Crítica | 51º TIFF | Vicentina Pede Desculpas

Vicentina Pede Desculpas (Brasil, 2026)

Título Original: Vicentina Pede Desculpas
Direção: Gabriel Martins
Roteiro: Gabriel Martins
Elenco principal: Rejane Faria, Maíra Azevedo, Renato Novaes, Karine Teles, Giovanna Heliodoro, Thalma de Freitas, Grace Passô
Duração: 148 min (2h28min)
Distribuição: Netflix

Existem muitos sentimentos básicos que são compartilhados, independentemente da cultura ou das experiências individuais. Amor, alegria, tristeza, raiva e luto são algumas dessas emoções que unem a humanidade por conta da universalidade, e é exatamente neste último que a nova obra de Gabriel Martins é focada. Começamos o filme com mais uma experiência universal, pelo menos para aqueles que pegam o transporte público com frequência. Cada pessoa vive sua vida tranquilamente, resolvendo seus próprios problemas ou até mesmo cochilando enquanto se vai do ponto A para o ponto B. Só que esse trânsito diário é interrompido por uma cena catastrófica: o ônibus sofre um acidente e cai de uma ponte, em uma cena de proporções épicas raramente vistas no cinema nacional. O diretor Gabriel Martins aqui brinca com a máxima hitchcockiana de dar ao público mais informações do que os personagens têm, criando um desconforto com aquilo que vemos em cena. Sabemos que a cena, capturada de maneira muito casual, é um prenúncio de uma tragédia, e com isso a tensão já se eleva naturalmente.

Seguimos a narrativa a partir do ponto de vista de Vicentina (Rejane Faria), mãe do motorista que faleceu no acidente e que precisa lidar com seu próprio luto privado e sua relação com o acontecimento público do acidente. Ainda que se inicie com essa cena impactante, todo o desenrolar da obra acontece de modo muito mais contemplativo, funcionando como uma meditação que ajuda a personagem, e consequentemente também o público, na compreensão dos acontecimentos e no levantamento daquela questão que resta quando perdemos um ente próximo: quem era, realmente, aquela pessoa? 

Aqui, há uma escolha por praticamente seguir os passos de Vicentina, e voltamos a ter apenas a mesma quantidade de informação que a protagonista, com cada uma de suas tentativas e descobertas sendo sentidas mais diretamente também pelo público. 

Por essa escolha de seguir a personagem fisicamente, temos acesso a toda a sua gama de emoções, da tristeza profunda, passando pela culpa e até mesmo pelo alívio ao fazer pequenas descobertas sobre o ocorrido e aquelas pessoas envolvidas. Isso faz com que o trabalho para Rejane Faria seja elevado à máxima potência, com a câmera quase sempre voltada para o seu rosto e os arredores. Felizmente, tanto por conta de sua atuação, que consegue trazer profundidade e humanidade à personagem, quanto por conta do próprio papel que desafia um pouco a lógica do luto centrado apenas no indivíduo e que consegue se colocar em toda a comunidade, o resultado é muito positivo. Ainda que o público sofra junto a Vicentina durante toda a obra, também saímos com uma reflexão sobre a convivência em sociedade que sua lógica propõe.

Algo que ajuda bastante nesse caminho é o trabalho de som que é realizado em toda a obra. Começando pela trilha sonora, que se inicia com o hino à resiliência Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, com a máxima de que “é preciso a chuva para florir” e se encerra com Tempo Rei, de Gilberto Gil, e sua “água mole/ pedra dura/ tanto bate que não restará nem pensamento”, percebemos como, a cada momento, reflete-se  sobre a própria existência humana. O mesmo acontece com o desenho de som, que cria situações desconfortáveis, como o silêncio após reconhecer o corpo do próprio filho sendo interrompido por uma família reconhecendo o seu familiar falecido – algo que ajuda a construir a noção de culpa que a personagem carrega. Isso é reforçado com a questão da televisão sempre presente ao fundo, colocando essa jornada de busca por algum detalhe perdido que ajude a compreensão da mãe a respeito dos acontecimentos. Cria-se uma tensão constante de sonoridade, que só reforça a cena final da obra.

Com uma história muito particular, o filme consegue explorar diversas questões bastante pertinentes ao Brasil atual. Há, por exemplo, a reflexão sobre a inevitabilidade da morte e as responsabilidades que podem ser aferidas aos envolvidos, assim como a desigualdade de renda brutal que faz com que diversas camadas da população possam lidar com seus lutos de maneiras completamente diferentes. Temos uma ode à importância da amizade com a personagem de Joana (Maíra Azevedo), que aparece como uma forma de rede de apoio que não permite que a protagonista se afunde em suas próprias preocupações, e também refletido em Fred (Giovanni Venturini) como amigo do filho. Somos levados a compreender o  quão profundas podem ser as nossas feridas, assim como todo o caminho que por vezes vamos precisar trilhar apenas para seguir em frente de maneira mais leve.

