The Smell of Apples (África do Sul, Países Baixos, Chile, 2026)
Título Original: The Smell of Apples
Direção: John Trengove
Roteiro: John Trengove, Mark Behr e Christopher Ciancimino
Elenco principal: Dawian van der Westhuizen, Hilton Pelser, Maude Sandham, Alejandro Goic e Celeste Matthews Wabbeburgh
Duração: 104 minutos (1h44min)
É impressionante como o cinema tem a capacidade de se voltar para o passado para refletir sobre as questões do presente. Se temos visto muito isso em relação às obras que retornam à II Guerra Mundial em uma tentativa de relembrar às pessoas sobre os males do fascismo, aqui temos o cineasta John Trengove fazendo o mesmo em relação ao sistema de apartheid na África do Sul. The Smell of Apples é uma reconstrução histórica que tenta, através dos olhos de uma criança, representar o período de forma a deixar claro todos os privilégios e opressões ali presentes.

Na obra, acompanhamos o jovem Marnus (Dawian van der Westhuizen) durante um período de menos de uma semana. Com as férias de verão chegando, ele tem seus planos de brincar com seu melhor amigo e depois viajar com os pais, mas observa diversos acontecimentos mudando a sua visão de mundo. Exatamente naquele momento de vida no qual a criança começa a misturar as crenças de seus pais com suas próprias noções de identidade, acompanhamos as suas mudanças de percepção sobre o que está acontecendo ao seu redor.
O filme faz questão de deixar claro que ele se passa em um regime extremamente racista e no qual existia uma normalização de todos os absurdos que observamos. Desde a primeira sequência, na qual vemos a família saindo da escola e chegando no carro onde uma empregada doméstica negra, Doreen (Celeste Matthews Wabbeburgh) os aguarda por não poder adentrar naquele espaço para brancos, já sabemos que o filme se passará no ponto de vista dessa família branca, e não das pessoas que estavam sendo oprimidas. Mais do que isso, percebemos a perversidade da situação com a mãe da família, Leonor (Maude Sandham) se referindo ao ocorrido como “as compras que ficaram no carro”, como se ali não houvesse uma pessoa junto àquela sacola. Passamos por outras situações, como os espaços fisicamente divididos e a necessidade de que negros esperassem na porta de espaços aos quais não poderiam acessar. Não existe nenhuma romantização da realidade, e só rever esse tipo de reconstrução de um passado recente, lembrando que o apartheid só acabou em 1994, sensibiliza qualquer espectador com um mínimo de letramento racial.
Mas o filme passa também por outras questões menos comuns de se ver em tela, pensando bastante em todos os tipos de repressão que um regime como esse inclui, extrapolando a questão racial. Temos, por exemplo, uma colaboração entre militares sul-africanos e militares chilenos, em uma cooperação muito pouco explorada na cinematografia. Existe uma questão da agressão paterna velada de Johan (Hilton Pelser) aos seus próprios filhos, assim como um comportamento extremo de ciúmes em relação à sua esposa. Esses elementos não são colocados como tão importantes quanto toda a repressão racial, mas estão presentes para lembrar o quanto todos esses processos estão enraizados em uma sociedade patriarcal militarista.
Por mais que o destaque do filme esteja nas ações dos personagens e na exploração desse momento histórico específico, há alguns elementos técnicos que são bem utilizados para ajudar na construção desse clima. O primeiro deles é a atuação de Dawian van der Westhuizen, que apesar da pouca idade consegue demonstrar uma maturidade enorme em cena. Do olhar que admira o pai e que aos poucos vai perdendo o brilho até a cena final, que demonstra exatamente esse momento de perda de inocência, ele é um elemento central para que o filme consiga emocionar. O segundo elemento é a fotografia do filme, que apesar de estar focada em um naturalismo e utilizar bastante da luz natural presente em cenas como a praia, utiliza os subtons frios para manter um ar de impessoalidade que também ajuda a dar o tom do filme. O contraste entre a maioria dos acontecimentos e aqueles nos quais realmente há uma forte questão de afeto é tão gritante que nos deixa bem claro o quanto esses momentos são isolados na vida do menino.
É necessário apontar mais uma questão. O filme escolhe por colocar o seu foco na vida dos opressores, muito possivelmente em uma tentativa de gerar algum tipo de reflexão nos espectadores sobre as suas próprias atitudes que podem de certa forma se relacionar com essa vida de fachada que a família apresenta e rever seus próprios comportamentos. Isso não impede que a gente possa compreender o tamanho da dor que os oprimidos sentem, porque ela está sempre presente seja dentro ou fora da tela. Ainda assim, ele faz uma escolha por mostrar imagens extremamente fortes da Guerra de Libertação do Zimbábue que são desconcertantes. Mesmo com um sentido narrativo no que é proposto, a sensação ao término do filme é bastante persistente. Com isso, recomenda-se que o espectador esteja preparado para ver imagens pesadas de guerra.
