Crítica | 79º Festival de Cannes | A Woman’s Life

A Woman’s Life (França/Bélgica, 2026)

Título Original: La Vie d’une Femme
Direção: Charline Bourgeois-Tacquet
Roteiro: Charline Bourgeois-Tacquet e Fanny Burdino
Elenco principal: Léa Drucker, Mélanie Thierry, Charles Berling, Laurent Capelluto
Duração: 98 min

Tratar da história de uma mulher em um cargo de liderança dentro da área médica tentando não ser focado em apenas um dos muitos campos de sua existência é um trabalho difícil. Mas é esta a proposta de A Woman’s Life, filme que conta a vida da cirurgiã facial Gabrielle (Léa Drucker) pensando em suas relações de trabalho, seu casamento, sua mãe que está precisando de cuidados médicos mais diretos e uma nova pessoa adentrando em sua vida, uma novelista (Mélanie Thierry) que a acompanha em seu trabalho em pesquisa para o seu próximo livro.

Quando se decide por dividir um filme como este em capítulos, imagina-se que cada um deles irá tratar de um tema ou elemento específico, mas felizmente optou-se por misturar os assuntos de forma organizada, fazendo com que esse estudo de personagem evitasse muitos estereótipos. Ainda assim, pela divisão de 98 minutos em 11 capítulos, alguns deles parecem um pouco apressados, enquanto outros não têm tempo suficiente para se desenvolver. Isso causa uma irregularidade na trama que por vezes atrai o público, como no capítulo que se passa nos Alpes, e de vez em quando o repele.

O que realmente chama a atenção no longa é a atuação de Léa Drucker, atriz veterana francesa. Ao trazer a corporalidade de Gabrielle em cenas minuciosas, como as operações no hospital, e as contrastar com momentos menos tensos e mais carinhosos, ela consegue criar uma profundidade ao personagem que independe das pessoas ao seu redor. Assim, por mais que seja um papel bastante específico, dessa mulher no topo de sua carreira, tendo que equilibrar diversos aspectos de sua existência, ela consegue trazer a humanidade necessária para que qualquer pessoa consiga se relacionar com ela. Isso ajuda a ampliar uma discussão que poderia ficar focada em um demográfico muito menos abrangente.

A grande questão é que, dentro de uma competição com a relevância da Palma de Ouro de Cannes, tanto tema como a abordagem específica que se escolhe parecem um pouco menos relevantes por já terem sido excessivamente abordados nas grandes telas, e de formas diversas e até mais ousadas. Mesmo algumas das decisões mais criativas e que fogem do padrão mais naturalista do cinema global atual, como a divisão em capítulos, não trazem uma informação que demonstre uma nova significação para a obra. Os onze capítulos, justamente entre os dez da jornada da heroína e os doze da jornada do herói, geram um estranhamento completamente injustificado dada a regularidade do que nos é mostrado.

Tirando a representatividade que o filme dá às possibilidades diversas do feminino (e ainda sem considerar que raça e classe não são questões que cabem sem abordadas), sobra pouco para se refletir sobre. Longe de ser uma obra complexa, difícil ou insuportável, mas ela também repousa longe da grandeza.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

In English, translated by Renata Torres:

A Woman’s Life (France/Belgium, 2026)

Original Title: La Vie d’une Femme

Director: Charline Bourgeois-Tacquet

Screenplay: Charline Bourgeois-Tacquet and Fanny Burdino

Main Cast: Léa Drucker, Mélanie Thierry, Charles Berling, Laurent Capelluto

Running Time: 98 min

Telling the story of a woman in a leadership position within the medical field, while trying not to focus on just one of the many aspects of her life, is a difficult task. But this is the aim of A Woman’s Life, a film that tells the story of facial surgeon Gabrielle (Léa Drucker) as she considers her work relationships, her marriage, her mother who needs more direct medical care, and a new person entering her life: a novelist (Mélanie Thierry) who accompanies her in her research for her next book.

When deciding to divide a film like this into chapters, one imagines that each one will deal with a specific theme or element, but fortunately, the choice was made to mix the subjects in an organized way, allowing this character study to avoid many stereotypes. Even so, due to the division of 98 minutes into 11 chapters, some seem a little rushed, while others don’t have enough time to develop. This causes an unevenness in the plot that sometimes attracts the audience, as in the chapter set in the Alps, and occasionally repels them.

What really stands out in the film is the performance of Léa Drucker, a veteran French actress. By bringing Gabrielle’s physicality to meticulous scenes, such as the operations in the hospital, and contrasting them with less tense and more affectionate moments, she manages to create a depth to the character that is independent of the people around her. Thus, even though it’s a very specific role — this woman at the peak of her career, having to balance various aspects of her existence — she manages to bring the necessary humanity for anyone to relate to her. This helps broaden a discussion that could otherwise be focused on a much less comprehensive demographic.

The big issue is that, within a competition with the relevance of the Cannes Palme d’Or, both the theme and the specific approach chosen seem somewhat less relevant because they have already been excessively addressed on the big screen, in diverse and even bolder ways. Even some of the most creative decisions, which deviate from the more naturalistic pattern of current global cinema, such as the division into chapters, don’t provide information that demonstrates a new significance for the work. The eleven chapters, precisely between the ten of the Heroine’s Journey and the twelve of the Hero’s Journey, generate a completely unjustified sense of strangeness given the regularity of what is shown to us.

Aside from the representation the film gives to the diverse possibilities of femininity (and without even considering that race and class are not issues that should be addressed), there is little left to reflect upon. Far from being a complex, difficult, or unbearable work, it also falls short of greatness.

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