Crítica | Fantasia 2026 | Privadas de Suas Vidas

Privadas de Suas Vidas (Brasil, 2026)

Título original: Privadas de Suas Vidas
Direção: Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner
Roteiro: Gustavo Vinagre, Gurcius Gewdner e Antonia Baudouin
Elenco principal: Martha Nowill, Marco Pigossi, Maria Gladys, Otávio Muller, Chandelly Braz, Olivia Torres, Regina Braga, Benjamin Damini, Miguel Navarro, Fábio Marx, Rodriguinho
Duração: 1h51 (111 min)

Ainda que o Brasil seja um país com uma grande produção de terror trash nacional, seria difícil dizer que este é um dos gêneros mais populares entre o público. Então, encontrar um título como Privadas de Suas Vidas dentro do catálogo de um grande festival de cinema de gênero como o Fantasia é uma feliz surpresa. Com a proposta peculiar de, literalmente, privadas assassinas, ele se torna um destaque para qualquer um que busque uma obra que fuja do óbvio.

Além da sinopse, também é fácil perceber que a proposta vai ser transgressora pela sua dupla de diretores. Gustavo Vinagre se tornou conhecido por filmes como Nova Dubai (2014), Deus tem AIDS (2021) e Três Tigres Tristes (2022), todos com uma proposta narrativa e estética que vão completamente a favor de um cinema marginal e anticapitalista. Gurcius Gewdner tem obras que funcionam no mesmo sentido, como Nosferatum (2003) e Mamilos em Chamas (2008), tendo um trabalho sempre próximo à lendária Canibal Filmes, uma das maiores produtoras de cinema de baixo orçamento do país. Soma-se a essa combinação a produção executiva de Rodrigo Teixeira, brasileiro conhecido internacionalmente com a RT Features, que assinou a produção de obras como Ainda Estou Aqui (2024) e Me Chame Pelo Seu Nome (2017). Com isso, temos a combinação peculiar que permite o nascimento de um filme propositalmente trash, mas com um claro valor de produção elevado.

Temos uma história que se inicia com um evento trágico do falecimento de uma criança, mas no tom cômico que será presente até sua última cena. Conhecemos rapidamente os personagens aproximadamente 10 anos das ações principais do filme e isso nos ajuda a compreender tanto uma parte de suas personalidades quanto parte de suas frustrações com o avançar do tempo, principalmente na figura de Malu (Martha Nowill), a mãe que perde o filho e que vê seu negócio de organização de festas nunca decolar por conta da mudança de mentalidade que acontece com as redes sociais. Temos acesso também ao seu filhe Gênesis (Benjamin), que surge como essa contraposição da passagem dos tempos: uma pessoa não binária e que ainda acredita na mudança da sociedade.

Assim, entre cenas que não têm medo nenhum de ser bizarras e escatológicas, também temos um drama familiar bem enraizado na superação de traumas e necessidade de conciliação entre mãe e filhe. A obra é inteligente também ao replicar a mesma lógica para a família que aparece de forma secundária, na qual pais influencers ignoram seu filho pcd. Aqui, entra a lógica da crítica ao capitalismo e à mercantilização dos afetos que se mostra muito presente no cinema de Gustavo Vinagre e que encontra uma nova forma.

Os diretores também demonstram um controle bastante rigoroso da forma, mesmo que se coloquem dispostos a brincar com ela. Entre planos inusitados como o ponto de vista de um rato e as possibilidades que apenas um terror com privadas permitiria, eles demonstram serem capazes de realizar todas as técnicas que desejam, com a estética pretendida. Entre as luzes esverdeadas que dão um tom de doença a toda a obra e brincadeiras com ângulos permitindo efeitos práticos simples e eficientes, eles se mostram capazes de fazer muito com pouco e criar um filme com cenas difíceis de engolir, mas que parece não ter as quase duas horas de duração que realmente tem. Também por conta de toda a sua escolha estética, situações como algumas atuações que parecem mais inconsistentes ou genéricas acabam perdendo relevância, ainda mais com participações históricas como Maria Gladys e Bruce LaBruce.

Em conclusão, o filme traz uma leitura divertida sobre alguns conflitos familiares no Brasil atual através de uma roupagem completamente inusitada, o que traz frescor e diversão a quem assiste. Ele se consagra como um filme de merda, mas não uma merda de filme.

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