A Empregada (Estados Unidos, 2025)
Título Original: The Housemaid
Direção: Paul Feig
Roteiro: Rebecca Sonnenshine, baseado no romance de Freida McFadden
Elenco principal: Sydney Sweeney, Amanda Seyfried, Brandon Sklenar, Michele Morrone, Megan Ferguson e Indiana Elle
Duração: 131 minutos
Distribuição: Paris Filmes
Me dá certa dó do Paul Feig. Não é de hoje que o cineasta que começou a fazer seu nome com comédias de sucesso estrondoso como Missão Madrinha de Casamento (pra mim uma das melhores da década passada) tenta correr atrás do que já foram seus melhores momentos, especialmente quando o thriller doméstico Um Pequeno Favor revelou uma faceta mais sombria, mas não menos bem-humorada do cineasta – from the darker side of director Paul Feig (em tradução livre, do lado mais sombrio do diretor Paul Feig), dizia uma das frases de divulgação.

Considerando que A Empregada chega no mesmo ano em que o diretor lançou direto no streaming uma continuação das mais malfadadas do filme com Anna Kendrick e Blake Lively, fica o questionamento se aquele thriller tão estiloso e espirituoso, por si só, já não parece parodiar o alcance popular do também thriller domésticoGarota Exemplar. É de se questionar se aquele filme não foi um mero acerto ocasional na filmografia do diretor.
Até porque, A Empregada faz questão de emular grande parte das características que moldaram o apelo de Um Pequeno Favor: é baseado num best-seller de sucesso que utiliza estruturas de suspenses policiais, traz duas atrizes de grande nome (e loiras) para os papéis principais no objetivo de promover um embate entre elas dentro de um roteiro onde tudo indica que nada é o que parece. Feig pareceu ter entendido as possibilidades satíricas do material que adaptou em 2018 do livro de Darcey Bell, mas ao olhar para a literatura de Freida McFadden, um fenômeno literário, o diretor confunde o que poderia ser uma nova exploração do seu “dark side” com levar-se a sério demais.
Da forma como Feig constrói A Empregada, o valor de entretenimento que, sim, até existe aqui, se dá muito mais pela suspensão da descrença quase descabida exigida pelos acontecimentos rocambolescos do que pela estimulação do mistério em si, ou qualquer interesse que possa surgir do trabalho do elenco. Se A Empregada não perder nossa atenção mesmo diante das escolhas duvidosas de roteiro (o ato final é repleto delas, como confundir a crueldade com as protagonistas com ousadia de cena), é muito mais pela curiosidade da jornada de Mille (Sweeney) e Nina (Seyfried).
Nessa zona de “suspense barato, mas com estilo”, Paul Feig não parece à vontade, mas sim preguiçoso: A Empregada é particularmente o mais mal filmado da carreira do diretor, tropeçando na noção espacial (apesar da casa enorme, ele pouco sabe explorar todos aqueles espaços) e nos princípios básicos da linguagem cinematográfica (o gigantesco e super didático flashback no clímax), e não é como se o filme não tivesse um ponto de partida dos mais potentes: Mille é uma personagem em liberdade condicional que aceita trabalhar na casa de uma família rica como empregada e logo percebe que entrou num seio familiar extremamente desconfortável. Estão lá, no texto, temas atuais e relevantes como abuso psicológico, desigualdade social, violência de gênero, e até o capitalismo como vilão de um sistema que força mulheres a tomar certas decisões em prol da própria sobrevivência. O problema é que são apenas discussões que se amontoam, mas não contribuem para a obra enquanto thriller, já que ao invés de trabalhá-los, o roteiro de Rebecca Sonnenshine prefere mastigá-los, domesticando qualquer impacto maior que o filme poderia ter.
Mesmo estando num momento bastante conturbado com sua presença pública, Sydney Sweeney não atrapalha como Millie, uma vez que este arquétipo de moça vulnerável é algo o qual a atriz já está acostumada desde Euphoria. Daí o desequilíbrio óbvio quando ela contracena com Amanda Seyfried, aqui com a completa liberdade de explorar as camadas e ambiguidades de Nina, a mãe e esposa aparentemente psicótica. O elenco de apoio, que basicamente se resume às figuras masculinas de Michelle Morrone e Brandon Sklenar, não tem muito o que fazer a não ser representar os próprios arquétipos masculinos rasos onde são inseridos.
E considerando as pouquíssimas nuances que esses arquétipos oferecem, fica a impressão de que as reviravoltas de A Empregada se revelam cedo demais, uma vez que as surpresas parecem anunciadas há anos-luz de distância. Falta risco e até confiança nas possibilidades do material para que algo nas revelações realmente surpreenda. Tudo é padronizado, comportado, superficial até mesmo nas críticas sociais que se dissolvem rapidamente a cada reviravolta mirabolante que não permite que esses discursos tomem forma. Contraditório, considerando que inserir tais temas parece anunciar um desejo de incômodo que, no fim das contas, A Empregada tem bastante receio em abraçar.
Fiquemos com Um Pequeno Favor mesmo.




