Crítica | 79º Festival de Cannes | Nagi Notes

Nagi Notes (Japão, França, Singapura, Filipinas, 2026)

Título Original: Nagi Notes (Nagi no Nikki)
Direção: Koji Fukada
Roteiro: Koji Fukada (baseado na peça Tokyo Notes de Oriza Hirata)
Elenco principal: Takako Matsu, Shizuka Ishibashi, Kenichi Matsuyama
Duração: 110 minutos

O início da primavera, principalmente em países de invernos rigorosos como é o caso do Japão, é um momento extremamente simbólico sobre o final de um ciclo de retenção e contenção para poder aproveitar os frutos das colheitas. Assim, quando vemos que a obra se inicia no dia 13 de março na cidade de Nagi, é difícil não pensar na chegada de Yuri (Shizuka Ishibashi) àquele local tranquilo como uma espécie de recomeço para vários cidadãos daquele espaço.

O motivo formal de sua viagem é que ela sirva como modelo para a sua amiga e ex-cunhada Yoriko (Takako Matsu), mas logo vamos entendendo que cada um dos personagens ali presentes tem um motivo mais pessoal para se envolver com o universo artístico. Haruki (Waku Kawaguchi), por exemplo, é um jovem que já conhece Yuri por conta de aulas de pintura que tem com Yoriko, enquanto Keiko (Kiyora Fujiwara) é um recém chegado à cidade que está tendo problemas para se adaptar na região rural e afastada. Tal qual as flores no desabrochar da primavera, cada um deles acaba encontrando uma questão de identidade que se relaciona com os outros.

É interessante que a obra consegue se pautar ao mesmo tempo em longas conversas e em longos silêncios. Para um padrão ocidentalizado de cinema, o seu andamento é mais lento, com a passagem do tempo sendo marcada pelos diferentes calendários que aparecem como planos detalhes. Até neste sentido, a escolha do filme é interessante por não tentar capítulos que tentem ser mais regulares, mas sim respeitar a organicidade dos acontecimentos cotidianos: há dias em que muito acontece, enquanto há outros que são passados praticamente em branco. Criam-se algumas pequenas tramas, como a escultura, a amizade entre os dois garotos, uma vaca que foge do estábulo, uma visita ao museu da cidade, mas percebe-se que tudo isso entra em cena apenas para enquadrar o que realmente importa para Koji Fukada, que são as relações humanas.

É interessante que o filme lide com outras artes paralelas ao cinema sem tentar colocar uma ordem de importância em relação a elas. A escultura, por exemplo, é colocada como uma maneira da personagem de lidar com seus próprios traumas e questionamentos, assim como um modo de solidificar um tempo que pode rapidamente escorrer pelas suas mãos. Para os rapazes, a pintura é uma forma de compreender o seu cotidiano e poder criar alternativas à realidade. E para Yuri, a arquitetura é ao mesmo tempo paixão e frustração, justamente pela inviabilidade comercial de conseguir colocar em prática a sua possibilidade de alterar ambientes por conta da hierarquia da empresa.

Dessa mesma forma, não há uma grande hierarquização dos acontecimentos. Ainda que mais ao final do filme haja um pequeno arco que tem um maior peso simbólico, a importância que é dada a um encostar de mãos ou a uma troca de olhares é a mesma de uma ação como lapidar uma escultura. Os pequenos detalhes, como o tipo de cada um dos calendários mostrados, é tão importante quanto o ambiente em que os personagens estão ou até mesmo as forças da natureza que não são controláveis pelos personagens. Isso tudo ainda se soma ao barulho frequente dos treinos militares da região, que lembram que tudo isso se passa em um planeta em conflito.

Assim, o filme consegue encontrar um perfeito equilíbrio no qual consegue tratar vários temas, mas sem ser raso, e dar voz a uma quantidade significativa de silêncios concentrados. Entre amigos, gosto de chamar esse tipo de filme (e de uma parte da literatura japonesa também, que eu amo), de filme japonês tristinho. Essa melancolia não exagerada mostra muito sobre a cultura e de uma maneira de ver a vida, e a obra consegue transmitir bem tal conteúdo.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

In English, translated by Renata Torres:

Nagi Notes (Japan, France, Singapore, Philippines, 2026)

Original Title: Nagi no Nikki (ナギダイアリー )

Director: Koji Fukada

Screenplay: Koji Fukada (based on the play Tokyo Notes by Oriza Hirata)

Main Cast: Takako Matsu, Shizuka Ishibashi, Kenichi Matsuyama

Running Time: 110 minutes

The beginning of spring, especially in countries with harsh winters like Japan, is an extremely symbolic moment marking the end of a cycle of restraint and containment in order to enjoy the fruits of the harvest. Thus, when we see that the story begins on March 13th in the city of Nagi, it’s difficult not to think of Yuri’s (Shizuka Ishibashi) arrival in that tranquil place as a kind of new beginning for many citizens of that area.

The formal reason for her trip is that she will serve as a model for her friend and former sister-in-law Yoriko (Takako Matsu), but we soon understand that each of the characters present has a more personal reason for engaging with the artistic world. Haruki (Waku Kawaguchi), for example, is a young man who already knows Yuri from painting lessons he takes with Yoriko, while Keiko (Kiyora Fujiwara) is a newcomer to the city who is having trouble adapting to the remote rural area. Like flowers blooming in spring, each of them ends up finding a question of identity that relates to the others.

It’s interesting that the work manages to be based simultaneously on long conversations and long silences. For a Westernized film standard, its pacing is slower, with the passage of time being marked by the different calendars that appear as close-ups. Even in this sense, the film’s choice is interesting because it doesn’t attempt to create more regular chapters, but rather respects the organic flow of everyday events: some days are very busy, while others are practically uneventful. Small subplots are created, such as the sculpture, the friendship between the two boys, a cow that escapes from its stable, a visit to the city museum, but it’s clear that all of this is only included to frame what truly matters to Koji Fukada: human relationships.

It’s interesting that the film deals with other art forms parallel to cinema without trying to prioritize them. Sculpture, for example, is presented as a way for the character to cope with their own traumas and questions, as well as a way to solidify time that could quickly slip through their fingers. For the boys, painting is a way to understand their daily lives and create alternatives to reality. For Yuri, architecture is both passion and frustration, precisely because of the commercial impossibility of putting their ability to alter environments into practice due to the company’s hierarchy.

Similarly, there isn’t a strong hierarchy of events. Although towards the end of the film there is a small arc with greater symbolic weight, the importance given to a touch of hands or an exchange of glances is the same as an action like sculpting a piece. Small details, such as the type of each calendar shown, are as important as the environment in which the characters find themselves or even the forces of nature that are beyond their control. All this is compounded by the frequent noise of military training in the region, which reminds us that everything takes place on a planet in conflict.

Thus, the film manages to find a perfect balance, addressing various themes without being superficial, and giving voice to a significant amount of concentrated silence. Among friends, I like to call this type of film (and a part of Japanese literature as well, which I love) a “sad Japanese film.” This understated melancholy reveals a lot about the culture and a way of seeing life, and the work manages to convey it well.

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