Terra à Deriva 2: Destino (China, 2023)
Título Original: Liú làng dì qiú 2
Direção: Frant Gwo
Roteiro: Frant Gwo, Gong Ge’er, Yang Zhixue e Ye Ruchang
Elenco principal: Andy Lau, Wu Jing, Wang Zhi, Sha Yi, Ning Li e Li Xuejian
Duração: 173 minutos
Distribuição brasileira: Sato Company
Um fóssil nos mostra que há 15.000 anos uma fratura de fêmur foi curada. Isso significa que alguém escolheu cuidar da ferida e buscar alimento e abrigo para a pessoa machucada. A partir de então, a humanidade nunca mais foi a mesma.

É a partir dessa imagem que Terra à Deriva 2 – Destino embasa o argumento central de sua narrativa, que dá continuidade ao discurso do primeiro filme: só a união é capaz de conduzir a história da humanidade para frente.
Depois de um primeiro filme grandioso e interessante, mas ainda falho em alguns aspectos do roteiro e dos efeitos especiais, a franquia retorna para um segundo longa mais maduro e abastado (estima-se que o orçamento foi mais do que o dobro do primeiro), que pega toda a coragem do anterior de se jogar em uma megalomania absurda e a eleva à segunda potência.
A sequência de abertura do filme, que ocupa a primeira meia hora das quase 3 da duração, já mostra à que esse prelúdio veio. Na maior parte uma sequência de ação, já traz a escala do filme ao mostrar uma estação espacial inteira caindo do céu sobre aviões e drones de guerra. Se a história do encontro da Terra com Júpiter foi tensa, agora vamos descobrir que para chegar lá, a humanidade já havia atravessado outros momentos de tensão tão difíceis e violentos quanto – com a diferença de que nos primeiros anos do plano de impulsionar a Terra para longe do Sistema Solar, toda essa tensão era causada por pessoas que se colocavam contra o tal plano.
Mas se há gente lutando contra o único plano possível de salvação, eles defendem o que, exatamente? Muitos acreditam que a única salvação seria fazer um upload dos cérebros dos seres humanos vivos para uma matrix onde todos viveriam até o fim dos tempos. É o que prega o Projeto Vida Digital. As questões que se apresentam são: a versão digital de uma pessoa é a pessoa? Se acreditamos que sim, até onde alguém é capaz de ir para manter vivo um ente que já se foi? Quando o corpo morre, não é um fim? Há uma separação explícita entre corpo e alma? Seria possível simplesmente seguir vivo dentro de um supercomputador? É o velho debate sobre o que define a nossa consciência. O que faz de nós, nós.
O filme joga bastante nesse campo, inclusive ao mostrar o surgimento da IA MOSS (uma espécie de HAL 9000) que vai nos ajudar na longa viagem pelo cosmos. Em que momento um supercomputador se torna… consciente? No primeiro filme, vemos MOSS se apresentar como mais racional do que os humanos que o criaram, chegando a dizer que “é irracional esperar que um humano seja racional”, mas aparentemente ainda funcionando dentro da regra de que nenhuma decisão é tomada sem um consenso entre humanos.
O filme lida com temas mais profundos e atuais do que o anterior e, ao receber e entender as críticas, toma o tempo que precisa para desenvolver cenários, situações e personagens – e, não à toa, se sai melhor do que o primeiro. Ao escolher focar em um único personagem que já vimos antes, fica mais fácil desenvolvê-lo. Contar a história de como Liu Peiqiang se torna o “pai astronauta” do primeiro filme e de por que ele escolhe o nome Han Duoduo para sua filha adotiva é um caminho inteligente, que também permite que o roteiro, na verdade, nos conte a história do início do Projeto Terra à Deriva.
A narrativa começa no ano de 2044, quando o Projeto Montanha Móvel sofre seu primeiro ataque de grande escala – e disso vai passando por diversos saltos temporais, até se aproximar de 2075, data de início do filme anterior. Durante esses saltos, acompanhamos a história do Projeto (que logo muda de nome) e como essa história acaba moldando a história de Liu e de sua família.
Apresentando sequências de proporções indescritíveis de fazer inveja em diretores como James Cameron, Denis Villeneuve e Christopher Nolan, os efeitos especiais do filme são um grande destaque. Após as críticas aos do primeiro, o foco foi em investir nessa área da pós-produção e o resultado é gritante (e visível já na citada sequência de abertura). Com uma direção mais segura, uma fotografia ainda mais preocupada em deixar clara a escala dos acontecimentos e uma montagem menos acelerada, além de um roteiro mais consistente, o filme acaba se apresentando como uma versão melhorada do que vimos antes. Se chamei o primeiro de “um pequeno presente para os fãs de ficção científica”, este é uma baita surpresa.
Acho interessante comentar que, assim como citei o caso de Ne Zha no texto sobre o primeiro filme, aqui também é justa a comparação no sentido de ambas as franquias terem um primeiro filme bom e um segundo que se revela uma grande melhora e um destaque entre a concorrência, a ponto de só o segundo receber um lançamento internacional em grande escala, incluindo dublagens no Brasil e nos EUA.
Não posso terminar esse texto sem citar que, por aumentar a escala da franquia e sua mensagem de cooperação entre os povos, este filme traz atores e atrizes de diversos países, falando diversos idiomas. Como não poderia deixar de ser (ou poderia?), há uma participação de uma atriz brasileira, Daniela Tassy. Ela interpreta Emilia Soares, nada menos do que uma astronauta do esquadrão brasileiro do Projeto. Uma cutucada positiva da China sobre a potência da nossa ciência – que se reflete na vida real pela parceria entre os países no programa CBERS (China-Brazil Earth-Resources Satellite ou, em português, Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres). Além de ser muito legal ouvir o português brasileiro no meio de um filme chinês.
Ao focar em corrigir os problemas do primeiro filme e não ter medo de fazer uso de um investimento maior, nem de abordar temas mais complexos sem perder o chão que conecta a franquia, Terra à Deriva 2 – Destino se firma como exemplo da potência do cinema blockbuster chinês. Claro, o lançamento de um terceiro longa (que talvez seja dividido em duas partes, seguindo a tendência hollywoodiana) já está confirmado para o início do ano que vem. Como também escrevi no texto sobre o longa anterior: enquanto Hollywood se afunda em refilmagens, live actions, e sequências não muito inspiradas, é bonito ver outras forças surgirem no horizonte da 7ª Arte e expandirem esse universo. Os estadunidenses que se cuidem. A China está vindo aí e não tem medo de trazer outros junto.




