Crítica | 51º TIFF | Krux

Krux (Alemanha, Polônia, 2026)

Título Original: Krux
Direção: Ulrike Tony Vahl
Roteiro: Ulrike Tony Vahl
Elenco principal: Jella Haase, Frida-Lovisa Hamann, Clemens Schick, Lukas Miko
Duração: 92 min (1h32min)

Ainda dentro dos filmes que rediscutem a II Guerra Mundial a partir de pontos de vista pouco explorados no cinema, Krux aparece com uma proposta diferente: abordar uma pequena vila medieval na Alemanha, que está começando a receber as notícias que os soviéticos estão chegando e que talvez a guerra não termine tão bem para o seu país. Com homens deslocados para as batalhas, mulheres trabalhando e crianças tentando seguir uma vida razoavelmente normal, os mecanismos mais profundos do fascismo passam a se desdobrar para aqueles que, de certa forma, o elegeram.

O filme se inicia com uma sequência extremamente impactante. Nela, Greta (Jella Haase) recebe um coração humano e se organiza para mantê-lo conservado. Isso é o prenúncio para a próxima cena, na qual vemos o seu casamento sendo realizado sem o marido presente, dado o seu falecimento na guerra. Com isso, temos uma noção de como o filme se desenrolará. Acompanhamos alguns personagens chave durante um período específico de tempo e compreendemos como uma possível derrota altera os seus pensamentos e comportamentos.

Algo que chama a atenção é a maneira elegante que o filme se desenvolve. Mesmo que ele tenha um ritmo dilatado, que dialoga com essa sensação de isolamento e desespero em apenas aguardar que as tropas inimigas cheguem, ele consegue evitar o cansaço que muitas vezes isso traz. Um primeiro recurso visível é a separação da obra em pequenos capítulos, que não são exatamente enunciados, mas que se deixam claros com a inserção de uma miniatura simbólica daquele espaço sendo transformado por diversos acontecimentos. Isso ajuda a criar uma noção do tempo e continuidade, e ainda que seja um artifício simples, é bastante funcional.

Outro elemento que funciona de maneira parecida são as duplas de acontecimentos que ela coloca na própria narrativa. Mesmo que às vezes isso apareça de maneira mais direta, como as cenas das crianças aprendendo a nadar e quase se afogando e o repentino aparecimento de corpos naquele mesmo lago, isso ajuda o público a criar a sensação de imediatismo que os próprios personagens sentem. Quando vemos algo em tela, imediatamente aguardamos o seu equivalente negativo, e isso ajuda a tensão a se manter firme ao longo da obra. O mesmo acontece com os próprios personagens, que parecem sempre estar com os mesmos conflitos internos, mas que lidam com eles de maneira oposta, como por exemplo o prefeito e o padre, ou a própria Greta e sua colega de trabalho na lavanderia.

A fotografia também é bastante simbólica, entre as cenas que utilizam o contraste do forte sol fora das casas com a escuridão nos espaços internos e um tom azulado sinistro que dá uma sensação de conto de fadas e ajuda a criar o destaque para o sangue nas cenas em que ele aparece. Entre brincar com a iluminação natural escassa por conta das construções de pedra e criar uma artificialidade funcional, o filme se torna bastante plástico, criando algumas imagens que permanecem com o espectador após o final do filme.

Ainda assim, a obra muitas vezes conta com o choque como uma forma narrativa, e a utilização disso de forma excessiva acaba pesando contra o seu próprio funcionamento. Há, por exemplo, muitas cenas de maus tratos aos animais, e por mais que se saiba que a relação entre homens e animais se transformou ao longo do último século, colocá-las em tela de maneira tão direta acaba parecendo uma necessidade de criar impacto muito literal. Com uma obra que funciona muito melhor no simbólico, essas situações ficam deslocadas e, por conta de sua violência, possivelmente afastam o público de maneira desnecessária.

Temos um filme bastante desconfortável, justamente por ser um retrato de uma situação histórica igualmente desagradável. Ele nos ajuda a compreender melhor as mecânicas do fascismo em relação aos próprios cidadãos, e o faz de maneira que utiliza a forma audiovisual em toda a sua potência. Considerando que esse é o primeiro longa-metragem de Ulrike Tony Vahl, ele pode ser o prenúncio de uma carreira promissora.

Krux (Germany, Poland, 2026)

Original Title: Krux
Director: Ulrike Tony Vahl
Screenplay: Ulrike Tony Vahl
Cast: Jella Haase, Frida-Lovisa Hamann, Clemens Schick, Lukas Miko
Runtime: 92 min (1h 32min)

Among the films revisiting World War II from perspectives rarely explored in cinema, Krux stands out with a unique approach: focusing on a small medieval village in Germany as news arrives that Soviet forces are approaching and that the war might not end well for their country. With men deployed to the front, women working, and children trying to lead reasonably normal lives, the deeper mechanisms of fascism begin to unfold for those who, in a sense, had chosen it.

The film opens with a striking sequence in which Greta (Jella Haase) receives a human heart and sets about preserving it. This foreshadows the following scene, where we witness her wedding ceremony taking place in the absence of her husband, who has died in the war. This establishes the tone for how the film will unfold. We follow key characters over a specific period, observing how the prospect of defeat alters their thoughts and behaviors.

The film’s elegant progression is particularly noteworthy. Although it maintains a deliberate, unhurried pace which reflects the isolation and despair of waiting for enemy troops to arrive, it avoids the tedium that such pacing can often induce. One visible technique is the division of the film into short chapters; while not explicitly labeled, these are clearly marked by the insertion of a symbolic miniature of the setting, which transforms as various events unfold. This device helps establish a sense of time and continuity, and while simple, it proves highly effective. Another element that functions similarly is the pairing of events within the narrative. Even when this appears more directly, such as the scenes of children learning to swim and nearly drowning, juxtaposed with the sudden appearance of bodies in that same lake, it helps the audience share the sense of immediacy felt by the characters themselves. When we see something on screen, we immediately anticipate its negative counterpart, and this helps sustain the tension throughout the film. The same applies to the characters: they often grapple with similar internal conflicts yet handle them in opposing ways — seen, for instance, in the mayor and the priest, or in Greta and her coworker at the laundry.

The cinematography is also highly symbolic, utilizing contrasts between the harsh sunlight outside and the darkness of interiors, alongside a sinister blue hue that evokes a fairy-tale atmosphere while making the blood stand out whenever it appears. By balancing the use of natural light, limited by the stone architecture, and with a functional artificiality, the film achieves a striking visual quality, creating images that linger with the viewer long after the movie ends.

However, the film often relies on shock as a narrative device, and its excessive use ultimately works against the film’s overall effectiveness. There are, for example, numerous scenes of animal abuse; while the changing relationship between humans and animals over the last century is acknowledged, depicting such acts so directly feels like a bid for literal impact. In a film that operates far more effectively on a symbolic level, these moments feel out of place and, due to their violence, may unnecessarily alienate the audience.

The result is a deeply unsettling film, precisely because it portrays an equally unpleasant historical reality. It offers insight into the mechanics of fascism as experienced by ordinary citizens, doing so by harnessing the full potential of the audiovisual medium. Given that this is Ulrike Tony Vahl’s first feature film, it could be the harbinger of a promising career.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima