Crítica | Só Por Uma Noite

Só por Uma Noite (Estados Unidos, 2026)

Título Original: One Night Only
Direção: Will Gluck
Roteiro: Travis Braun e Will Gluck
Elenco principal: Monica Barbaro, Callum Turner, Maya Hawke, Julia Fox, King Princess, Molly Ringwald, LeVar Burton, Ben Marshall, Ziwe, Este Haim e Charlie Gillespie
Duração: 101 minutos
Distribuição: Universal Pictures

Em um cenário real no qual os Estados Unidos da América estão caminhando cada vez mais para o caminho de uma distopia, a ideia por trás de Só Por Uma Noite não parece tão absurda. Na obra, o sexo pré-marital foi proibido há três anos e existe apenas uma noite por ano na qual os solteiros podem transar legalmente. O filme acompanha justamente essa noite, em Nova Iorque, através dos olhos de duas pessoas que ainda não se casaram: de um lado, Owen (Callum Turner), o dono de uma pizzaria que espera passar a noite com sua noiva; e do outro, Allie (Monica Barbaro), uma cantora de jingles que acredita no romance e que espera encontrar o amor da sua vida nessa noite, fazendo uma promessa com uma amiga de que elas não vão aceitar a primeira pessoa bonita que passar na frente delas.

É óbvio que, para o funcionamento de uma boa comédia romântica, nenhum desses planos pode inicialmente dar certo. Owen é dispensado pela namorada e Allie acaba sendo rapidamente abandonada pela amiga, o que coloca ambos em posição de voltar para as ruas e buscar um novo parceiro. Mas, novamente, como é esperado pela estrutura clássica das comédias românticas, eles acabam se reencontrando diversas vezes por toda a noite e se conhecendo melhor.

Talvez o melhor elemento para o longa-metragem tenha sido a sua escolha de elenco. Em primeiro lugar, porque Turner e Barbaro conseguem equilibrar a insegurança de quem não está acostumado a flertar com o encantamento de alguém que está conhecendo alguém interessante, gerando uma simpatia imediata com os personagens. Além disso, o roteiro se encaixa muito bem com ambos os atores, seja ao abordar Turner pela ótica menos óbvia de alguém mais pateta e menos galã ou de colocar Barbaro como uma cantora, reprisando sua performance vocal já elogiada. Em segundo lugar, talvez pelas parcerias do diretor em outros projetos, há uma infinidade de ótimos atores que aparecem, mesmo que para fazer apenas uma pequena ponta, com nomes que vão de Maya Hawke, Glen Powell, Pete Davidson, Bobby Cannavale e chegam até Este Haim. Para os cinéfilos que gostam do cinema estadunidense, há quase a sensação de ir completando um álbum de figurinhas.

Tecnicamente, há poucas coisas destoantes no filme. Há um mesmo figurino que é utilizado por quase toda a noite, os personagens conseguem estar bem caracterizados para que se compreenda facilmente suas personalidades sem a necessidade de muito tempo de tela, as cenas fazem sentido visual. Nova Iorque, quando captada nas câmeras, segue sendo uma cidade cinematograficamente interessante, principalmente durante a noite com a luz dos prédios sendo um contraponto à escuridão. Mais para o final do filme, a edição que até então seguia sendo adequada, tentando emular ao máximo a naturalidade, parece sofrer de alguns engasgos por conta de material cortado, fazendo com que a continuidade de algumas cenas se perca. Aqui, já se inicia o maior problema da obra, que não é técnico, mas sim ideológico. Saíram reportagens falando que um filme que especificamente fala deste único dia em que a moralidade regulamentada por lei em um futuro distópico é banida, e sabe-se que cenas de nudez foram cortadas por deixarem uma parte do público desconfortável, como uma espécie de limitação ao que foi a visão do diretor para a obra.

Só que isso avança para outros caminhos dentro do filme. Quando lidamos com uma distopia relacionada a um Estado controlador, imagina-se que, mesmo dentro do contexto de uma comédia romântica, exista alguma força que se oponha a isto. Existem algumas pequenas piadas sobre o assunto ao longo da narrativa, mas é perceptível que o assunto não é levado com nenhuma seriedade, algo que se torna um reflexo do comportamento de grande parte da sociedade do país no momento. Se as telas podem ser usadas justamente como um mecanismo político e social importante, filmes como esse esvaziam completamente algumas pautas em prol de algumas risadas.

Além disso, o filme reforça uma mensagem moralmente conservadora incômoda, que age em dois sentidos. O primeiro é o da própria compreensão do que é o sexo, que é praticamente colocado em tela como aquilo que ocorre entre duas pessoas heterossexuais e cisgêneras, com a maior piada sendo referente a uma prática sexual fetichista mais incomum com um casal mais velho. Ou seja, ao praticamente nem abordar qualquer outra possibilidade, e ligando ao clima político do país no momento, percebe-se um esforço ativo em invisibilizar quaisquer outras possibilidades de relacionamento sexual. Ao mesmo tempo, também existe uma mensagem moralizante do sexo como algo que deve acontecer apenas com pessoas especiais e em momentos especiais, que é bastante ultrapassada e que age de forma mais sutil ao longo do roteiro, mas que está ali, sempre presente.

Mais do que um filme inofensivo, ele utiliza uma forma fílmica bem pensada para passar uma mensagem política bastante problemática. Mas, felizmente, dada a sua baixa bilheteria na estreia dos EUA, pelo menos se pode dizer que ele desagrada direita e esquerda na mesma medida, não tendo tamanho suficiente para se tornar realmente nocivo.

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