Crítica | Se Eu Fosse Você 3

Se Eu Fosse Você 3 (Brasil, 2026)

Título Original: Se Eu Fosse Você 3
Direção: Anita Barbosa
Roteiro: Leandro Soares
Elenco principal: Glória Pires, Tony Ramos, Cleo Pires, Rafael Infante, Valentina Daniel, Paulo Rocha, Yohama Eshima, Dan Ferreira, Rosi Campos
Duração: 119 min (1h 59min)
Distribuição: Buena Vista International / The Walt Disney Company Brasil 

Se em 2026 ainda existe um desafio das grandes distribuidoras em levar o público aos cinemas, em 2006, quando o primeiro Se Eu Fosse Você foi lançado, o cenário era ainda mais complexo. Mesmo assim, a obra foi tão icônica e importante para a comédia nacional que conseguiu levar mais de 3 milhões de espectadores aos cinemas. Com uma sequência direta lançada em 2009 e uma série de TV inspirada na história, aconteceu um grande hiato nos lançamentos de filmes da franquia nos cinemas, justificado pela ausência de um roteiro que realmente acrescentasse à história. Então, em 2026, finalmente teremos o lançamento de Se Eu Fosse Você 3.

Neste novo filme, acompanhamos o casal Helena (Glória Pires) e Cláudio (Tony Ramos) mais de longe, pois a ação se concentra na nova geração: a sua filha Bia (Cleo Pires) que está em um momento de quase ruptura da relação com o namorado Aquiles (Rafael Infante), com quem ela mora junto. É importante lembrar que Cleo é filha de Glória na vida real, e as coincidências não se encerram por aí: Valentina Daniel, que interpreta a filha de Bia, é neta de Daniel Filho, diretor do filme original. Temos em apenas uma franquia uma espécie de retrato da classe artística brasileira que tem certas doses de nepotismo, mas aqui justificado pelas boas atuações individuais.

A estrutura do longa-metragem funciona de modo bem similar aos filmes anteriores, com um casal em crise que acaba chegando a uma grande discussão e acorda na manhã seguinte com os corpos trocados. Só que a obra faz questão de modernizar algumas questões, principalmente comportamentais, e é aí que consegue encontrar seu brilho. Em primeiro lugar, dando a Bia uma vida e carreira mais dinâmicas que a de Helena, sendo chef em um restaurante em Miguel Pereira, que está prestes a ter a sua habilidade julgada por críticos gastronômicos. Por outro lado, Aquiles é instrutor em um parque, com atividades que vão de trilhas até tirolesa e balonismo. Essa escolha tanto de roteiro quanto de locação fazem com que a troca de corpos seja ainda mais difícil fisicamente, fazendo com que a famosa troca de sapatos sempre mencionada na franquia seja ainda mais complexa para cada um deles.

Além disso, a modernização também acontece em relação ao comportamento das pessoas, e nisso a direção de Anita Barbosa faz toda a diferença. Ela já tinha experiência como assistente de direção nos outros filmes da franquia,  e acaba trazendo esse frescor necessário para um casal na faixa dos quarenta anos. O comportamento de Bia com a sua filha, com a comunicação e transparência sendo mais importantes do que a aparência de normalidade, e até a mudança no tom da atuação, focado em buscar questões como a sobrecarga materna em detrimento da comédia mais corporal fazem com que a obra realmente consiga dialogar com uma geração mais jovem. Helena e Cláudio aparecem apenas curtindo a sua aposentadoria e tentando ajudar a filha de longe, o que dá uma saudação aos saudosos das primeiras obras, mas permite que o filme encontre uma narrativa própria.

Esses acenos estão presentes em diversos pontos ao longo do filme, o que também indica o respeito ao material original. Desde a primeira cena, do alinhamento dos planetas, que é repetida nas três obras, até questões como o uso de trechos da música cantada pelo coral de Helena no primeiro filme, a obra se mostra consciente de estar carregando um legado importante para o público. Mas, novamente, isso funciona bem como esses acenos, e o foco real é em compreender como esse casal moderno funcionaria com a troca de corpos.

Se existe uma modernização em diversos aspectos, existem outros no qual a obra ainda parece parada no tempo. O primeiro, e que se torna incômodo enquanto assistimos, é o uso de trilha sonora. Além de haver uma trilha composta bastante óbvia e que apenas confirma o tom das cenas, sem trazer nenhum contraste ou emoção diferente, ela está presente em quase todas as cenas do filme, fazendo com que a obra se torne cansativa pelo simples excesso de informação. Isso é um acontecimento bastante comum no cinema, e particularmente nas comédias brasileiras, mas é um dos pontos de atenção dessa nova obra, que tem a oportunidade de fazer algo diferente.

A segunda questão é uma certa falta de identidade mais forte, com todas as cenas tendo um visual quase de publicidade. As obras anteriores também tiveram suas questões de conteúdos de parceiros sendo anunciados de forma quase desconexa em relação ao roteiro, mas aqui a sensação é de que temos quase uma propaganda de uma cidade ou desse estilo de vida. Acabamos não sentindo a tensão desse casal que supostamente está no seu limite do relacionamento por conta desse clima muito ameno de tudo ao seu redor.

Entre erros e acertos, o filme funciona bem como uma comédia e consegue rever questões históricas complexas da franquia, que envelheceram mal. A modernização veio em um bom momento e o novo casting consegue continuar fazendo o público rir.

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