Crítica | I Want Your Sex

I Want Your Sex (Estados Unidos, 2026)

Título Original: I Want Your Sex
Direção: Gregg Araki
Roteiro: Gregg Araki e Karley Sciortino
Elenco principal: Olivia Wilde, Cooper Hoffman, Charli XCX, Chase Sui Wonders, Daveed Diggs, Mason Gooding, Johnny Knoxville, Margaret Cho, Roxane Mesquida
Duração: 90 minutos
Distribuição: O2 Play

Este definitivamente é um bom ano para Olivia Wilde. Se seu filme como diretora O Convite conseguiu levar o público aos cinemas e agradar tanto eles quanto a crítica, I Want Your Sex vem com uma atitude ainda mais adulta e com o potencial de criar conversas e polêmicas. Dirigido pelo famoso diretor queer Gregg Araki, que não lançava um longa-metragem há mais de 10 anos, o filme acaba se tornando mais um marco de 2026.

No filme, acompanhamos Elliot (Cooper Hoffman) a partir de uma situação bem peculiar: após o que parece uma grande noitada, ele descobre sua chefe e amante Erika Tracey (Olivia Wilde) morta dentro da piscina. Então, compreendemos em retrospectiva a partir das perguntas da polícia como ele foi parar ali, e adentramos as noções desse relacionamento sadomasoquista secreto dentro do ambiente de trabalho.

Baseado em uma experiência real da co-roteirista Karley Sciortino com algumas mudanças que fazem mais sentido para uma produção atualizada, o filme inverte os gêneros da experiência real para colocar uma mulher no papel de dominadora, algo menos explorado nas telas de um cinema mais acessível. Além da óbvia dificuldade da relação direta de trabalho que altera as forças dentro do relacionamento, Cooper ainda tem uma namorada e uma relação de aversão ao sexo bastante comum para a sua geração. Viver essa relação plenamente parece algo completamente fora do roteiro de sua vida, e conseguimos acreditar na inocência desse personagem, algo que é extremamente necessário para o funcionamento do longa. Essas escolhas de casting, tanto para os personagens principais quanto para os secundários, como a melhor amiga de Elliot, Apple (Chase Sui Wonders), são parte essencial da compreensão dos papeis de gênero e sexualidade que o filme quer apresentar, seja para reforçá-lo ou para subvertê-lo.

Narrativamente, a maior questão trazida pela trama é justamente lidar com esse relacionamento tóxico que fica na intersecção entre três questões morais e comportamentais importantes. A primeira e mais óbvia delas é a relação entre uma chefe e seu funcionário, o que já é trazido desde os primeiros momentos em que eles contracenam juntos e a chefe afirma precisar deixar as portas sempre abertas por questões de segurança. A segunda, um pouco menos óbvia, é a diferença entre idades e experiências de vidas que eles possuem, algo colocado em cena tanto através dos pequenos embates que são apresentados quanto pela própria malícia extra-tela que conseguimos perceber nas ações deles. Enquanto Elliot está claramente apaixonado e seria capaz de mudar toda a sua vida para estar próximo de Tracey, ela consegue maquinar cada um de seus passos. 

Por fim, temos ainda a dinâmica do relacionamento fetichista, que já é desequilibrada, e ainda tem que ser levada em conta a inexperiência do rapaz que se submete. De questões que vão desde o seu modo muito mais sensual e sofisticado de se vestir, passam pela questão de classe social e chegam até o cerne de todo relacionamento, que deveria ser o consentimento e o caráter, tudo é construído para compreendermos como essa relação está desigual. Para qualquer pessoa com um pouco de noção, fica claro desde o primeiro momento que aquilo estava fadado ao fracasso, e a obra surpreende justamente ao colocar um fim muito mais humano e compreensivo do que se esperaria de tamanho desastre.

Muito mais focado em compreender as idiossincrasias da existência do que em caçar bruxas (mesmo quando isso é esperado), o filme pode até ser visto como um pouco permissivo. No entanto, ele tem uma linha bem clara do que é certo e o que é errado, só deixando claro que infelizmente faz parte do nosso processo de amadurecimento passar por experiências difíceis e traumáticas. O foco é completo nos personagens e nas situações, mas justamente porque a obra se mostra consciente de que é ali que se encontra o cerne de suas questões.

Ainda que seja um filme que funciona apenas para um nicho específico, de pessoas maiores de idade e que possuem a mente um pouco mais aberta, a obra funciona tanto como comédia quanto como drama e ainda deixa os espectadores refletindo sobre sua própria vida. Ou seja, uma arte que consegue alcançar o seu objetivo.

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