Crítica | 51º TIFF | A Arte de Ser Heumann

A Arte de Ser Heumann (Estados Unidos, 2026)

Título Original: Being Heumann
Direção: Sian Heder
Roteiro: Sian Heder e Rebekah Taussig
Elenco principal: Ruth Madeley, Mark Ruffalo, Dylan O’Brien, Rob Delaney, Ray Fisher, Madeline Delp
Duração: 127 minutos (2h 7min)

Sian Heder é um nome que se tornou conhecido para a cinefilia internacional, quer a pessoa a ame ou a odeie, após a vitória inesperada de seu segundo longa-metragem, CODA (2021) nos Oscars de 2022. O remake do drama francês A Família Bélier (2014) ganhou a estatueta de melhor filme naquele ano e provou para Bong Joon-ho, ganhador sul-coreano da estatueta do ano anterior, que o público estadunidense realmente não gosta de quebrar a barreira de ler as legendas. A obra gerou duas situações interessantes para a diretora: um maior aprofundamento na vida de pessoas com deficiência, e um bom acordo com a Apple, que investiu no seu filme posterior.

Juntando esses dois elementos, cria-se Being Heumann, uma obra de alto orçamento e que foca na vida da ativista pelos direitos das pessoas com deficiência Judith Heumann (Ruth Madeley), especificamente no ano de 1977. O presidente Jimmy Carter acabava de chegar ao poder com todo o seu discurso de apoio aos direitos humanos e de inclusão, mostrando uma mudança significativa em relação aos governos anteriores. É aqui que entra a narrativa do filme, com Heumann e seu grupo de protestantes tentando fazer pressão para o governo assinar uma cláusula de uma lei, para fazê-la entrar em vigor. Como ela praticamente dizia que cidadãos não poderiam ser discriminados por conta de suas deficiências, ela faria com que os espaços financiados pelo governo precisassem ser repensados, com adaptações físicas e de pessoal. Vendo que o assunto não estava avançando, se inicia uma série de protestos que vão mudar a história das pessoas com deficiência dos EUA, com a ativista bem ao centro do movimento. É aqui que o longa se passa, utilizando a vida e a própria autobiografia de Heumann como espinha dorsal para contar essa história.

O primeiro elemento que chama atenção na obra é o seu casting. Mesmo que atualmente muitas produções tentem colocar uma barreira quando se trata de representatividade, a obra consegue comprar a luta que é representada e assume a necessidade da inclusão, e coloca isso como bandeira de defesa. Ainda que seja difícil pensar em um set tão inclusivo, o filme conseguiu fazer com que isso funcionasse. Certamente Ruth Madeley está no centro desse processo, conseguindo trazer uma personalidade amigável, ainda que séria, para a sua protagonista. Com situações como a fofa dança, com os dedos sendo misturados aos elementos mais pesados, como os depoimentos de cada pessoa em relação às discriminações que sofreram, a obra encontra um equilíbrio entre razão e emoção, o que parece refletir a mente de sua inspiração.

O que parece faltar ao filme é um pouco da rebeldia que vemos em Heumann, sendo ainda muito apegado a uma cinematografia clássica e que gosta de seguir as regras da indústria estadunidense. Três grandes arcos, a evolução da personagem principal para se tornar uma pessoa melhor, todos os personagens secundários tendo alguma espécie de desenvolvimento: parece que o filme quer seguir à risca tudo o que é colocado nos manuais de cinema. Isso, obviamente, funciona e faz com que o filme seja confortável de assistir e acessível para um grande público, mas acaba deixando uma dúvida sobre os traços de autoria da diretora e de sua equipe. Contando uma história que é extraordinária, é difícil que o filme acabe se tornando muito genérico, mas sente-se um mal aproveitamento de toda a gama de recursos que o audiovisual é capaz de proporcionar.

Mesmo sem a rebeldia, ainda há um forte elemento de recusa de colocar o filme em uma posição de vitimismo, até por retratar todo esse movimento cujo centro da pauta é justamente a representatividade baseada no fato de que, de todas as minorias possíveis, as deficiências são justamente aquelas que qualquer pessoa pode adquirir, em qualquer momento da vida. Existe uma tentativa de diálogo da intersecção de todos os movimentos sociais que estavam eclodindo nos anos 1970 nos EUA que está presente em toda a narrativa e que ainda faz sentido em 2026, algo que nos ajuda a pensar um pouco na história recente dos nossos movimentos sociais. Existe um momento, por exemplo, no qual um dos personagens negros diz não gostar dos Pantera Negras porque eles não são abertos aos homossexuais, e pessoas com deficiências auditivas no geral não gostam de ser incluídas nesses movimentos mais generalizados. O filme tem uma atitude bastante positiva na mensagem de que a união é a única coisa capaz de trazer a força, e por mais que isso seja um pouco básico, é impressionante que ainda seja uma tecla a ser batida quase 50 anos depois.

