A Frequência Kirlian (Argentina, 2025)
Título Original: La Frecuencia Kirlian
Direção: Cristian Ponce
Roteiro: Cristian Ponce
Elenco principal: Nicolás Van de Moortele, Casper Uncal, Letizia Bloisi, Ciro Herce e Milagros Molina
Duração: 90 min
Mais um caso de mistura de linguagens e formas, A Frequência Kirlian já se destaca de todos os outros filmes do festival por misturar animação com sequências em live action. Ele conta a história fictícia da cidade de Kirlian, uma província próxima à Buenos Aires que simplesmente parou de existir e cujas únicas provas de existência eram fitas gravadas a partir da rádio local.

Ele se apresenta com uma espinha dorsal narrativa em live action que se passa na estação de rádio, onde os personagens chegam para contar as suas histórias, e com cada episódio relatado tendo um trecho de animação. Ou seja, mesmo que realmente existam duas linguagens, cada uma delas é apresentada em um momento distinto, sem acontecer nenhum tipo de conflito entre elas. Mais do que isso, apesar de ser uma certa quebra nas expectativas do espectador por ser algo inusitado, o uso de cores semelhantes e um clima misterioso que se coloca em todo o filme fazem com que a mudança quase não seja sentida por quem assiste.
Mais ainda, existe uma preocupação bem clara com cada uma das duas partes que são apresentadas. Na rádio, como há apenas um cenário para ser produzido, existe uma composição visual bastante rica, na qual cada plano mostrado indica a existência de todo um universo pelas suas camadas visuais. Isso é somado a um design de personagem igualmente cuidadoso, com uma clara noção de quem é cada uma das pessoas apresentadas já em um primeiro vislumbre. Quando a linguagem é alterada para a animação, acontece de se manter um pouco da estética neon adotada no live action, mas misturada a cores ainda menos usuais e que remetem a um horror cósmico lovecraftiano. Novamente, isso é reforçado pelo teor das histórias, que contam casos peculiares e com pinceladas de elementos sobrenaturais, e pelo design dos elementos que também dialogam com essa estética do estranhamento.
Além desse fator estético marcante, o filme também se destaca por uma narrativa com diversas reviravoltas mas que, no fim das contas, consegue conectar todas as histórias apresentadas de maneira convincente. Mesmo que se precise parar para pensar sobre as relações entre todos os personagens apresentados, no final das contas existe essa narrativa maior sobre o desenvolvimento de uma pequena cidade que funciona como uma cola para todos os segmentos. Há ainda uma mensagem importante sobre os comportamentos em grupo que tornam a obra relevante de um ponto de vista mais geral, extrapolando o universo de ficção que ela cria.
Para mencionar mais um detalhe, há uma trilha sonora composta por Marcelo Cataldo que funciona perfeitamente para o formato. Entre o uso de um eletrônico com sintetizadores que remetem à atmosfera oitentista proposta e uma boa compreensão de quando inserir ou dar protagonismo para o som ao invés da imagem, constroi-se mais uma camada de coesão para a obra que, sem esses elementos, poderia se tornar uma bagunça.
Felizmente para os espectadores, o filme todo se apresenta bastante controlado e organizado. Passamos junto com os personagens por essa jornada para compreender a última noite daquela cidade e somos entregues a um encerramento metafórico que não poderia deixar mais claro o que na realidade aconteceu com a cidade.




