Blaise (França, 2026)
Título Original: Blaise
Direção: Dimitri Planchon e Jean-Paul Guigue
Roteiro: Dimitri Planchon e Clémence Lebatteux
Elenco principal (vozes): Léa Drucker, Jacques Gamblin, Timéo, Nina Blanc-Francard
Duração: 82 minutos
Ao assistir Blaise, é quase impossível não se sentir um incômodo inicial com o estilo da animação. A mistura entre o realismo de texturas e a movimentação pouco natural fazem com que o filme se destaque muito visualmente, mas ao mesmo tempo geram uma estranheza profunda em quem assiste.

Dando um pouco de contexto ao filme, ele foi criado a partir de uma série de quadrinhos de sucesso na França criada por Dimitri Planchon, que assina roteiro e direção do longa. Ele criou a técnica utilizada para o visual dos personagens, que vem do corte de fotos e montagem membro a membro. Se isso já gera um desconforto nas imagens paradas das páginas de quadrinhos, isso se intensifica com a movimentação dos personagens na animação. O resultado é um filme de visual inesquecível, mesmo que para alguns espectadores isso não seja positivo.
Já iniciamos o longa-metragem em uma cena que define um tanto tudo o que acontecerá depois. Carole (Léa Drucker) e Jacques (Jacques Gamblin) são chamados para uma reunião na escola de Blaise (Timéo), onde são informados que apesar de não causar grandes problemas, ele está deixando a diretora preocupada por conta de sua dificuldade em fazer amigos. Carole imediatamente toma a iniciativa de tentar falar com o filho sem permitir que ele tenha um espaço para respondê-la, e Jacques entra em uma espiral autocentrada de contar uma história sobre seu passado. Blaise, obviamente, é esquecido em meio a este narcisismo dos pais.
Essa estrutura vai se repetir diversas vezes ao longo da obra. Seguimos mais individualmente a trajetória de cada um desses três personagens, cada um com o seu drama pessoal: Blaise acaba arranjando uma namorada de maneira absolutamente aleatória, Carole está em um trabalho novo e precisa fazer com que os funcionários gostem dela e Jacques se encontra em outra espiral de descontentamento ao descobrir que uma amiga não gostava dele até recentemente. Mesmo havendo alguns momentos em que todos eles se encontram, a estrutura é de seguir cada uma dessas histórias em um paralelo temporal. Isso funciona muito bem para criar uma narrativa, mas alguns dos episódios retratados parecem esquetes com pouca relação com o resto do filme, servindo mais como um alívio cômico. Outras vezes, essa frugalidade que a obra propõe é perfeita para pegar exatamente no ponto onde dói, fazendo críticas bem humoradas e não por isso menos importantes a temas como o capitalismo e o machismo estrutural.
Justamente por essa forma, o filme funciona em um ritmo muito bom para quem acompanha, e a música é um fator que ajuda tanto no ritmo como em dar uma continuidade à obra. A trilha sonora composta é uma joia particular, com um ritmo de jazz vintage que complementa muito bem a proposta da animação. Em um filme que lida com as relações humanas, ter um ritmo que acompanha esses sentimentos que por vezes estão em harmonia e por vezes colidem faz com que a temática e a forma consigam muitas vezes se complementar.
O que talvez falte é um pouco mais de profundidade a esses personagens para fazer com que esse visual memorável seja acompanhado por uma lembrança também sobre o que estava sendo retratado, que vá além de lembrar que é um filme com humor afiado. Infelizmente, ainda que ele mergulhe em um universo bastante profundo, do drama familiar, em prol de manter o ritmo e a estrutura de episódios, ele acaba não refletindo mais sobre os personagens e as suas escolhas – ou falta de escolhas. Quando isso é somado à rigidez estética, acabamos tendo a sensação de que a obra evita propositalmente se aprofundar.
O filme é interessante como exercício estético e consegue manter o espectador interessado, mas infelizmente não consegue atravessar a barreira de se tornar mais memorável. Talvez ele funcione melhor para quem já tem uma memória afetiva com os personagens de Planchon, mas não consegue atingir tão bem quem desconhece o material.




