Terra à Deriva (China, 2019)
Título Original: Liú làng dì qiú
Direção: Frant Gwo
Roteiro: Frant Gwo, Gong Ge’er, Yan Dongxu, Ye Junce, Yang Zhixue, Wu Yi e Ye Ruchang
Elenco principal: Wu Jing, Qu Chuxiao, Li Guangjie, Ng Man-tat, Zhao Jinmai e Qu Jingjing
Duração: 125 minutos
Disponível em: Netflix
Terra à Deriva é quase um experimento social: como seria se uma indústria diferente e menos poderosa do que Hollywood fizesse um blockbuster apocalíptico nos moldes hollywoodianos? Partindo de uma premissa não muito diferente daquela de Armageddon (mas sem uma canção icônica do Aerosmith) e contando com um orçamento consideravelmente menor, o filme se propõe a imaginar como a humanidade agiria frente a uma ameaça de extermínio aparentemente inevitável.

O interessante é que, se tratando de um filme chinês, os valores que a história nos passa são tão diferentes dos estadunidenses aos quais estamos acostumados, que o filme acaba se destacando e se tornando uma experiência emocionante mesmo com alguns problemas no roteiro.
A premissa é um tanto absurda: o Sol está para explodir em uma supernova que vai acabar com o Sistema Solar, portanto a humanidade constrói cidades subterrâneas e propulsores gigantes para empurrar a Terra pela galáxia afora em uma viagem de aproximadamente 2.500 anos até o sistema estelar mais próximo: Alpha Centauri. Porém, 17 anos depois do início da viagem, um erro de cálculo faz com que a nossa pequena bola azul se aproxime demais do gigante gasoso Júpiter e seja sugada por sua gravidade, o que resultará na destruição total da Terra e da humanidade.
A direção sustenta a escala dos acontecimentos e a produção, mesmo com um orçamento modesto, consegue exibir bons efeitos especiais – mesmo que em alguns momentos o visual pareça um jogo de videogame -, muitas vezes gerando imagens bem bonitas do nosso planeta viajando pelo espaço.
O roteiro muitas vezes falha em nos causar emoções por um excesso de esforço, através de sequências com uma dramaturgia melodramática demais e trilha sonora triste que aparece em momentos um tanto aleatórios. O desenvolvimento dos personagens é fraco, porém compreensível quando entendemos que a história que está sendo contada é menos sobre aquelas pessoas e mais sobre como a humanidade reagiria coletivamente à uma situação onde só a união poderia nos salvar do apocalipse iminente.
Para quem já é familiarizado com a obra do Liu Cixin (autor do conto que deu origem ao filme), o tema da importância da coletividade não é novo. Apesar da fama internacional de Liu, infelizmente aqui no Brasil temos acesso à poucos de seus trabalhos. Até recentemente tínhamos apenas a sua famosa trilogia Lembranças do Passado da Terra, mais conhecida pelo título do primeiro livro: O Problema dos Três Corpos. Há pouco mais de um mês, a coletânea que traz o conto homônimo ao filme aqui comentado também foi lançada em português. Em muitos de seus textos ele abre mão do desenvolvimento de personagens para focar em um escopo maior, que geralmente envolve a humanidade toda precisando agir como um grupo conectado. Portanto, para os iniciados, não só esse ponto não chama atenção no filme, como dá para dizer que seria de se esperar. A questão é que nem todo mundo conhece a obra do autor – e ninguém precisa de nenhum conhecimento prévio para poder ver e analisar um filme – o que acaba gerando um estranhamento mais do que compreensível.
Ainda assim, é muito bonito ver um filme-catástrofe que não é totalmente focado em personagens e/ou no governo estadunidense, já que até nos filmes hollywoodianos em que a humanidade precisa se unir há um destaque para os grandes líderes norte-americanos. Aqui, os personagens chineses têm destaque, claro, mas não só não são os únicos que agem, como reconhecem que jamais seriam capazes de fazer tudo sozinhos quando se trata de um problema de escala planetária.
O filme cumpre bem a proposta de ser o primeiro filme de ficção científica de grandes proporções (como já comentei, um típico blockbuster) do cinema chinês. Não é perfeito e deixa bastante espaço para crescimento desse setor, mas já estabelece um padrão alto que tende a ser seguido e melhorado. Em 2026, quando escrevo esse texto, sete anos depois do lançamento do filme – e seis da primeira vez que eu o assisti – já temos resultados que comprovam isso, incluindo o próprio Terra à Deriva 2 – Destino (2023), que finalmente estreará no Brasil (após um adiamento de mais de um ano, mas bem a tempo do terceiro filme da franquia, previsto para o início do ano que vem) e já apresenta um salto de qualidade em relação ao primeiro (digo tranquilamente que a cabine de imprensa desse filme foi uma das minhas grandes experiências cinematográficas do ano passado – é desses que vale ver na telona com o melhor som possível). Podemos citar também a animação Ne Zha 2, que também assume proporções megalomaníacas e se tornou a quinta maior bilheteria da história do cinema. Importante citar que, assim como aconteceu com Terra à Deriva, o primeiro filme da franquia não chegou aos cinemas nacionais e o segundo chegou com bastante atraso e pouco marketing.
Terra à Deriva pode não ser um filme tão emocionante quanto se propõe a ser, mas é inegavelmente um filme grandioso que não tem medo de extrapolar a escala de sua narrativa – um pequeno presente para todo fã de ficção científica. Em um período de estagnação e cansaço da indústria cultural estadunidense, torço para que seja apenas o começo de um movimento maior – e internacional – que nos traga cada vez mais “pequenos presentes” de países, culturas e visões não hegemônicas, permitindo assim um contato maior com a arte cinematográfica de outros cantos e vozes que até pouco tempo atrás não teriam apoio para serem feitos e muito menos para chegaram até o nosso conhecimento – e, indo mais longe (cofcof, vide este próprio filme e o já citado Ne Zha), até os nossos cinemas.




