Cara de Barro (Estados Unidos, 2026)
Título Original: Clayface
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini (a partir de história de Mike Flanagan)
Elenco principal: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Max Minghella, Eddie Marsan, David Dencik, Nancy Carroll, Joshua James
Duração: 108 minutos
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Quando pensamos em retrospectiva em elementos que diferenciam a Marvel da sua rival DC Comics, algo que chama a atenção é uma construção psicologicamente mais sombria da segunda, tanto quando falamos de seus herois, como o Batman, quanto quando falamos de seus vilões, como a sua antítese Coringa. Considerando que por mais que a DC tenha alguns dos personagens mais ativos no imaginário da cultura pop, é estranho que ela não tenha conseguido alcançar a popularidade de sua rival, que encadeou toda uma mudança no cinema blockbuster dos anos 2000 e 2010 com a criação do seu universo cinemático culminando nos filmes dos Vingadores. Ainda assim, o estúdio sempre se manteve ativo e conseguiu sucesso de público e crítica com projetos como a trilogia Batman: O Cavaleiro das Trevas (2005 a 2012) e Coringa (2019).

Após todas as mudanças na empresa que levaram à contratação de James Gunn, que parece estar fazendo o momento de limpeza e arrumação nos projetos que estão sendo desenvolvidos, Cara de Barro vem como um contraponto bem adulto ao universo que foi infantilizado nas últimas décadas. Somos apresentados ao ator em ascensão Matt Hagan (Tom Rhys Harries) que parece estar vivendo o melhor momento de sua vida, sendo inclusive indicado para uma estatueta do Oscar. Só que em sua comemoração em sua cidade natal, Gotham, ele se esquece de que a cidade é regida por um conjunto de regras particulares e se envolve com uma mulher compromissada com um gângster. A retaliação vem em forma de um retalho em seu rosto, e é a partir daí que a sua saga de transformação em um vilão se inicia, quando todas as portas outrora abertas se tornam fechadas por conta do seu visual e de sua nova inimizade poderosa.
O que surpreende é o tom maduro e sombrio do filme, que se inicia de forma leve e te cativa a compreender a importância de tudo aquilo para o seu personagem principal. Tanto fazendo a autorreferência à indústria cinematográfica quanto falando sobre um Estado e uma sociedade que falham com seus indivíduos, conseguimos ter empatia com esse homem que, por conta de uma noite, passou do melhor ao pior momento de sua vida. Segue-se a máxima de que todas as pessoas podem estar a apenas um passo de se tornarem um vilão, que é frequente nas histórias que se passam em Gotham.
O que torna a obra realmente memorável é como ele consegue transitar pelo gênero do terror, algo que certamente foi influenciado pela ideia desenvolvida por Mike Flanagan, nome por trás de produções recentes como Carrie e A Missa da Meia-Noite. O clima tranquilo do início rapidamente passa para um thriller na medida em que as dificuldades se apresentam, e evolui para um terror de transformação corporal clássico quando Hagan começa a passar por transformações físicas. Só que, como também acontece frequentemente com as produções de Flanagan e o diretor James Watkins preferiu manter, existe um pensamento técnico bastante específico de como trazer esses elementos para o audiovisual. A direção de fotografia somada a uma equipe de efeitos práticos de maquiagem muito eficiente fazem com que o clima de terror se aprofunde. Temos, por exemplo, cenas em que as transformações acontecem fora de quadro, justamente quando a câmera se move para mostrar algum outro elemento, e isso aprofunda a noção de que nunca sabemos qual será o novo passo dessa criatura mutante. Ao mesmo tempo, temos detalhes da aflição do horror corporal, de pedaços de pele dos olhos que precisam ser cortados em closes a uma quantidade de sangue que raramente é vista nos filmes que envolvem fantasia.
Além disso, é um alívio ver uma obra que funciona sozinha, mesmo em um momento em que esses universos compartilhados se tornaram tão frequentes no audiovisual. É claro que existem elementos que apontam para esse universo, desde prédios clássicos de Gotham até referências específicas como a de anúncios do picadeiro de circo pela cidade, mas a sua estrutura narrativa é fechada em uma história que tem começo, meio e fim. Ele não depende que quem entre no cinema tenha conhecimentos prévios, nem parece ser apenas uma porta de entrada para um universo maior – ainda que não feche as portas para que o personagem seja utilizado em outras produções.
Temos então um filme que vem desse universo de quadrinhos, mas que consegue juntar seus elementos mais fortes de narrativa aos elementos audiovisuais necessários para criar uma história que funciona bem nos cinemas. Talvez seja um passo ousado para o estúdio que está tentando encontrar o seu caminho, mas certamente é um lembrete para os espectadores de que o cinema inspirado em quadrinhos não precisa seguir um caminho único para obter sucesso.




