Crítica | 79º Festival de Cannes | All of a Sudden

All of a Sudden (França, Japão, Alemanha, Bélgica, 2026)

Título Original: Soudain (em francês) / 急に具合が悪くなる – Kyū ni guai ga waruku naru (em japonês)
Direção: Ryūsuke Hamaguchi
Roteiro: Ryūsuke Hamaguchi e Léa Le Dimna
Elenco principal: Virginie Efira, Tao Okamoto, Kyōzō Nagatsuka, Kodai Kurosaki, Jean-Charles Clichet, Marie Bunel
Duração: 196 minutos

Pensando em uma definição de cinema autoral que coloca o diretor no centro da autoria de um filme, Ryūsuke Hamaguchi é um nome expoente do cinema japonês. Com um currículo extremamente premiado e que também tem um bom sucesso comercial, é fácil dizer que o lançamento de All of a Sudden era um dos mais aguardados do festival, até por ser a sua estreia dirigindo em francês.

Na trama, Marie-Lou (Virginie Efira) é diretora de uma casa de repouso nos subúrbios de Paris. No início, somos levados a crer que essa será uma história sobre a situação delicada na qual ela se encontra, tentando implantar a técnica da Humanitude nesse espaço e sofrendo rejeição por parte dos funcionários, que passariam a ter um trabalho mais complexo, e da diretoria, pois esse momento de transição e treinamento é mais caro. Isso por si só já criaria um ótimo filme, dada a preocupação recorrente que temos com uma população que está envelhecendo e a dificuldade da medicina em se adaptar às novas doenças vindas com a velhice. A Humanitude vem como resposta a esse problema, tentando lidar com essa questão permitindo que os idosos mantenham a sua autonomia até o último momento possível, mesmo que isso inicialmente cause alguns acidentes.

Mas após um dia de trabalho complicado, enquanto ela está no trem retornando para casa, ela encontra um jovem menino autista, Tomoki (Kodai Kurosaki), que está perdido de sua família e ela o ajuda a encontrá-los. Aqui surge o segundo elemento importante do filme, a diretora de teatro experimental Mari (Tao Okamoto), que está encenando uma peça premiada em território francês. Quando Marie-Lou vai assistir à peça, a vida das duas muda a partir de uma amizade inesperada e extremamente profunda. Entendemos então que a obra é um pouco sobre a vida e as questões de cada uma dessas mulheres, mas também sobre como as conexões podem ser um elemento importante na evolução pessoal das pessoas.

O primeiro elemento que eu acho bastante interessante é a escolha por filmar na França, mas mantendo francês e o japonês como línguas faladas sem gerar nenhum problema de comunicação. O que talvez tenha levado a essa escolha é a questão do método da Humanitude, que ainda está sendo implantado em poucos lugares e em uma progressão bastante lenta no mundo, com a França sendo justamente uma das pioneiras na técnica. Mas Hamaguchi faz uma escolha por não filmar cenas escalafobéticas com grandes marcos da cidade ao fundo e um interesse em trabalhar o imaginário já existente sobre o país, ao invés disso focando em um cotidiano mais suburbano e comum, deixando ainda espaço para uma fotogenia natural. E, além disso, as duas personagens conseguem se comunicar nas duas línguas, o que gera uma sensação de inclusão em relação à globalização que não é comum em coproduções internacionais.

Algumas vezes, o roteiro e direção se desviam de um fluxo mais natural para dar longas explicações, e é aí o único momento em que ele se desestabiliza um pouco – até porque a mensagem que está sendo colocada seria compreensível mesmo sem uma cena explicativa de um quadro branco seguido pela aula básica de economia. Só que, quando refletimos sobre os objetivos do filme e de sua execução propositadamente mais lenta, tentando aprofundar questões ao invés de apenas citá-las rapidamente. A obra toda funciona como um respiro em um universo de vídeos rápidos e necessidade do consumo em massa, e sua forma e conteúdo fazem questão de se colocar diretamente nessa linha de frente de oposição.

O que o filme traz também é um respiro de humanidade e dignidade em meio a uma realidade caótica e que nem sempre permite ao espectador um momento de reflexão. Seja nos pequenos gestos, como as emocionantes massagens nos pés que vão acontecendo ao longo de toda a obra, ou nos maiores, como a promessa de um cuidado e de uma “boa morte”, é como se o diretor estendesse um tapete de esperança para quem assiste. Também é bastante relevante que as duas personagens retratadas são mulheres que, além de independentes, também enxergam a importância da conexão e do acolhimento. Ver a relação entre as duas se desenvolvendo é, novamente, um deleite. Elas são personagens complexas e com contradições, o que aproxima o público e o faz torcer para que essa amizade siga em frente.

