Crítica | 51º TIFF | Reflexão sobre The Housewife e Atonement

The Housewife (Estados Unidos, 2026)

Título Original: The Housewife
Direção: Ben Shirinian
Roteiro: Alyssa Hill
Elenco principal: Naomi Watts, Tye Sheridan, Michael Imperioli, Luke Evans, Lena Olin, Debi Mazar
Duração: 102 minutos (1h 42min)

Atonement (Estados Unidos, 2026)

Título Original: Atonement
Direção: Reed Van Dyk
Roteiro: Reed Van Dyk
Elenco principal: Boyd Holbrook, Kenneth Branagh, Hiam Abbass, Gheed, Khris Davis
Duração: 118 minutos (1h 58min)

Ainda que seja incomum pensar em uma crítica de filme que junte duas obras em um texto só, existe um detalhe peculiar entre The Housewife e Atonement além de sua exibição no TIFF. Ambos são projetos iniciados a partir de matérias jornalísticas publicadas no New York Times e na New Yorker, respectivamente. Além disso, há poucas coincidências, com o primeiro sendo publicado em 1964 sobre uma investigação sobre um possível nazista escondido vivendo no meio da cidade, e o segundo em 2012, falando sobre a relação entre um soldado estadunidense e a família de resta de um grande acidente que aconteceu em Bagdá.

O que acaba levando a uma reflexão mais conjunta sobre os acontecimentos é a combinação entre a temática jornalística com uma forma fílmica extremamente simples, voltada mais para a funcionalidade de contar uma história do que em, de fato, se aprofundar em qualquer questão referente ao audiovisual. Existe um modelo quase procedural de como contar uma história, com uma ordem cronológica exata, recorrência aos flashbacks para lidar com os fatos investigados, e técnicas de direção de arte e de fotografia que apenas tentam emular a realidade.

Assistir a essas duas obras em meio a um grande festival, ainda mais quando consideramos uma movimentação natural que aconteceu em torno do subgênero com a vitória de Spotlight (2015) como Melhor Filme no Oscar, reforça a noção de que esse tipo de história segue recebendo uma certa valorização. Só que, diferentemente do que aconteceu com o filme de Tom McCarthy, que representou o universo das notícias de forma intensa e imersiva, o que acaba acontecendo é que muitas vezes se confia excessivamente no poder de uma boa história real e se esquece de todo o trabalho da direção em fazer com que ela também se torne uma experiência cinematográfica interessante. Considerando o quanto ambas acabam escolhendo seguir por um caminho genérico, é fácil cair na reflexão sobre o que faz um bom filme, e se uma boa história seria tudo o que é necessário para isso.

Em primeiro lugar, é importante apontar que nenhuma das obras é um documentário, mas sim ficções inspiradas em fatos reais, que aproveitam um protagonista jornalista para explorar algo que já foi escrito e publicado em veículos de comunicação de grande alcance. Podemos e devemos refletir sobre o quanto o cinema tem influência e popularidade na atualidade, o que se soma também a um alcance muito mais global do que os jornais ou revistas em questão de circulação. Mas ainda assim, não é coincidência que duas histórias extremamente particulares de Nova York estejam ocupando um espaço tão prestigioso dentro de um dos maiores festivais do mundo.

Essa coincidência, ao invés de instigar uma crítica sobre cada um dos filmes, gerou um questionamento um pouco mais abrangente sobre esse sistema de produção que fez com que dois diretores que estão em seu começo de carreira estivessem em projetos tão similares. Tanto Ben Shirinian quanto Reed Van Dyk são curta-metragistas com projetos premiados, e ambos estarem voltados ao universo do jornalismo parece sintomático de uma segurança do mercado de cinema de que este tipo de projeto pode ser seguro, exigindo um orçamento relativamente contido e podendo receber um bom retorno financeiro. Ao mesmo tempo, com a base nas histórias reais, se aproxima um pouco do universo documental – e até mais especificamente dos crimes reais, que passam por mais um aumento de visibilidade recente. 

