Crítica | O Bosque Selvagem

O Bosque Selvagem (Estados Unidos, 2026)

Título Original: Wildwood
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler (adaptado da obra de Colin Meloy)
Elenco principal: Peyton Elizabeth Lee, Jacob Tremblay, Carey Mulligan, Mahershala Ali, Angela Bassett, Awkwafina, Jake Johnson, Charlie Day, Amandla Stenberg, Tom Waits
Duração: 139 minutos
Distribuição: Imagem Filmes

Algo que continua precisando ser repetido ao longo dos anos é que a animação é apenas uma linguagem, e não um gênero por si só. Se ela normalmente é mais utilizada para as fantasias infantis, isso se relaciona com um processo histórico e mercadológico iniciado por Walt Disney muito mais do que com as suas possibilidades de como contar uma história. E se isso já foi provado diversas vezes com filmes animados de gêneros diferentes, em 2026 temos, além da aventura juvenil O Bosque Selvagem, também o drama familiar Julián, o sci-fi neo-noir Ray Gunn e o drama histórico A Violinista como provas de que não lidamos com uma linguagem que se encerra em si mesma, apenas pode ser utilizada para contar boas histórias. 

Em O Bosque Selvagem, somos apresentados a uma típica família de Portland, cidade estadunidense cujo lema é “mantenha Portland estranha” (keep Portland weird, em tradução livre). Pais que parecem hippies convivem com seus dois filhos, Prue e Mac – mas ao ter que sair para uma feira de artesanatos, deixam Prue tomando conta do irmão, e a garota sem querer o perde para uma revoada de corvos que o sequestra. Se esse início pode parecer um grande spoiler, na realidade é apenas o pano de fundo para a aventura de Prue e seu recém-feito amigo Curtis enquanto eles se aventuram pelos bosques que cercam a cidade em busca de Mac.

Ainda que os pormenores do roteiro sejam importantes para que o filme de mais de duas horas permaneça interessante para quem o assiste, a sua trama é relativamente simples, dessa filha que desobedece os pais e acaba entrando em uma aventura que a ajuda a amadurecer e compreender melhor o mundo ao redor dela. Aqui, pode-se perceber a estrutura de contos de fadas clássico, inclusive com os elementos de fantasia como os animais falantes e uma certa batalha de bem contra o mal. No entanto, todo esse discurso vem atualizado, tanto com uma relativização do bem e mal a partir de uma compreensão psicológica de seus personagens, quanto a inversão dos estereótipos de personagens, como com a heroína que segue em sua própria aventura ao invés de depender de figuras masculinas em sua jornada. Pode não ser o caminho mais ousado para a trama, mas é uma maneira nova de explorar temas clássicos que são importantes para o público.

O que mais chama a atenção é realmente a sua técnica de animação em stop-motion, pela qual o estúdio ficou conhecido e que alcança nesta obra proporções realmente descomunais. Seja por conta de uma duração bastante longa e que quebrou recordes para filmes do tipo, ou pela questão da quantidade de cenas e cenários construídos para o filme, ele realmente impressiona. Já no início conseguimos perceber as belas texturas exploradas nos detalhes de personagens e objetos, mas é na cena em que Prue começa a perseguir a revoada de corvos que o filme realmente impressiona. Temos uma longa sequência de ação que acontece em diversos locais da cidade, com um movimento frequente e diversas forças acontecendo ao mesmo tempo, o que poderia tornar toda essa movimentação muito mecânica e pouco natural. Ocorre o oposto, tornando esse movimento magnético em cena. O mesmo acontece na grande sequência de batalha que ocorre mais para o fim do filme, que tem proporções épicas que lembram obras grandiosas como O Senhor dos Aneis. Ver essa proporção com animação é tão raro quanto lindo.

É necessário apontar que, pelo menos na cópia que foi apresentada para a imprensa, a dublagem do filme foi bastante prejudicada. Desde alguns personagens cujas falas eram quase incompreensíveis por estarem abafadas, até alguns momentos de dificuldade de dicção e má equalização dos sons, esse certamente foi um dos pontos mais fracos do longa, em um problema que parecia mais técnico do que, de fato, da atuação dos dubladores. Esse problema provavelmente não se mantém nas cópias legendadas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima