Backrooms – Um Não-Lugar (Estados Unidos, 2026)
Título Original: Backrooms
Direção: Kane Parsons
Roteiro: Will Soodik
Elenco principal: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell.
Duração: 112 minutos
Distribuição brasileira: Imagem Filmes
Backrooms chega carregado de expectativas. É um dos primeiros filmes que nascem de uma creepypasta (lendas urbanas, geralmente de horror, criadas coletivamente em sites e fóruns na internet), seguindo o fracasso de Slender Man: Pesadelo sem Rosto, de 2018. A diferença aqui é que, apesar de ser difícil fixar uma “versão oficial” ou até mesmo original de uma creepypasta, a dos Backrooms se tornou muito famosa a partir de um curta postado no youtube em 2022, que logo se tornou uma série de mais de vinte filmes, todos criados pelo mesmo usuário: Kane Pixels. Agora, usando seu nome de batismo, Kane Parsons assume, antes mesmo de completar vinte anos, a tarefa de transformar seus curtas em um longa produzido por nomes como James Wan e Shawn Levy e distribuído pela cultuada A24.

A partir de um roteiro de Will Soodik (também novato nos cinemas, mas roteirista de séries como Homeland e Westworld), Parsons cria um filme intrigante, mas que acaba se perdendo na própria loucura que propõe explorar. O filme inicia com um prólogo nos Backrooms que abre diversas portas para desenvolvimento e construção de mundo, mas logo corta para o mundo real e somos introduzidos às personagens principais.
Clark (Chiweter Ejiofor) é um dono de uma loja de móveis que leva uma vida frustrada.
Apesar de o roteiro se apoiar bastante nessa informação, sabemos pouco sobre sua vida passada. O foco é que ele passou por um divórcio recente e sente que sua vida está desmoronando. O núcleo familiar acabou e o trabalho não está indo bem. Mais uma vez, vemos um filme estadunidense com personagens cuja vida se resume a isso: família e trabalho. Não há amigos à vista, nem ninguém mais que possa trazer algum respiro para uma rotina engessada. A coisa é tão séria que Clark, agora, dorme em uma das camas da loja onde trabalha. Ele, porém, faz o mínimo: vai à psicóloga, Mary (Renate Reinsve), com uma certa frequência.
Mary, assim como Clark, nos é apresentada como uma personagem atravessada por um trauma (ah, o gênero do terror e os traumas!). Não fica muito claro se sua mãe era vítima de algum distúrbio, mas vemos diversas cenas de uma Mary criança passando por situações de violência doméstica.
Os dois travaram em seus respectivos lugares e não conseguem seguir em frente com a própria vida, mas lidam com isso de formas diferentes. Ele, com raiva. Ela, com uma inércia apática. Em diversos momentos, ouvimos falas em off que a psicóloga grava em fitas cassete com uma forte tonalidade de autoajuda, em um claro comentário irônico sobre a situação dos dois. São falas que se pretendem profundas, mas não passam de notas existenciais risíveis.
Em uma noite qualquer, Clark percebe um problema elétrico na loja. A investigação acaba levando à descoberta de um portal para uma dimensão paralela: os Backrooms, um ambiente familiar, mas estranho, permeado por salas e corredores iluminados por luzes fosforescentes brancas, que lembram um escritório abandonado. Após a primeira visita, Clark passa a frequentar o espaço (de acordo com o título nacional, o não-lugar) todos os dias, a ponto de se tornar fascinado pela sua aparente infinitude.
Até aqui, o filme é bastante competente na introdução de seus elementos. A virada para o segundo ato é também o momento em que o filme começa a explorar elementos de horror. Já na primeira visita ao Backrooms, vemos que há algo ameaçador vivendo por lá, mas Clark nunca encontra esse algo e consegue sair tranquilamente. A única pessoa para quem ele conta sobre a sua descoberta é a única com quem ele conversa: Mary.
O segundo ato do filme lida bem com o suposto desaparecimento de Clark e a busca de Mary que a leva ao fatídico não-lugar. Usando personagens secundários para explorar mais o horror do espaço e provar que as ameaças são reais, Kane Parsons cria sequências tensas, com destaque para uma em que Clark encontra uma sala iluminada apenas por uma árvore de natal, onde acabará se deparando pela primeira vez com criaturas vivas habitantes dos Backrooms. Importante dizer que o filme se dá muito bem quando entra no modo found footage (que tornou os curtas originais famosos) a partir de uma câmera que Clark leva para registrar a outra dimensão. Vale destacar também que em nenhum momento o filme se torna verdadeiramente assustador, optando por ficar mais no suspense do que no horror.
O problema aparece no último ato do filme, quando Parsons e Soodik precisam encerrar uma narrativa ao mesmo tempo confusa e rasa. A partir de algumas revelações, entendemos que os Backrooms são, pelo menos em parte, cópias distorcidas do nosso mundo – sem nenhum maior detalhamento. Quando pensamos que a busca de Mary por Clark se aproxima do fim, entramos em uma longa e tensa sequência de perseguição, que termina em uma cena que busca amarrar a história de Mary com o já citado prólogo. A questão é que nada é respondido ou explicado e o filme termina com uma sensação agridoce de que elementos demais foram introduzidos para resultar em um final tão vago. O que era o prólogo? O que compõe a vida dessas personagens além do pouco que sabemos? Um momento de frustração seria o suficiente para trocar tudo por uma vida em uma dimensão vazia e perigosa? O que é a empresa que pesquisa os Backrooms? O que seriam exatamente os Backrooms e porque um portal apareceu na loja de Clark? Nem todas essas perguntas precisam de resposta, mas incerteza em excesso nem sempre nos instiga a pensar sobre o que vimos. Às vezes soa apenas como preguiça por parte dos artistas de desenvolver melhor o mundo e as personagens que criaram.
No geral, Backrooms é um filme bem feito, que soa mais interessante do que acaba se revelando. Parece que quanto mais eu penso sobre ele e suas personagens, mais frustrado eu fico com a superficialidade de tudo. Contudo, é inegável que é um trabalho cinematográfico muito bem executado e um exercício de gênero que comprova que Parsons, se em algum momento decidir se jogar no horror, terá bons resultados. Na saída da sessão, ouvi comentários sobre a clássica questão de ótimos curtas que viram longas medianos. Tendo a concordar que este é mais um desses casos.