A resposta sobre a demanda do mercado e público só vai ser respondida com o tempo e com os resultados de bilheterias dessas obras quando elas encontrarem distribuição, um processo demorado e que retrata a realidade desse setor produtivo. Mas o que realmente chama a atenção é o quanto esse tipo de projeto parece nulificar as qualidades dos cineastas por trás dos projetos tentando impor o roteiro como a parte mais essencial do filme.

Chegando ao final do texto sem realmente conseguir propor uma análise mais aprofundada, até por conta do pouco texto perante ao tamanho de um festival de cinema, que fique o importante apontamento sobre algo que parece ser uma tendência apontada pelo festival que está escolhendo focar seus processos para o mercado ao invés do público, como normalmente acontecia. E ficamos com a esperança de que o tempo revele aqui apenas uma coincidência, e não uma tendência de mercado que coloca a arte audiovisual em segundo plano quando consideramos toda a produção de um filme.

The Housewife (United States, 2026)

Original Title: The Housewife
Director: Ben Shirinian
Writer: Alyssa Hill
Main Cast: Naomi Watts, Tye Sheridan, Michael Imperioli, Luke Evans, Lena Olin, Debi Mazar
Runtime: 102 minutes (1h 42min)

Atonement (United States, 2026)

Original Title: Atonement
Director: Reed Van Dyk
Writer: Reed Van Dyk
Cast: Boyd Holbrook, Kenneth Branagh, Hiam Abbass, Gheed, Khris Davis
Runtime: 118 minutes (1h 58min)

While it is unusual to combine reviews of two films into a single text, The Housewife and Atonement share a peculiar detail beyond their screening at TIFF: both projects originated from journalistic articles published in The New York Times and The New Yorker, respectively. Beyond that, however, the similarities are few; the first article, published in 1964, concerned an investigation into a suspected Nazi living in hiding within the city, while the second, from 2012, explored the relationship between a U.S. soldier and the family of a victim of a major accident in Baghdad.

What prompts a joint reflection on these events is the combination of journalistic subject matter with an extremely simple cinematic style — focused more on the mechanics of storytelling than on delving into any complex audiovisual or formal questions. There is an almost procedural approach to the narrative: strict chronological order, the use of flashbacks to address the facts under investigation, and art direction and cinematography techniques that aim merely to emulate reality.

Watching these two films at a major festival, especially considering the momentum this subgenre gained following Spotlight’s (2015) Best Picture win at the Oscars, reinforces the idea that this type of story continues to be highly valued. However, unlike Tom McCarthy’s film, which portrayed the world of news reporting in an intense, immersive way, what often happens is an over-reliance on the power of a compelling true story, while the director’s work in crafting an engaging cinematic experience gets overlooked. Given how often both films opt for a generic approach, it is easy to reflect on what actually makes a good movie and whether a strong story is all that is required.

First, it is important to note that neither work is a documentary; rather, they are fictional narratives inspired by real events, using a journalist protagonist to explore stories that have already been written and published by major media outlets. We can and should reflect on the influence and popularity of cinema today, which boasts a far wider global reach than the circulation of newspapers or magazines. Yet, it is no coincidence that two highly specific New York stories are occupying such a prestigious spot at one of the world’s major festivals.

Rather than prompting a critique of the individual films, this coincidence sparked a broader question about the production system that led two early-career directors to helm such similar projects. Both Ben Shirinian and Reed Van Dyk are short-film directors with award-winning work under their belts; their focus on the world of journalism seems to reflect the film industry’s confidence in this type of project as a “safe bet” — one that requires a relatively modest budget while offering the potential for a solid financial return. At the same time, their grounding in true stories brings them closer to the realm of documentary and, more specifically, the true-crime genre, which has recently seen a surge in visibility.

The question of market and audience demand can only be answered over time, based on the box-office results these works achieve once they secure distribution — a lengthy process that reflects the reality of this production sector. Yet, what truly stands out is how this type of project seems to negate the qualities of the filmmakers behind them by attempting to prioritize the screenplay as the film’s most essential element.

As this piece draws to a close, without offering a truly in-depth analysis, given the brevity of the text relative to the scale of a film festival, one important observation remains: the festival appears to be shifting its focus toward the market rather than the audience, a departure from the norm. We can only hope that time will reveal this to be a mere coincidence, rather than a market trend that relegates audiovisual art to the background within the broader context of filmmaking.

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