O filme é uma pausa no cotidiano para lembrar ao espectador que o cinema também pode simplesmente ser sentido, e que apesar de todos os problemas possíveis, ainda existem esperanças na humanidade justamente pela sua possibilidade única de se conectar com os outros.

In English, translated by Renata Torres:

All of a Sudden (France, Japan, Germany, Belgium, 2026)

Original Title: Soudain (in French) / 急に具合が悪くなる – Kyū ni guai ga waruku naru (in Japanese)
Director: Ryūsuke Hamaguchi
Screenplay: Ryūsuke Hamaguchi and Léa Le Dimna
Main Cast: Virginie Efira, Tao Okamoto, Kyōzō Nagatsuka, Kodai Kurosaki, Jean-Charles Clichet, Marie Bunel
Running Time: 196 minutes

Considering a definition of auteur cinema that places the director at the center of a film’s authorship, Ryūsuke Hamaguchi is a leading name in Japanese cinema. With an extremely award-winning resume and considerable commercial success, it’s easy to say that the release of All of a Sudden was one of the most anticipated at the festival, especially since it was a directorial debut in French.

In the plot, Marie-Lou (Virginie Efira) is the director of a nursing home in the suburbs of Paris. Initially, we are led to believe that this will be a story about the delicate situation she finds herself in, trying to implement the Humanitude technique in this space and facing rejection from the staff, who would then have a more complex job, and from the management, since this transition and training period is more expensive. This alone would make for a great film, given the recurring concern we have about an aging population and the difficulty medicine has in adapting to the new diseases that come with old age. Humanitude comes as a response to this problem, trying to address this issue by allowing the elderly to maintain their autonomy until the last possible moment, even if this initially causes some accidents.

But after a complicated day at work, while on the train returning home, she encounters a young autistic boy, Tomoki (Kodai Kurosaki), who is lost from his family, and she helps him find them. Here emerges the second important element of the film: the experimental theater director Mari (Tao Okamoto), who is staging an award-winning play in France. When Marie-Lou goes to see the play, the lives of the two women change through an unexpected and extremely deep friendship. We then understand that the work is partly about the lives and issues of each of these women, but also about how connections can be an important element in people’s personal evolution.

The first element that I find quite interesting is the choice to film in France, but maintaining French and Japanese as spoken languages ​​without generating any communication problems. What perhaps led to this choice is the Humanitude method, which is still being implemented in few places and at a rather slow pace worldwide, with France being one of the pioneers in the technique. But Hamaguchi makes a choice not to film extravagant scenes with grand city landmarks in the background, instead interested in working with the existing imagery of the country, focusing on a more suburban and common daily life, still leaving room for natural photogenicity. Furthermore, the two characters manage to communicate in both languages, which generates a sense of inclusion in relation to globalization that is not common in international co-productions.

Sometimes, the script and direction deviate from a more natural flow to give lengthy explanations, and that’s the only moment when it becomes a little unstable – especially since the message being conveyed would be understandable even without an explanatory scene of a whiteboard followed by a basic economics lesson. However, when we reflect on the film’s objectives and its deliberately slower execution, attempting to delve into issues instead of just mentioning them quickly, the whole work functions as a breath of fresh air in a universe of fast-paced videos and the need for mass consumption, and its form and content make a point of placing themselves directly on this front line of opposition.

What the film also offers is a breath of humanity and dignity amidst a chaotic reality that doesn’t always allow the viewer a moment of reflection. Whether in small gestures, like the moving foot massages that occur throughout the film, or in larger ones, like the promise of care and a “good death,” it’s as if the director is laying out a carpet of hope for the audience. It’s also quite relevant that the two characters portrayed are women who, besides being independent, also understand the importance of connection and acceptance. Watching their relationship develop is, again, a delight. They are complex characters with contradictions, which draws the audience in and makes them root for this friendship to continue.

The film is a pause in the day to remind the viewer that cinema can also simply be felt, and that despite all possible problems, there is still hope in humanity precisely because of its unique ability to connect with others.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

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