Teenage Sex and Death at Camp Miasma (2026, EUA e Reino Unido)
Título Original: Teenage Sex and Death at Camp Miasma
Direção: Jane Schoenbrun
Roteiro: Jane Schoenbrun
Elenco Principal: Hannah Einbinder, Gillian Anderson, Amanda Fix, Arthur Conti, Eva Victor, Zach Cherry, Sarah Sherman, Patrick Fischler, Dylan Baker, Jasmin Savoy Brown, Quintessa Swindell, Kevin McDonald e Jack Haven
Duração: 112 minutos
Um filme slasher convencional tem algumas regras básicas nem sempre explicitadas, mas presentes em todas as obras. O matador maníaco, as mortes extremamente violentas e uma vítima vulnerável, mas que consegue lutar com todas as suas forças para sobreviver são algumas delas. Mas, ao longo dos anos, muitos outros elementos foram sendo adicionados e até subvertidos por franquias como Pânico: sexo deve ser punido, uso de drogas deve ser punido, precisa-se de ao menos três mortes em cena, e uma cena de nudez parcial feminina. Ou seja, tentando manter a lista de tudo que deve ser feito ou evitado, apenas um grande aficionado pelo cinema de gênero conseguiria fazer um slasher realmente bom (note, o realmente é irônico, sobre uma cinefilia chata, e não a opinião da autora deste texto).

A questão é que Jane Schoenbrun se comprovou uma pessoa apaixonada pelo slasher. Se sua relação com a importância que as mídias possuem na vida das pessoas já se colocou muito presente em I Saw The TV Glow, aqui isso é elevado a uma maior potência. O filme já começa encenando e mostrando o impacto que Camp Miasma, franquia de terror inventada para o longa, teve na cultura popular estadunidense, do lançamento de um primeira obra extremamente aclamada para a criação de uma série de sequências, filmes direto para VHS, jogo de tabuleiro e bonecos colecionáveis até que se perdesse completamente a noção do que fazer com aquela propriedade intelectual. Não coincidentemente, nossa protagonista é Kris (Hannah Einbinder), uma jovem diretora que fez muito sucesso no circuito de festivais e é chamada para realizar uma releitura woke para que o filme possa seguir sendo assimilado pelo capitalismo.
Traduzindo o título de maneira livre para Sexo e Morte Adolescentes no Acampamento Miasma, já temos uma excelente dica de como o filme irá se comportar. Primeiro, temos o sexo e morte adolescentes, o que se refere tanto ao ambiente dos filmes slasher dos anos 1980 quanto ao filme em si, no qual o assassino em questão se chama Little Death (Pequena Morte, que também é a nomenclatura em francês para o momento pós-orgasmo) e que foi introduzido como uma pessoa trans não-binária com toda a atmosfera de transfobia que apenas o cinema oitentista é capaz de proporcionar. A própria personagem Kris brinca com isso, falando que sua contratação é justamente para ressignificar os pecados do passado dos filmes. Em seguida, temos acampamento, que inglês é chamado camp, palavra também utilizada para falar sobre uma estética exagerada de cafonice consciente de suas intenções, um termo que foi bastante apropriado pela comunidade LGBTQIA+ nas últimas décadas. Por fim, o nome do acampamento é Miasma, termo que foi utilizado para descrever a forma de transmissão de doenças antes da descoberta de vírus e bactérias, e que hoje é utilizado para descrever um ambiente psicológico ou moral pesado. Com uma simples leitura crítica do título, sabemos que tipo de estética será utilizada, a crítica à atmosfera anti-trans estadunidense atual e uma noção sobre o gênero de filme que será desenvolvido.
Avançando no roteiro, temos a busca de Kris pela atriz que fez a personagem principal de Camp Miasma nos anos 1980, Billy Preston (Gillian Anderson), que vive uma vida isolada longe dos holofotes, e isso acaba levando as duas a uma reflexão sobre a importância desse tipo de filme e de catarse para toda uma geração. Cheio de referências cinéfilas a um voyeurismo hitchcockiano e ao clássico Crepúsculo dos Deuses pela sua temática, o filme apresenta sempre o humor autoconsciente que dialoga com a estética camp proposta. Além de trazer uma relação entre duas mulheres baseada na sinceridade e cumplicidade, ele consegue ainda inserir a temática trans em suas entrelinhas, sem precisar gritar a sua mensagem, mas deixando-a bem clara.
A estética já havia se provado um ponto alto na carreira de Schoenbrun, mas aqui ela alcança novos patamares. Entre a utilização de fundos pintados inspirados no cinema clássico, uso de luzes e sombras emulando o cinema de terror estadunidense dos anos 1980 e um design de personagem que lembra as gaiolas que nos colocamos por conta das dissidências de gênero, tudo colabora para criar um filme que tem um potencial de clássico instantâneo para a comunidade LGBTQIA+. A trilha sonora, que é realizada pelo mesmo artista que I Saw the TV Glow e já havia sido muito elogiada, aqui também apresenta uma atmosfera perfeita para o filme, misturando doses de uma nostalgia pop com elementos que parecem quase mágicos, colocando ainda um elemento de conto de fadas.
É inegável que o filme sofre um pouco para conseguir encerrar todos os elementos que traz em seu andamento, mas nem por isso se torna menos impactante. Talvez o público acabe se lembrando muito mais de seu andamento do que necessariamente do seu final, o que eu honestamente acho que é até um ganho para o filme. Mas é inegável que ele foi colocado na categoria correta dentro do festival, dedicada aos primeiros longas de diretores promissores.




