Gentle Monster (Áustria/Alemanha/França, 2026)
Título Original: Gentle Monster
Direção: Marie Kreutzer
Roteiro: Marie Kreutzer
Elenco principal: Léa Seydoux, Jella Haase, Laurence Rupp, Catherine Deneuve
Duração: 114 minutos
Aviso: Essa crítica contém spoilers sobre a trama do filme.
Em um ano de pouquíssimas diretoras mulheres dentro da mostra competitiva do Festival de Cannes, as que ainda estão presentes parecem focar em contar histórias muito relacionadas ao drama familiar, como foi o caso de A Woman ‘s Life. Marie Kreuzer também foca nesse caminho, criando espelhos a partir da vida de duas mulheres.

Essas duas mulheres são Lucy (Léa Seydoux) e Elsa (Jella Haase). Começamos pela história da primeira, uma pianista com performances ousadas que vive em uma pequena cidade no interior da Alemanha com seu marido e filho. Só que seu mundo desmorona quando, repentinamente, a polícia apreende todos os equipamentos de seu marido, um diretor de cinema. Nesse momento que conhecemos Elsa, a policial responsável pela investigação e que também passa por problemas na sua casa por conta de um pai com demência.
A grande questão colocada pela obra é que as acusações feitas ao marido de Lucy são de posse de pornografia infantil. O filme demora um pouco para dar todas as informações sobre os acontecimentos, porque tenta as colocar na mesma medida em que a própria personagem os descobre, tentando causar no espectador uma sensação semelhante àquela que a protagonista teria. E ele o faz com a intenção clara de criar uma provocação sobre a transformação que pode acontecer no amor a partir do momento em que a pessoa que você ama é acusada de cometer um crime horrendo.
Talvez a maior questão em relação ao filme seja que ele acaba sendo pouco rigoroso em relação à responsabilização do personagem por suas ações. Por mais que Léa Seydoux tenha uma atuação competente ao criar uma personagem em dúvida em relação às acusações feitas, existem limites que são ultrapassados que são eticamente muito complicados de acreditar em seu relacionamento com o esposo. A obra faz questão de dar ao personagem uma boa rede de apoio e diversas ferramentas para conseguir lidar com toda a situação, tornando cada vez menos crível o seu apego à idealização que ela tem do esposo.
Ainda assim, a obra é inteligente em aproveitar da melhor maneira possível a atuação de Seydoux. Isso se traduz nos diversos momentos em que a câmera segue a sua expressão facial por alguns segundos a mais do que seria estritamente necessário para compreender a cena, levando a um mapeamento mais profundo dos seus sentimentos sem a necessidade de colocá-los em palavras. A isso se somam diversos planos da protagonista dentro de espaços fechados olhando para a janela, dando uma sensação de claustrofobia mesmo quando sabemos que o espaço ao redor dela é amplo.
Mas o filme tenta ser amplo demais e trazer grandes temas como a masculinidade tóxica a partir de um ponto de vista especialmente problemático por tratar do crime da pornografia infantil. Se já temos diversas histórias sobre personagens que revelam pontos negativos específicos de sua personalidade e são perdoados por “ser apenas um garoto” ou “imagina, você conhece ele, sabe que ele não faria isso” o maior problema aqui é colocar a mesma ótica para um transtorno parafílico criminoso, que pode inclusive afetar seu próprio filho. Não existe um senso claro de causa e consequência, criando a sensação de leniência extremamente desconfortável.
Quando se coloca, por exemplo, o pai da policial que parece ter uma demência e que passa a assediar sua cuidadora nessa mesma chave, acabamos criando uma sensação de equidade entre elementos que definitivamente não são equivalentes. O mesmo acontece com a personagem principal cantando apenas músicas escritas por homens por acreditar que esse é um dos poucos espaços que eles têm para comunicar sentimentos – é uma boa ideia, mas que quando colocada nessa mesma mistura, perde tanto força quanto eficiência.
Com muitas boas ideias mas sem a capacidade de desenvolvê-las adequadamente, o filme nos perde como espectadores.
In English, translated by Renata Torres:
Gentle Monster (Austria/Germany/France, 2026)
Original Title: Gentle Monster
Director: Marie Kreutzer
Screenplay: Marie Kreutzer
Main Cast: Léa Seydoux, Jella Haase, Laurence Rupp, Catherine Deneuve
Running Time: 114 minutes
Warning: This review contains spoilers about the film’s plot.
In a year with very few female directors in the Cannes Film Festival’s competitive section, those still present seem to focus on telling stories closely related to family drama, as was the case with A Woman’s Life. Marie Kreutzer also follows this path, creating mirrors from the lives of two women.
These two women are Lucy (Léa Seydoux) and Elsa (Jella Haase). The film begins with the story of the first, a pianist with daring performances who lives in a small town in rural Germany with her husband and son. But her world crumbles when, suddenly, the police seize all the equipment belonging to her husband, a film director. It is at this moment that we meet Elsa, the police officer in charge of the investigation, who is also going through problems at home because of a father with dementia.
The central issue raised by the film is that Lucy’s husband is accused of possessing child pornography. The film takes a while to reveal all the information about the events, because it tries to present them at the same pace as the character herself discovers them, attempting to evoke in the viewer a feeling similar to that which the protagonist would experience. And it does so with the clear intention of provoking thoughts about the transformation that can occur in love from the moment the person you love is accused of committing a horrific crime.
Perhaps the biggest issue with the film is that it ends up being somewhat lax in holding the character accountable for his actions. While Léa Seydoux delivers a competent performance portraying a character who doubts the accusations made, there are boundaries that are crossed that are ethically very difficult to believe in her relationship with her husband. The film makes a point of providing the character with a strong support network and various tools to cope with the situation, making her attachment to her idealized version of her husband increasingly unbelievable.
Even so, the film cleverly utilizes Seydoux’s performance in the best possible way. This is evident in the numerous moments where the camera follows her facial expressions for a few seconds longer than strictly necessary to understand the scene, leading to a deeper understanding of her feelings without needing to put them into words. Added to this are several shots of the protagonist in enclosed spaces looking out the window, creating a sense of claustrophobia even when we know the space around her is vast.
But the film tries to be too broad and tackle big themes like toxic masculinity from a particularly problematic perspective by addressing the crime of child pornography. While we already have numerous stories about male characters who reveal specific negative aspects of their personality and are forgiven for “being just young” or “imagine, you know him, you know he wouldn’t do that,” the biggest problem here is applying the same lens to a criminal paraphilic disorder, which can even affect one’s own child. There’s no clear sense of cause and effect, creating an extremely uncomfortable feeling of leniency.
When, for example, Elsa’s father who seems to have dementia and who begins to harass his caregiver is placed in this same context, we end up creating a sense of equality between elements that are definitely not equivalent. The same happens with the main character singing only songs written by men because she believes this is one of the few spaces they have to communicate feelings – it’s a good idea, but when placed in this same mix, it loses both strength and effectiveness.
Despite having many good ideas, and yet lacking the ability to develop them properly, the film loses us as viewers.
Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.