Funcionando bem para o formato de streaming para o qual foi pensado, o filme transparece boas intenções, coloca em pauta um assunto extremamente relevante, mas ainda é um tanto mais procedural do que criativo. Mesmo que isso não seja inesperado, ainda é um elemento a ser considerado na carreira da cineasta, que promete seguir sendo um grande nome dentro desse cinema industrial.

Being Heumann (United States, 2026)

Original Title: Being Heumann
Director: Sian Heder
Writer: Sian Heder and Rebekah Taussig
Cast: Ruth Madeley, Mark Ruffalo, Dylan O’Brien, Rob Delaney, Ray Fisher, Madeline Delp
Runtime: 127 minutes (2h 7min)

Sian Heder became a well-known name in the international film community, whether loved or loathed, following the unexpected victory of her second feature film, CODA (2021), at the 2022 Oscars. The remake of the French drama La famille Bélier (2014) won the Best Picture statuette that year and proved to Bong Joon-ho, the South Korean winner from the previous year, that US audiences really do not like breaking the “subtitle barrier.” The film led to two interesting developments for the director: a deeper exploration of the lives of people with disabilities and a lucrative deal with Apple, which invested in her subsequent film.

Combining these two elements results in Being Heumann, a high-budget production focusing on the life of disability rights activist Judith Heumann (Ruth Madeley), specifically during 1977. President Jimmy Carter had just taken office, championing human rights and inclusion — a significant shift from previous administrations. This is where the film’s narrative begins, with Heumann and her group of protesters pressuring the government to sign a specific clause of a law so it could finally go into effect. Since the clause essentially stated that citizens could not be discriminated against based on their disabilities, it would require government-funded spaces to be re-evaluated and modified through physical adaptations and staffing changes. Seeing that the issue was stalling, a series of protests began, ones that would change the history of people with disabilities in the US, with the activist at the very heart of the movement. This is the setting for the feature film, which uses Heumann’s life and autobiography as the backbone for telling this story.

The first element that stands out is the casting. While many productions today face hurdles regarding representation, this film fully embraces the cause it depicts and champions inclusion as a core principle. Although creating such an inclusive set is challenging, the film successfully made it work. Ruth Madeley is central to this process, bringing a friendly yet serious personality to the protagonist. By blending lighter moments, like a charming dance sequence, with heavier elements, such as personal accounts of discrimination, the film strikes a balance between reason and emotion that seems to reflect the mindset of its real-life inspiration.

What the film seems to lack is some of the rebelliousness found in Heumann herself; it remains heavily tied to classic cinematography and adheres to the conventions of the US film industry. With its three major arcs, the protagonist’s evolution into a better person, and development for all the supporting characters, the film appears to follow filmmaking manuals to the letter. While this certainly works, making the film a comfortable watch accessible to a wide audience, it raises questions about the director’s and her team’s unique creative voice. Although the story is extraordinary, the film risks feeling somewhat generic, failing to fully capitalize on the vast range of possibilities offered by the audiovisual medium.

Even without the element of rebellion, there remains a strong refusal to cast the film in a light of victimhood — particularly given its portrayal of a movement centered on representation, grounded in the fact that, among all possible minorities, disability is the one anyone can acquire at any stage of life. The narrative attempts to foster a dialogue regarding the intersection of the various social movements emerging in the 1970s USA — a theme that remains relevant in 2026 and prompts reflection on the recent history of our own social movements. For instance, there is a moment where a Black character expresses dislike for the Black Panthers due to their lack of openness toward gay people; similarly, the hearing-impaired community generally dislikes being lumped into these broader, generalized movements. The film conveys a highly positive message, that unity is the sole source of strength, and while this may seem somewhat elementary, it is striking that this point still needs to be driven home nearly 50 years later.

Well-suited to the streaming format for which it was designed, the film radiates good intentions and addresses a vitally important issue, yet it remains somewhat procedural rather than creative. While this is not unexpected, it remains a factor to consider in the filmmaker’s career, as she promises to remain a major name within this brand of industrial cinema.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima