o papel importante de Diegues como diretor quanto o de Motta como atriz. É interessante perceber como algumas questões técnicas eram resolvidas na época, com a dublagem por cima das falas que hoje soa estranha, mas que ajuda a compreender como se fazia cinema com o mínimo de equipamento possível. Há ainda algumas soluções de direção e fotografia interessantes, como o desviar o olhar de quem assiste para as portas de cômodos quando algo está acontecendo, nos colocando como espécie de cúmplices de toda a história, não negando o olhar voyeurístico do cinema.

Assim, o trabalho reforça o compromisso da Sessão Vitrine de pensar no cinema brasileiro desde as suas origens até as suas consequências nos filmes atuais. É importante poder ver o resultado desse trabalho de conservação e também olhar para clássicos do passado com a possibilidade de compreender aquele momento, mas refletir também sobre os preconceitos existentes ali. 

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