A Filmes de Plástico reforça que, mesmo quando envolvida com uma gigante global como a Netflix, consegue manter a autoralidade de seus projetos e trazer exatamente o seu ponto de vista da zona metropolitana de Belo Horizonte para palcos cada vez mais universais. Mais uma vitória para o cinema brasileiro, e principalmente pelo diretor Gabriel Martins por uma obra prima sobre o luto nos tempos hipermodernos.

On Behalf of My Son (Brazil, 2026)

Original Title: Vicentina Pede Desculpas
Director: Gabriel Martins
Writer: Gabriel Martins
Cast: Rejane Faria, Maíra Azevedo, Renato Novaes, Karine Teles, Giovanna Heliodoro, Thalma de Freitas, Grace Passô
Runtime: 148 min (2h 28min)
Distribution: Netflix

There are many basic feelings shared by people regardless of culture or individual experience. Love, joy, sadness, anger, and grief are among the emotions that unite humanity through their universality, and it is precisely on the last of these that Gabriel Martins’ new film focuses. The movie begins with another universal experience — at least for those who frequently use public transport. People go about their lives quietly, sorting out their own problems or even dozing off while traveling from point A to point B. However, this daily commute is interrupted by a catastrophic event: the bus crashes and plunges off a bridge — a scene of epic proportions rarely seen in Brazilian cinema. Here, director Gabriel Martins plays with the Hitchcockian maxim of giving the audience more information than the characters possess, creating a sense of unease regarding what we see on screen. We know that the scene, captured in a very casual manner, foreshadows a tragedy, and this naturally heightens the tension.

The narrative unfolds from the perspective of Vicentina (Rejane Faria), the mother of the driver who died in the crash; she must cope with her own private grief while navigating her relationship with the public nature of the accident. Although it opens with a striking scene, the film unfolds in a much more contemplative manner, acting as a meditation that helps the character, and consequently the audience, make sense of events and confront the question that lingers when we lose a loved one: who was that person, really?

The film chooses to follow closely in Vicentina’s footsteps, limiting our knowledge to what the protagonist knows; as a result, the audience experiences each of her attempts and discoveries firsthand. By physically tracking the character, we gain access to her full emotional spectrum — from profound sorrow and guilt to the relief found in small revelations about the incident and the people involved. This places immense demands on Rejane Faria’s performance, as the camera remains focused almost constantly on her face and surroundings. Fortunately, the outcome is highly successful, thanks both to her acting, which imbues the character with depth and humanity, and to a role that challenges the notion of grief as a purely individual experience, instead situating it within the community. While the audience shares in Vicentina’s suffering throughout the film, we also leave with a reflection on communal living and the social dynamics the story proposes.

The film’s sound design plays a crucial role in this journey. The soundtrack, in particular, invites us to reflect on human existence at every turn: it begins with the resilience anthem “Tocando em Frente” by Almir Sater and Renato Teixeira, which features the motto “rain is needed for flowers to bloom”, and concludes with Gilberto Gil’s “Tempo Rei”, with its imagery of “water dripping day by day wears the hardest rocks away.” The same applies to the sound design, which creates uncomfortable situations, such as the silence following the identification of her own son’s body being interrupted by another family identifying their deceased relative — thereby helping to build the sense of guilt the character carries. This is reinforced by the ever-present television in the background, framing her journey to uncover some overlooked detail that might help her make sense of the events. A constant sonic tension is created, which only serves to heighten the film’s final scene.

With a deeply personal story, the film manages to explore various issues highly relevant to contemporary Brazil. There is, for instance, a reflection on the inevitability of death and the responsibilities that may fall upon those involved, as well as the brutal income inequality that causes different segments of the population to process grief in vastly different ways. We see an ode to the importance of friendship through the character of Joana (Maíra Azevedo), who acts as a support system preventing the protagonist from sinking into her own worries, a theme also reflected in Fred (Giovanni Venturini), the son’s friend. We are led to understand the depth of our wounds, as well as the long road we sometimes must travel simply to move forward with a lighter heart.

Filmes de Plástico demonstrates that, even when collaborating with a global giant like Netflix, it manages to preserve the distinctive authorial voice of its projects and bring their specific perspective from the Belo Horizonte metropolitan area to increasingly universal stages. Yet another victory for Brazilian cinema, and especially for director Gabriel Martins for a masterpiece about grief in hypermodern times.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima