Crítica | 51º TIFF | Bucking Fastard

Bucking Fastard (Irlanda, Estados Unidos, 2026)

Título Original: Bucking Fastard
Direção: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Elenco principal: Kate Mara, Rooney Mara, Orlando Bloom, Domhnall Gleeson, Simon Delaney, Hugh O’Conor e Bosco Hogan
Duração: 109 minutos (1h 49min)

É interessante perceber como um diretor de carreira extremamente prolífica como Werner Herzog retoma alguns dos temas principais de sua cinematografia quase 60 anos após o seu primeiro longa-metragem, Sinais de Vida (1968). Se no começo de sua carreira ele ficou famoso pela criação de obras que retratavam personagens com uma obsessão, em Bucking Fastard ele retoma essa situação com uma pequena alteração: ao invés de um único personagem masculino, aqui temos duas personagens femininas.

Em um casting bastante peculiar, Kate Mara interpreta Jean Holbrooke enquanto sua irmã Rooney Mara aparece como Joan Holbrooke, irmãs que vivem em uma espécie de simbiose na qual falam de maneira semelhante, se apaixonam pelo mesmo homem e até se movem de maneira completamente sincronizada. Elas acabam entrando em um conflito legal quando, após o término de um relacionamento com um vizinho, elas passam a se tornar obcecadas por ele. Seguimos então a sua vida enquanto elas vão viver em Dublin, e depois quando passam a perseguir uma ideia de criação de um país no qual o amor seja livre.

Se essa sinopse não for o suficiente para afastar um espectador mais desavisado, certamente os primeiros minutos da obra farão com que ele se espante. Após uma dedicatória ao falecido colega David Lynch, somos apresentados ao elemento mais incrível de toda a produção, que é a atuação das irmãs Mara para interpretar esses papéis. Desde a fala em sincronia, que já é um elemento dificílimo, até a sua capacidade de se entregar à inocência que essas personagens pedem, temos uma entrega surreal ao processo do filme. É até difícil imaginar, como público, como uma boa parte das cenas foi realizada e o quanto de ensaio esse filme exigiu, pois a impressão em tela é de que se trata de praticamente uma mente fragmentada entre duas pessoas.

Esse feio impressionante pode ser replicado para praticamente todas as áreas do longa. Temos a fotografia que valoriza a simetria e a quebra intencional dela, fazendo com que as cenas com as duas sejam sempre cotidianas. Na direção de arte, lida-se também com esse duplo de figurinos, por exemplo, mas sempre com uma adaptação sutil para cada uma delas, mostrando um leve grau de diferenciação. A estranheza é esse elemento sempre presente, e o fio condutor para o espectador que acompanha as peripécias das irmãs.

Seu roteiro tem alguns momentos preciosos, como o momento no qual as irmãs afirmam que não podem existir fotos delas na internet porque elas “não têm internet”, mostrando uma certa pureza, e que é imediatamente alterado com uma cena que quebra essa noção demonstrada apenas alguns segundos antes. Ainda assim, para uma obra que flerta tanto com a excentricidade, ele acaba se fechando em alguns ciclos muito simples, do tribunal, Dublin e depois a casa de sua tia. Por ter uma forma tão ousada com uma narrativa bem mais convencional, muitas vezes ele acaba se tornando cansativo e perdendo muito do ritmo proposto nas cenas iniciais, nas quais não sabemos nada sobre as irmãs. Mesmo com situações propostas interessantes, é difícil sustentar toda a obra sem dar mais detalhes sobre o psicológico dessas personagens.

Ainda assim, é interessante ver uma modernização de um tema clássico de Herzog em um projeto que tem o toque de peculiaridade que acompanha a maior parte de seus filmes. É uma obra que não agradará todo mundo, mas que se assume como tal e não tem receios em se colocar como um contraponto aos filmes pasteurizados que saem da produção industrial estadunidense.

Bucking Fastard (Ireland, United States, 2026)

Original Title: Bucking Fastard
Director: Werner Herzog
Writer Werner Herzog
Cast: Kate Mara, Rooney Mara, Orlando Bloom, Domhnall Gleeson, Simon Delaney, Hugh O’Conor, and Bosco Hogan
Runtime: 109 minutes (1h 49min)

It is interesting to observe how a director with such an incredibly prolific career as Werner Herzog revisits key themes from his filmography nearly 60 years after his debut feature, Signs of Life (Lebenszeichen, 1968). While he gained early fame for creating works centered on characters driven by obsession, in Bucking Fastard he revisits this dynamic with a slight twist: instead of a single male protagonist, the story features two female leads.

In a rather peculiar casting choice, Kate Mara plays Jean Holbrooke while her sister Rooney Mara appears as Joan Holbrooke; the sisters live in a state of symbiosis, speaking alike, falling for the same man, and even moving in perfect synchronization. They find themselves embroiled in a legal conflict after a relationship with a neighbor ends and they become obsessed with him. We follow their lives as they move to Dublin and later pursue the idea of ​​establishing a country where love is free.

If this synopsis isn’t enough to deter an unsuspecting viewer, the film’s opening minutes certainly will — or at least leave them astonished. Following a dedication to his late colleague David Lynch, we are introduced to the production’s most remarkable element: the Mara sisters’ performances. From their synchronized dialogue, which by itself is an incredibly difficult feat, to their ability to fully embrace the innocence their characters demand, they display an extraordinary level of commitment to the filmmaking process. As an audience member, it is hard to even imagine how many of the scenes were executed or the extent of the rehearsal required, as the impression on screen is that of a single mind split between two people.

This impressive feat applies to virtually every aspect of the film. The cinematography emphasizes both symmetry and its intentional disruption, ensuring that scenes featuring the pair always feel grounded in everyday reality. The art direction also plays with this concept of doubling, seen in the costumes, for instance, yet subtly adapts the look for each sister to reveal slight differences. A sense of strangeness is a constant presence, serving as a narrative thread for the viewer as they follow the sisters’ exploits.

The screenplay offers some precious moments, when the sisters claim there can be no photos of them online because they “don’t have the internet,” revealing a certain innocence, only to immediately shatter that notion in the very next scene. Yet, for a film that flirts so heavily with eccentricity, the plot eventually gets locked into a few simple cycles: the courtroom, Dublin, and their aunt’s house. Because it pairs such a bold style with a fairly conventional narrative, the film often becomes tedious, losing much of the momentum established in the opening scenes — where the sisters seem to be a great mystery. Even with intriguing scenarios, it is difficult to sustain the entire work without delving deeper into the characters’ psyches.

Still, it is fascinating to see a classic Herzog theme modernized in a project that bears the distinctive quirkiness found in most of his films. It is a work that won’t appeal to everyone, but it embraces its own nature, unafraid to stand as a counterpoint to the sanitized, mass-produced films churned out by the US industry.

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