Crítica | 51º TIFF | Wild Horse Nine

Cavalo Selvagem Nove (Reino Unido, Estados Unidos, Chile, 2026)

Título Original: Wild Horse Nine
Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Elenco principal: John Malkovich, Sam Rockwell, Steve Buscemi, Mariana di Girolamo, Ailín Salas, Tom Waits, Parker Posey
Duração: 118 minutos

Para qualquer latino-americano, dizer que um filme se passa em 1973 no Chile já cria uma tensão imediata, pelo conhecimento de que o golpe militar que colocou Augusto Pinochet no poder e iniciou uma ditadura com mais de 3.000 mortos ou desaparecidos se iniciou naquele ano. Martin McDonagh brinca com essa expectativa ao criar um roteiro que se passa logo antes desse movimento, justamente acompanhando dois agentes da CIA, agência estadunidense de inteligência que comprovadamente auxiliou na instauração desse novo governo.

Acompanhamos Chris Carlisle (John Malkovich) e Lee Chesterfield (Sam Rockwell) em uma viagem à Ilha de Páscoa, território chileno conhecido pelas moai, estátuas monumentais em formato de cabeças humanas. Sem saber exatamente porque eles estão indo para essa região, vamos aos poucos compreendendo tanto a relação entre os dois quanto os problemas pessoais pelos quais cada um deles está passando, com Carlisle revelando que está com uma doença terminal e repensando cada passo da sua vida como agente do governo estadunidense.

Longe de ser um lamento dramático triste, a obra se desenvolve como um thriller bem humorado. Com o ritmo e humor já conhecidos de outras obras do diretor, como Três Anúncios Para um Crime (2017) e Os Banshees de Inisherin (2022), vamos descobrindo camada seguida de camada sobre a vida desses personagens fictícios e como ela está profundamente ligada com a política dos EUA. Isso é feito de forma extremamente carismática e que evita os dispositivos narrativos de exposição, colocando as ações de cada um deles como mais importantes do que as suas falas. McDonagh mostra a sua marca ao criar personagens detestáveis e extremamente carismáticos, que representam ideias repugnantes apresentadas de forma bastante humanizada.

Seus diálogos rápidos fazem com que os espectadores fiquem vidrados nos acontecimentos e apreciem as pausas mais contemplativas, que fazem sentido com um personagem que observa as suas realizações em vida. John Malkovich tem uma chance de mostrar todo o seu arsenal de atuação, dando vida a esse personagem que parece cansado de sua própria vida e com uma excentricidade desagradável que cria uma camada extra de humanidade. Entre o seu olhar cansado e quase revirado ao lidar com as questões da CIA e sua alegria genuína ao conversar com duas jovens chilenas, somos facilmente convencidos de que este é um homem que não tem mais nada a perder. Além disso, nas cenas que envolvem os cavalos selvagens citados no título e que parodiam o próprio personagem, percebe-se uma conexão amorosa entre homem e animal que raramente é captada adequadamente pelo cinema.

Ainda que a obra pareça muito masculina, ela utiliza esse universo justamente para fazer a crítica à masculinidade e colocar a necessidade do afeto nas relações como necessárias para uma vida que tem valor. Junto com isso, ele aproveita para ironizar toda a organização política estadunidense e a sua prepotência ao tentar controlar a situação global durante a guerra fria, algo que tem consequências até hoje na maioria dos países latinos. Com isso, por mais que ele tenha uma estrutura semelhante aos filmes anteriores do diretor, ele funciona como uma adição a uma cinematografia já muito prolífica, e não apenas uma redundância em seu ponto de vista.

Wild Horse Nine consegue, além de tudo, um feito que parece acometer uma grande parte dos filmes da atualidade: consegue colocar todos os elementos em ordem para criar um final satisfatório e que faz sentido com a narrativa. Com todos os elementos devidamente colocados, ele simplesmente mira para criar uma situação que consegue encerrar a narrativa, e essa é uma habilidade rara para um roteirista e cineasta. Funcionando bem tanto para quem já é fã de McDonagh quanto para quem tem um primeiro contato com sua obra, o filme possivelmente trilhará um bom caminho para a temporada de premiações.

Wild Horse Nine (UK, USA, Chile, 2026)

Original Title: Wild Horse Nine
Director: Martin McDonagh
Writer: Martin McDonagh
Cast: John Malkovich, Sam Rockwell, Steve Buscemi, Mariana di Girolamo, Ailín Salas, Tom Waits, Parker Posey
Runtime: 118 minutes

For any Latin American, the mere mention of a film set in Chile in 1973 creates immediate tension, given the knowledge that the military coup, which brought Augusto Pinochet to power and launched a dictatorship resulting in over 3,000 deaths or disappearances, began that year. Martin McDonagh plays with this expectation by crafting a screenplay set just prior to those events, following two agents from the CIA — the U.S. intelligence agency known to have aided in the establishment of that new government.

We follow Chris Carlisle (John Malkovich) and Lee Chesterfield (Sam Rockwell) on a trip to Easter Island, a Chilean territory famous for its moai — monumental statues shaped like human heads. Without knowing exactly why they are traveling to the region, we gradually come to understand both the relationship between the two men and the personal struggles each is facing; Carlisle reveals he is terminally ill and is re-evaluating every step of his life as a U.S. government agent.

Far from being a somber, dramatic lament, the film unfolds as a darkly humorous thriller. With the pacing and wit characteristic of the director’s previous works, such as Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017) and The Banshees of Inisherin (2022), we peel back layer after layer of these fictional characters’ lives, revealing how deeply intertwined they are with U.S. politics. This is executed with immense charisma, avoiding expository narrative devices and prioritizing the characters’ actions over their dialogue. McDonagh leaves his signature mark by creating characters who are both detestable and incredibly charismatic — figures who embody repugnant ideas yet are portrayed in a deeply humanized way.

The rapid-fire dialogue keeps viewers riveted to the unfolding events while allowing them to appreciate more contemplative pauses — moments that feel entirely natural for a character reflecting on his life’s achievements. John Malkovich gets the chance to showcase his full acting range, bringing to life a character who seems weary of his own existence; he possesses an unpleasant eccentricity that adds an extra layer of humanity. Between his exhausted, almost eye-rolling demeanor when dealing with CIA matters and his genuine joy while chatting with two young Chilean women, we are easily convinced that this is a man with nothing left to lose. Furthermore, in the scenes featuring the wild horses mentioned in the title, which serve as a parody of the character himself, one senses a loving bond between man and animal that is rarely captured so effectively on film.

Although the work may appear heavily masculine, it uses that very setting to critique masculinity and to highlight the necessity of affection in relationships for a life of true value. At the same time, the film satirizes the U.S. political establishment and its arrogance in attempting to control the global situation during the Cold War — actions that continue to have repercussions across most Latin American countries to this day. Ultimately, while the film shares a structural resemblance to the director’s previous works, it stands as a meaningful addition to an already prolific body of work rather than a mere redundancy.

Above all, Wild Horse Nine achieves something that seems to elude many contemporary films: it successfully aligns all the elements to craft a satisfying conclusion that makes narrative sense. With every piece properly in place, it simply aims to create a scenario that brings the story to a close — a rare skill for a screenwriter and filmmaker. Working well for both existing fans of McDonagh and newcomers to his work, the film is likely to fare well during awards season.

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