Crítica | Fantaspoa | O Godzilla de Santa Fé

Godzilla em Santa Fé (Argentina, 2025/2026)

Título Original: Godzilla en Santa Fe
Direção: Alexander Duré
Roteiro: Alexander Duré
Elenco principal: Pablo Zuñiga, Giuliano Romero e Esteban Corva
Duração: 65 min

Pensando muito sobre como realizar uma crítica sobre um filme de um pouco mais de uma hora, de baixíssimo orçamento e que, mesmo contra leis de direitos autorais e todas as impossibilidades da vida, segue existindo, queria falar um pouco mais sobre o amor pelo cinema que, além de certamente move um filme como esse, também é o elemento central de um festival como o Fantaspoa. Afinal, o que faz com que todos os anos um grupo tão grande de pessoas se reúna em uma cidade para assistir filmes de gênero por mais de 20 dias de programação?

O cinema de gênero muitas vezes já foi colocado em papel de escanteio, tanto pelo seu local como filme-B quanto pelas pessoas que o descartam por acreditarem que eles não têm uma mensagem política tão forte. Mesmo que esse seja um cenário que vem mudando, como qualquer movimento de contracultura, também sempre existiu um número de fãs muito próximos, buscando o próximo susto, alienígena ou comentário social passado por uma visão de zumbis capitalistas.

Quando entramos em uma sessão como a de Godzilla em Santa Fé, é justamente isso que une o público. Todos temos algum grau de compreensão da importância dos monstros gigantes na cultura japonesa após a destruição nuclear de cidades pelos EUA no final da II Guerra Mundial. Mas todos nós também sabemos que o que vamos assistir apenas usa essa figura como inspiração para criar esquetes visuais, piadas, e falar um pouco sobre a sua cidade natal, Santa Fé. O próprio diretor, que inicia o filme passando o recado de que este é um filme de baixíssimo orçamento, tratava a ideia como uma brincadeira: e se o monstro famoso aparecesse por aqui? Como a nossa cidade reagiria?

O resultado vai muito além do esperado. Para além do que vemos em tela, que é extremamente bem humorado, com noção de suas próprias limitações e com um claro desejo de criar uma imagem da cidade a ser lembrada, temos de invisível o trabalho de toda uma comunidade que fez com que o filme fosse possível. Conforme também citado em uma conversa posterior ao filme, a equipe se reunia apenas aos sábados, ao longo de 23 dias de filmagens, para conseguir gravar o filme. Eles utilizaram pontos locais que antes pareciam irrelevantes, colocaram pessoas que conheciam para fazer pequenos papeis e até colocaram um monstro do lago da cidade, o Setubalito, para fazer uma pequena aparição. Nisso, eles conseguem criar um registro da vida em um determinado local e tempo, e fazem com que a sua cidade natal tenha um protagonismo inesperado. Seja pelas pescarias ou pelo hábito de beber mate, todas as pessoas que assistem ao longa entendem um pouco sobre aquela região e seus habitantes.

O amor ao cinema fez com que os diretores conseguissem também colocar as suas vidas de certa forma nas telas grandes, onde foram recebidos com alegria, aplausos e muitas risadas por uma plateia igualmente sedenta pelo senso de comunidade que um festival como esse proporciona. Conversando com as pessoas pelas filas, almoços e jantares, percebe-se que quase todo mundo que vai assistir a um filme já tem uma relação de afeto com o Fantaspoa que é anterior à sessão. Por outro lado, enquanto o filme estava sendo exibido, suas redes sociais já apresentavam um vídeo curto que mostra a pelúcia de Godzilla passeando pela cidade de Porto Alegre para chegar para a sessão, mostrando a alegria de seus realizadores de estarem aqui.

Seria impossível fazer uma crítica direta a um filme que é uma celebração da alegria e representatividade que o cinema apresenta. Assim, sobrou-me a opção de colocar um pouco dessa experiência divertida para tentar dizer à parcela do público que ainda tem algum preconceito com o cinema fantástico, que se renda aos seus charmes.

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