Crítica | Dia D

Dia D (EUA, 2026)

Título original: Disclosure Day

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: David Koepp (baseado em história de Steven Spielberg)

Elenco principal: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo e Wyatt Russell

Duração: 145 minutos

Distribuição: Universal Pictures

Faz pouco menos de uma década que Steven Spielberg não lança um filme de ficção científica, desde Jogador Número 1 (2018), e mais de duas desde seu último filme de ETs, Guerra dos Mundos (2005). Ainda assim, ele parece um dos diretores realmente encantados pelo assunto, tendo diversas obras em sua carreira que lidam com ele através de diversos vieses. Agora, em 2026, o assunto vem através de um thriller político bastante pautado em questões da atualidade.

O filme começa com um literal soco na cara. Em uma cena divertida, mas que pouco se conecta com o resto do filme, começamos com uma câmera subjetiva com o ponto de vista de um lutador de wrestling que está apanhando. Logo entendemos que a história do filme está realmente acontecendo no fundo dessa luta, com Dr Daniel Kellner (Josh O’Connor) sendo abordado por dois seguranças que desejam algo que está em sua mochila. Começa então uma transação de troca da mochila por sua namorada, Jane (Eve Hewson), e compreendemos que ele possui algo realmente valioso.

Apesar do marketing estar muito focado na questão alienígena, ainda demora um tempo para que esse elemento entre na trama. Compreendemos um pouco quem são esses personagens, assim como qual foi o movimento de Daniel que o levou a essa situação. Em paralelo, também vamos conhecendo a história da jornalista de meteorologia Margaret (Emily Blunt), que parece viver uma vida relativamente estável até que ela começa a apresentar comportamentos estranhos como saber fatos aleatórios sobre desconhecidos e conhecimento repentino de outras línguas. O filme permanece bastante tempo nessa atmosfera de tensão até conseguir juntar as diversas pontas que ele inicia.

É interessante ver como um diretor bem estabelecido como o Spielberg, que já tem uma série de colaboradores frequentes como Janusz Kamiński como diretor de fotografia e John Williams como compositor, consegue continuar criando maneiras inventivas de filmar as cenas. Desde o uso de pequenos elementos como o crucifixo de Jane até o uso de uma faca refletindo a personagem em uma cena tensa ajudam a criar uma dualidade que, por mais que o texto esteja literalmente refletindo, fica melhor observado através desses símbolos. Aliás, esse debate entre a fé e a crença é um dos mais elaborados ao longo da obra, com diálogos bem interessantes sendo apresentados. A trilha sonora, que também tirou John Williams da aposentadoria, é interessante ao se colocar como um elemento melódico inesperado dentro desse universo de sci-fi tenso, algo que eles já fizeram em colaborações anteriores.

Existem algumas pontas que seguem soltas na história, assim como o uso de um dispositivo que aparece no filme como uma muleta para simplificar o desenvolvimento da narrativa e impedir que ela se torne mais inflada – algo que parece frequente nos trabalhos do diretor, que prioriza a experiência do público. Em um ano com ficções científicas um pouco mais conceituais como Devoradores de Estrelas, isso pode gerar um incômodo em quem procura um estilo narrativo similar, mais austero.

É preciso destacar também a atuação de Emily Blunt como Jane, justamente pela confusão que sua personagem sente e como ela consegue transparecer isso através de um simples olhar ou movimentação dos músculos do rosto. Como o filme também depende fortemente de uma reação emocional do público, ela cai como um ótimo par de luvas para ajudar a construir esse clima.

É possível que, revendo os 60 créditos que Spielberg tem atualmente como diretor no IMDb, esse filme não esteja em seu top 5, mas isso acontece muito mais porque ele possui algumas obras inigualáveis como Jurassic Park (1993) e o próprio Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977). Ainda assim, este não deixa de ser um filme belamente dirigido e bastante emocionante.

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