Tender Loving Care (Reino Unido, 2026)
Título Original: Tender Loving Care
Direção: Mike Leigh
Roteiro: Mike Leigh
Elenco principal: Kate O’Flynn, Marion Bailey, Paul Jesson, Alice Bailey Johnson
Duração: 107 min (1h47min)
Mike Leigh é um caso raro dentro de uma produção cinematográfica que valoriza bilheterias gigantescas e produções que ora são enxutas e ora monumentais. Com uma carreira baseada em pensar um projeto por vez, e com a construção de seus filmes junto a um elenco que participa da construção de personagens, ele valoriza a profundidade ao realizar suas obras. E, após um período de obras mais focadas no passado, ele retorna para fazer um longa sobre o aqui e agora que dialoga com o seu próprio envelhecimento, tendo passado da marca dos 80 anos.

Começamos o filme com uma cena simples, mas com humor peculiar: Rosie é uma assistente social que vai para um hospital tentar ajudar um homem que está internado, e se depara com uma pessoa que se comunica de maneira absolutamente contrastante à sua. E esse é um prenúncio de praticamente todas as temáticas que serão trazidas à tona. Logo conhecemos mais de sua vida, como o retorno de sua amiga Amy, após um término, para a sua casa, onde elas dividem o espaço, mas também dividem a vida. Além de compartilharem um passado e uma profissão, também partilham a família, com Rosie tendo contato direto com Birdie e Geoff, pais de Amy. Com o envelhecimento deles, o filme também acaba trazendo a linha tênue entre as capacidades de uma pessoa em seu trabalho e junto à sua própria família.
O modo que o filme é construído é bastante irregular, com momentos de trabalho sendo sobrepostos por esses momentos familiares, somados à simples convivência das duas amigas confidentes. Se o movimento parece estranho em um primeiro momento, ele acaba se revelando bastante alinhado com aquilo que o diretor quer apresentar em tela: uma sequência de acontecimentos de uma vida normal. Há momentos com humor ligados a momentos tristes, que também se transformam em situações complexas, mas vamos compreendendo que tudo faz parte desse desenho de fluxo contínuo que funciona bem ao lidarmos com um recorte de vida. A edição, em particular, é muito bem utilizada, conseguindo alternar os acontecimentos mais impactantes com detalhes triviais, criando um humor peculiar que dá ritmo e formato à obra.
Além de trazer uma visão sobre o envelhecimento e o adoecimento do cidadão, também impressiona como o cineasta consegue fazer a transposição entre indivíduo e estado. Ele consegue colocar, através de situações e diálogos, a sua visão extremamente crítica ao Reino Unido pós-Brexit e ao desmantelamento de um Estado que gera consequências reais na vida das pessoas. Desde o excesso de trabalho de Rosie e Amy até as cenas de início e encerramento do filme, que deixam muito claro o seu posicionamento sobre o desmonte do aparato estatal, o que faz bastante sentido tanto considerando toda a carreira do diretor, quanto o momento crítico pelo qual passa o Reino Unido.
A obra parece atingir um equilíbrio sutil entre razão e emoção, entre drama e comédia – resultado do trabalho de um cineasta maduro e que sabe os caminhos para alcançar seus objetivos. Por mais que não seja uma obra de impacto direto, é do tipo com uma mensagem persistente que se mantém muito após o término da sessão.
Tender Loving Care (UK, 2026)
Original Title: Tender Loving Care
Director: Mike Leigh
Writers: Mike Leigh
Cast: Kate O’Flynn, Marion Bailey, Paul Jesson, Alice Bailey Johnson
Runtime: 107 min (1h 47m)
Mike Leigh is a rarity in a film industry that prizes massive box-office returns and productions that swing between the lean and the monumental. With a career built on approaching one project at a time, and crafting his films alongside a cast that actively participates in character development, he prioritizes depth in his work. After a period of films focused on the past, he returns with a feature set in the here and now that engages with his own aging process, having recently passed the age of 80.
The film opens with a simple yet quirkily humorous scene: Rosie, a social worker, visits a hospital to assist a patient and encounters someone whose communication style stands in stark contrast to her own. This interaction foreshadows virtually all the themes that will emerge. We soon learn more about her life, such as her friend Amy moving back in after a breakup, as they share not only a living space but their lives together. Beyond sharing a past and a profession, they also share a family, with Rosie maintaining close ties to Amy’s parents, Birdie and Geoff. As these older figures age, the film explores the fine line between a person’s professional capabilities and their role within their own family.
The film’s structure is somewhat unconventional, interweaving professional moments with family life and the day-to-day companionship of the two close friends. While this rhythm might seem odd at first, it ultimately proves perfectly aligned with the director’s vision: a sequence of events that make up an ordinary life. There are moments of humor intertwined with sad ones, situations that evolve into complex scenarios, yet we come to understand that it is all part of a continuous narrative flow that works effectively to capture a specific slice of life. The editing, in particular, is masterfully handled; it successfully alternates between high-impact events and trivial details, creating a distinctive brand of humor that shapes the film’s rhythm and structure.
Beyond offering a perspective on aging and illness, the film is impressive in how the filmmaker bridges the gap between the individual and the state. Through specific situations and dialogue, he conveys a fiercely critical view of post-Brexit Britain and the dismantling of state systems, actions that have tangible consequences for people’s lives. From the grueling workloads borne by Rosie and Amy to the film’s opening and closing scenes, which clearly articulate his stance on the erosion of the state apparatus, everything aligns perfectly with both the director’s body of work and the critical juncture the UK is currently facing.
The film strikes a subtle balance between reason and emotion, drama and comedy — a testament to a mature filmmaker who knows exactly how to achieve his vision. While it may not deliver an immediate, visceral jolt, it leaves a lasting impression, with a message that lingers long after the credits roll.




