Crítica | 79º Festival de Cannes | La Vénus Életrique

La Vénus Électrique (França, 2026)

Título Original: La Vénus électrique
Direção: Pierre Salvadori
Roteiro: Benjamin Charbit, Benoît Graffin e Pierre Salvadori (baseado em uma ideia de Rebecca Zlotowski e Robin Campillo)
Elenco principal: Pio Marmaï, Anaïs Demoustier, Gilles Lellouche, Vimala Pons
Duração: 122 min

O título que se traduz para A Vênus Elétrica certamente chama a atenção por sua singularidade. A deusa romana do feminino, da fertilidade e do desejo aparece aqui em uma versão moderna, como a artista de vaudeville Suzanne (Anaïs Demoustier), cuja história trágica a levou a se apresentar em um truque no qual uma corrente elétrica é passada pelo seu corpo enquanto ela encosta a boca na de um espectador pagante, gerando assim uma espécie de beijo eletrizante. Por estar no lugar certo e na hora certa, ela acaba sendo confundida pelo pintor Antoine (Pio Marmaï) com a vidente Claudia, com a qual ele iria se consultar em busca de respostas em relação ao falecimento de sua esposa. Em uma situação na qual a oportunidade faz o ladrão, ela decide seguir o enganando em troca de dinheiro em uma situação que vai se complexificando na medida em que eles começam a se conhecer melhor, assim como ao passado um do outro.

Charmoso possivelmente é a melhor palavra para descrevê-lo, até por conta de sua atmosfera da França nos anos 1920 que ficou eternamente romantizada na mentalidade ocidental. Já em sua primeira cena, ele apresenta diversos membros dessa comunidade nômade de maneira elegante, com uma fotografia que acompanha a movimentação e traz a sensação de novidade que as pessoas da época tinham ao visitar tais espaços. Existe uma valorização daquilo que é plasticamente interessante, seja pela composição ou pela aproximação com as artes visuais. Nisso, o filme faz uma interessante aproximação com o momento em que retrata, pois logo antes da quebra da bolsa de 1929 o mercado de arte era fervilhante em Paris, com diversas técnicas sendo criadas e muitos pintores sendo descobertos. Nada melhor do que, então, se inspirar nessas composições hoje já consideradas clássicas para criar uma estética para a obra.

O que parece um roteiro genérico acaba elevado pela somatória entre essa estética e o casting muito bem realizado. Os protagonistas, por exemplo, conseguem trazer uma linguagem corporal desastrada, mas divertidamente romântica para a cena. Os personagens secundários interpretados por Gilles Lellouche e Vimala Pons, ambos experientes atores do cinema comercial francês, trazem mais uma camada de humor e profundidade, conseguindo elaborar melhor as questões como luto, romance (e a morte dele pela rotina) e amizade. Eles são elementos essenciais para que o filme fuja de uma falta de personalidade para uma melhor conexão com seu público.

Ainda assim, o filme parece estranhamente simples para a abertura de um dos maiores festivais do mundo, que tem sido decisivo na movimentação para as grandes premiações do cinema. Fui entender, lendo a newsletter do Chico Fireman, que este é um movimento que tem acontecido nos últimos anos, voltado muito mais para uma promoção de um filme para o mercado interno francês do que pensando em valores artísticos ou de valores do festival. Mas, infelizmente, pela conversa geral ouvida nos corredores, é uma decisão que tem deixado incomodados os espectadores mais voltados para a programação cinematográfica.

Simples, conciso, sem ofender ninguém nem trazer nenhuma mensagem particularmente sobre artes ou política. Essas são palavras que eu nunca esperaria escrever sobre um filme de abertura de tal festival, mas infelizmente são as que me vêm à mente ao lembrar da obra a que fomos apresentados ontem à noite.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esquece que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

In English, translated by Renata Torres:

La Vénus Électrique (France, 2026)

Original Title: La Vénus électrique
Director: Pierre Salvadori
Screenplay: Benjamin Charbit, Benoît Graffin and Pierre Salvadori (based on an idea by Rebecca Zlotowski and Robin Campillo)
Main Cast: Pio Marmaï, Anaïs Demoustier, Gilles Lellouche, Vimala Pons
Running Time: 122 min

The title, which translates to The Electric Venus, certainly draws attention for its uniqueness. The Roman goddess of femininity, fertility, and desire appears here in a modern version, as the vaudeville artist Suzanne (Anaïs Demoustier), whose tragic story led her to perform a trick in which an electric current is passed through her body while she touches her mouth to that of a paying spectator, thus generating a kind of electrifying kiss. Because she’s in the right place at the right time, she ends up being mistaken by the painter Antoine (Pio Marmaï) for the fortune teller Claudia, whom he was going to consult in search of answers regarding his wife’s death. In a situation where opportunity makes the thief, she decides to continue deceiving him in exchange for money, a situation that becomes increasingly complex as they get to know each other better, as well as each other’s past.

Charming is possibly the best word to describe it, even because of its atmosphere of 1920s France, which has been eternally romanticized in the Western mindset. In its very first scene, it presents various members of this nomadic community in an elegant way, with cinematography that follows the movement and conveys the sense of novelty that people of the time had when visiting such places. There is an appreciation for what is visually interesting, whether through composition or its connection to the visual arts. In this respect, the film makes an interesting connection to the moment it portrays, because just before the 1929 stock market crash, the art market was thriving in Paris, with various techniques being created and many painters being discovered. Nothing better, then, than to draw inspiration from these compositions, now considered classics, to create an aesthetic for the work.

What seems like a generic script is elevated by the combination of this aesthetic and the very well-executed casting. The protagonists, for example, manage to bring a clumsy, yet amusingly romantic, body language to the scene. The secondary characters, played by Gilles Lellouche and Vimala Pons, both experienced actors in French commercial cinema, bring another layer of humor and depth, managing to better elaborate on issues such as grief, romance (and its death through routine), and friendship. They are essential elements that allow the film to avoid a lack of personality and achieve a better connection with its audience.

Still, the film seems strangely simple for the opening of one of the world’s biggest festivals, which has been decisive in the race for major film awards. I came to understand, reading Chico Fireman’s newsletter, that this is a trend that has been happening in recent years, focused much more on promoting a film to the French domestic market than on artistic merit or the festival’s overall values. But, unfortunately, judging by the general conversation overheard in the corridors, it’s a decision that has left viewers more focused on the film program uneasy.

Simple, concise, without offending anyone or conveying any particular message about art or politics. These are words I never expected to write about an opening film for such a festival, but unfortunately, they are the ones that come to mind when I remember the work we were presented with last night.

Thank you, Aline Guevara, for your support! If you want to see your name in future reviews, don’t forget that the crowdfunding campaign is still open at https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

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