Crítica | 79º Festival de Cannes | Coward

Coward (Bélgica, França, Países Baixos, 2026)

Título Original: Coward

Direção: Lukas Dhont

Roteiro: Lukas Dhont, Angelo Tijssens

Elenco principal: Emmanuel Macchia, Valentin Campagne, Jonas Wertz, Willem De Schryver

Duração: 120 minutos (2h)

Em meio a um festival, é interessante pensar como a própria exibição dos filmes é pensada. Isso porque no mesmo dia foram apresentados ao público pela primeira vez La Bola Negra e Coward, dois filmes com foco em personagens LGBTQ+ em meio à guerras. Se já é uma coincidência que tais filmes sejam lançados em um mesmo ano, colocá-los em uma grade de programação lado a lado só torna isso mais evidente.

Em Coward, começamos a história com Pierre (Emmanuel Macchia), um jovem soldado belga que chega ao front da I Guerra Mundial para trabalhar nas atividades de manutenção. Nesse primeiro momento, já é interessante que nos é apresentada uma visão diferente sobre o trabalho dos soldados em guerra. Estamos falando de um tipo de conflito que praticamente não existe mais, mas que é o que foi eternizado na nossa mente, mas que normalmente é representado no cinema com grandes atos de bravura e através de personagens que estão mais diretamente no conflito. Mas Pierre tem um trabalho diferente. Ele é o responsável por mover corpos para valas comuns, por transportar munição, por fazer a comida, por resgatar pessoas feridas do front. Acompanhar a sua rotina já nos dá uma boa noção dos horrores de estar no front, e conseguimos compreender como a visão do próprio personagem sobre aquela situação vai se modificando.

Acrescenta-se a isso uma atuação excepcional de Emmanuel Macchia, que por vezes consegue expressar o seu desconforto com uma mordida mais forte que torna seu maxilar mais proeminente, e até por algum olhar um pouco mais desconectado. Sua atuação foi premiada junto à de Valentin Campagne, o que foi um prêmio justo. Considerando que essa é sua primeira atuação em uma produção, isso também indica uma boa produção de casting do filme.

O filme tem uma mudança em seu tom quando Pierre conhece Francis (Valentin Campagne), um soldado que se encontra entre os “rejeitados” de ir para o front, e que está responsável por produzir uma peça de teatro para elevar a moral das tropas. Pierre acaba ajudando nesse processo e, como se pode esperar, se apaixona por Francis. Passamos então a acompanhar a mistura entre esse caos da guerra e um certo alívio que vem de construir um amor e de certa forma, até se compreender melhor no mundo. Temos um contraponto a toda aquela violência que está sendo apresentada, e isso acaba sendo a fonte de alívio para ambos, tal qual as apresentações teatrais, com a arte sendo a possibilidade de expressão deles naquele momento.

O filme segue a estética já estabelecida por Dhont em seus outros longa-metragens, mas aqui com um maior contraste estético entre os horrores da guerra e as doçuras do amor. Ele consegue fugir um tanto das narrativas trágicas que normalmente são impostas aos personagens gays dentro de uma estrutura naturalmente opressora como o exército, ainda que consiga transmitir o desespero em alguns momentos, como a cena na qual Francis está se apresentando vestido como mulher para generais. Ele lida com essa linha tênue entre estar em um momento histórico onde a homossexualidade era punida e estar em um espaço onde essa paixão ainda era possível.

Sem grandes mudanças em sua forma de contar uma história, mas trazendo uma grande mudança em trazer uma história gay para o centro de um filme de guerra, Dhont dá mais um passo importante dentro do cinema queer. Não é à toa que ele se tornou um queridinho do festival.

In English, translated by Renata Torres:

Coward (Belgium, France, Netherlands, 2026)

Original Title: Coward

Director: Lukas Dhont

Screenplay: Lukas Dhont, Angelo Tijssens

Main Cast: Emmanuel Macchia, Valentin Campagne, Jonas Wertz, Willem De Schryver

Running Time: 120 minutes

In the midst of a festival, it’s interesting to consider how the films are presented. This is because on the same day, La Bola Negra and Coward, two films focusing on LGBTQ+ characters amidst war, were shown to the public for the first time. If it’s already a coincidence that these films are released in the same year, placing them side-by-side in a programming schedule only makes it more evident.

In Coward, we begin the story with Pierre (Emmanuel Macchia), a young Belgian soldier who arrives at the front of World War I to work in maintenance activities. From the outset, it’s interesting to be presented with a different perspective on the work of soldiers in war. We’re talking about a type of conflict that practically no longer exists, but which has been immortalized in our minds, though it’s usually represented in cinema with great acts of bravery and through characters who are more directly involved in the conflict. But Pierre has a different job: he’s responsible for moving bodies to mass graves, transporting ammunition, preparing food, and rescuing wounded people from the front. Following his routine gives us a good idea of ​​the horrors of being on the front lines, and we can understand how the character’s own perspective on that situation changes.

Added to this is an exceptional performance by Emmanuel Macchia, who at times manages to express his discomfort with a stronger bite that makes his jaw more prominent, and even with a slightly disconnected look. His performance was awarded along with Valentin Campagne’s, which was a well-deserved prize. Considering this is his first acting role in a production, this also indicates good casting in the film.

The film takes a turn when Pierre meets Francis (Valentin Campagne), a soldier among those rejected from going to the front, who is responsible for producing a play to boost troop morale. Pierre ends up helping in this process and, as one might expect, falls in love with Francis. We then follow the mix between the chaos of war and a certain relief that comes from building love and, in a way, understanding the world better. We have a counterpoint to all the violence being presented, and this ends up being a source of relief for both, just like the theatrical performances, with art being their means of expression at that moment.

The film follows the aesthetic already established by Dhont in his other feature films, but here with a greater aesthetic contrast between the horrors of war and the sweetness of love. He manages to somewhat escape the tragic narratives that are usually imposed on gay characters within a naturally oppressive structure like the army, even while still managing to convey despair at times, such as the scene where Francis is presenting himself dressed as a woman to generals. He deals with this fine line between being in a historical moment where homosexuality was punished and being in a space where this passion was still possible.

Without major changes in his storytelling style, but bringing a significant shift by placing a gay story at the center of a war film, Dhont takes another important step within queer cinema. It’s no wonder he became one of the festival’s favorites.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

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