Assim, o filme é tecnicamente competente, historicamente interessante e consegue dar uma nova visão sobre um conflito muito conhecido. Ele consegue fazer com que os seus espectadores fiquem impactados com todos os pormenores que são apresentados, e também nos ajuda a compreender um pouco mais sobre o mundo. Novamente, o cinema nos dá a aula de história que, sem as imagens impactantes, poderia ser muito mais facilmente esquecida.
The Smell of Apples (South Africa, Netherlands, Chile, 2026)
Original Title: The Smell of Apples
Director: John Trengove
Screenplay: John Trengove, Mark Behr, and Christopher Ciancimino
Cast: Dawian van der Westhuizen, Hilton Pelser, Maude Sandham, Alejandro Goic, and Celeste Matthews Wabbeburgh
Runtime: 104 minutes (1h 44m)
It is remarkable how cinema has the capacity to look to the past to reflect on the issues of the present. While we have seen this frequently in works revisiting World War II to remind people of the evils of fascism, filmmaker John Trengove does the same here regarding the apartheid system in South Africa. The Smell of Apples is a historical reconstruction that attempts, through the eyes of a child, to portray the era in a way that lays bare the privileges and oppressions inherent to that time.
The film follows young Marnus (Dawian van der Westhuizen) over the course of less than a week. With summer vacation approaching, he has plans to play with his best friend and then travel with his parents, yet he witnesses a series of events that shift his worldview. At that precise moment in life when a child begins to blend their parents’ beliefs with their own developing sense of identity, we track the changing way he perceives the events unfolding around him.
The film makes a point of establishing that it takes place under an extremely racist regime, one where the absurdities we witness were normalized. From the opening sequence, showing the family leaving school and approaching their car, where a Black domestic worker, Doreen (Celeste Matthews Wabbeburgh), is waiting because she is barred from entering the “whites-only” space, we understand that the story will unfold from the perspective of this white family, rather than that of the oppressed. Moreover, the perversity of the situation becomes apparent when the family’s mother, Leonor (Maude Sandham), refers to the incident as “the groceries left in the car” as if there weren’t a human being right there alongside the bag. We witness other situations, such as physically segregated spaces and the requirement for Black people to wait at the entrances of areas they were barred from entering. There is no romanticizing of reality; simply revisiting this kind of reconstruction of the recent past, bearing in mind that the Apartheid only ended 32 years ago in 1994, is enough to move any viewer with even a basic level of racial literacy.
However, the film also addresses issues less commonly seen on screen, reflecting deeply on the various forms of repression inherent in such a regime, extending beyond the racial dimension. For instance, it depicts collaboration between South African and Chilean military forces, a partnership rarely explored in cinema. There is also the issue of Johan’s (Hilton Pelser) veiled aggression toward his own children, alongside his extreme, jealous behavior toward his wife. While these elements are not presented as being as significant as the overarching racial oppression, they serve to remind us how deeply rooted all these processes are within a militaristic, patriarchal society.
Although the film’s focus lies on the characters’ actions and the exploration of this specific historical moment, certain technical elements are effectively employed to help build the atmosphere. The first is the performance of Dawian van der Westhuizen; despite his youth, he displays remarkable maturity on screen. From the look of admiration for his father, which gradually loses its spark, to the final scene, which perfectly captures the loss of innocence, he is central to the film’s emotional impact. The second element is the cinematography; while it favors naturalism and makes extensive use of natural light, such as in the beach scenes, it employs cool undertones to maintain an air of detachment that helps set the film’s overall tone. The contrast between most events and those involving genuine, strong emotional bonds is so stark that it clearly highlights just how isolated these moments are in the boy’s life.
One further point must be made. The film chooses to focus on the lives of the oppressors, very likely in an attempt to prompt viewers to reflect on their own attitudes, which might in some way mirror the façade the family presents, and to reconsider their own behaviors. This does not prevent us from grasping the magnitude of the pain felt by the oppressed, as it remains ever-present, both on and off-screen. Even so, the film opts to show extremely graphic, unsettling images from the Zimbabwean War of Liberation. Despite the narrative purpose behind this choice, the impression left at the film’s conclusion is deeply lingering. Thus, it is recommended that the viewer be prepared to see harrowing images of war.
Thus, the film is technically competent, historically interesting, and manages to offer a fresh perspective on a well-known conflict. It succeeds in deeply affecting viewers with the details presented, while also helping us understand the world a little better. Once again, cinema provides a history lesson that, without such striking imagery, might otherwise be far more easily forgotten.



