O Estrangeiro (França, 2025)
Título Original: L’étranger
Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon
Elenco principal: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin, Denis Lavant, Swann Arlaud
Duração: 2h 2min (122 minutos)
Distribuição: California Filmes
Em preto e branco, e aos olhos de um protagonista apático, François Ozon adapta Albert Camus em drama de tribunal que reflete crime, castigo, personalidade do acusado e a própria colonização francesa na Argélia.

Sob o calor escaldante de uma Argélia durante a ocupação francesa, no final da década de 1930, o jovem estrangeiro Meursault recebe a notícia do falecimento de sua mãe. Demonstrando apatia em sua relação com mundo ao seu redor, ele comparece ao funeral, em uma casa de repouso no interior do país, e cumpre precisamente todos os ritos locais de passagem do ente querido – de uma vigília ao corpo velado, até a caminhada com o corpo rumo ao cemitério, sem nada perguntar aos amigos e demais residentes do local acerca de seus momentos com ela, ou mesmo derramar qualquer lágrima sobre o caixão, cujo corpo nem mesmo desejou ver para uma última despedida.
Seus momentos posteriores ao falecimento da mãe se resumem à continuidade de uma vida dita por alguns como “sem ambição”, mas evidentemente muito voltada a si e, talvez, sem grandes preocupações com o que se encontra ao redor. A verdade é que, conforme o tempo passa, percebemos que Meursault será, do início ao fim, um verdadeiro mistério, a nós, enquanto espectadores, à sociedade local, aos que estão ao seu redor, e sobretudo, a si mesmo.
Ao passo de uma narrativa lenta, dedicada a tentar explorar em detalhes e investigar com muita calma esse jovem protagonista ao qual tanto se interessa, François Ozon se utiliza de um mesmo recurso já apresentado anteriormente em sua filmografia, no drama romântico Verão de 85, para fisgar o espectador, desde o princípio, por meio da antecipação parcial do clímax: sabemos que ele matará uma pessoa, porém não quando, quem ou o porquê.
Logo na primeira cena, nos é mostrado Meursault sendo acompanhado por guardas no longo corredor de uma penitenciária a uma cela temporária, onde declara abertamente a outros presos locais, quando perguntado sobre seu crime: “eu matei um árabe”. Enquanto propõe essa digressão, rumo ao passado do personagem, Ozon demonstra mais pretensões do que tão somente se dedicar a investigar a personalidade desse protagonista tão apático que, aos poucos, se torna incrivelmente curioso.
Ao mesmo tempo que frequenta um cinema com a namorada Marie, por exemplo, em dado momento, o cineasta direciona nosso olhar, por mais de uma vez, ao estado de apartheid local, enquanto os “nativos”, como diz a placa (e portanto, leia-se, “árabes”) são proibidos de ingressar nas dependências do estabelecimento. O mesmo cenário é válido quanto ao local em que trabalha, a casa de repouso na qual vive a mãe, a praia/piscina pública onde se reencontra com Marie, todos ambientes tomados apenas e tão somente por habitantes franceses da colônia, e vedados aos nativos daquela região, constantemente discriminados (vide todo o arco do vizinho machista).
No entanto, quando se inicia a etapa do julgamento do protagonista, perante a um júri igualmente francês, algo estranhamente parece mudar nessa percepção oferecida pelo diretor, na medida em que o Estado não parece disposto a poupá-lo de uma pena árdua pelo crime cometido. Frente a essa apatia que demonstra desde o início em relação ao mundo e sociedade que o cerca, pouco a pouco o tribunal deixa de avaliar o fato criminoso em si para julgar Meursault por sua personalidade.
Juridicamente, o questionamento torna-se interessante em duas frentes – diante da evidente implacabilidade da lei, aplicável mesmo aos cidadãos franceses, sem distinção de origem, cultura ou nascimento, e, por outro lado, de um julgamento pautado quase exclusivamente na personalidade do acusado, enxergando o fato criminoso apenas como uma consequência da ausência de sentimento ou excessivo conformismo por parte de um homem desinteressado nas vidas humanas com as quais convive, ao passo que todo o restante parece ignorado, sobretudo os relatos da vítima indireta do crime, na figura da irmã do acusado.
Daí se compreendem as escolhas formais do cineasta na fotografia em preto e branco, que vai muito além do retrato de época oferecido pela obra, ao refletir um aspecto filosófico na descrença do protagonista em relação à humanidade, que reside justamente na forma como vê o universo que o circunda, incolor. Aos poucos, nessa reta final, todas as interações e relacionamentos que firma ao longo da narrativa reforçam precisamente essa ausência de interesse pelas relações humanas, que, em contrapartida, seriam as únicas capazes de fazê-lo sair dessa situação.
Por isso tanto o título original, O Estrangeiro, quanto o título norte-americano, The Stranger (ou “O Estranho”) fazem sentido. Se por um lado, Meursault, apesar de francês, é de fato um estrangeiro na Argélia, aos olhos da população local, não advinda da metrópole, é igualmente um sujeito “estrangeiro”, ou mesmo “estranho”, aos seus próprios colegas, frente à completa ausência de expressão em seu olhar e ao que acontece com os outros em seu entorno, sentimentos esses magistralmente transmitidos pelo jovem e talentoso Benjamin Voisin, encarnando o protagonista.
Assim, O Estrangeiro nos oferece, enquanto espectadores e jurados desse julgamento, uma complexa e igualmente profunda exploração sobre a mentalidade humana, as diferenças, e o olhar da sociedade direcionada aos nossos próprios atos. Ao mesmo tempo que se debruça sobre o protagonista Meursault, também lança olhares à comunidade local, ao cenário da colonização na Argélia, ao racismo, mas sobretudo à incompreensão da sociedade ao que ou quem não se consegue compreender enquanto um espírito coletivo – justamente a apatia do protagonista, não retratado como um psicopata, mas alguém desconcertado com o mundo e a vida que leva. É de uma reflexão que perdura para muito além do tempo de projeção, que deixa aquela “pulga atrás da orelha”, um senso de provocação, lento e igualmente bem arquitetado por esta adaptação bem-sucedida da obra de Albert Camus, pelas mãos do habilidoso François Ozon, que se encerra, com o rolar dos créditos finais, ao som de Killing an Arab, da banda The Cure, inspirada justamente na obra adaptada.



