Paper Tiger (Estados Unidos, 2026)
Título Original: Paper Tiger
Direção: James Gray
Roteiro: James Gray
Elenco principal: Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller, Gavin Goudey, Roman Engel e Victor Ptak
Duração: 1h 55min (115 minutos)
Entre uma série de filmes com foco em personagens europeus e em produções um pouco menores, Paper Tiger se sobressai tanto pelo elenco estadunidense estrelado, incluindo Adam Driver e Scarlett Johansson, quanto pelo diretor já conhecido do grande público, James Gray. Ele, inclusive, não é um novato na competição pela Palma de Ouro, já tendo sido indicado diversas vezes por seus trabalhos anteriores, sem nunca receber a premiação.

No prólogo de seu novo longa-metragem, vemos uma frase atribuída a Ésquilo “Let there be wealth without tears”, extraída da peça Agamenon. No contexto do teatro grego, o que está sendo dito é que existe um equilíbrio necessário para toda a prosperidade. Se as pessoas forem muito pouco prósperas, isso as levará a uma vida com muitas limitações, mas nas crenças da época, a prosperidade excessiva também seria problemática porque causaria a atenção dos deuses, e estaria relacionada com grandes perdas em outras áreas da vida, como no caso da peça a vitória na Guerra de Tróia que custou ao rei o sacrifício de sua própria filha e de diversos de seus homens. Esse prólogo, ainda que pareça estranho em um primeiro momento, não poderia ser mais adequado ao que se passará em tela a seguir.
No filme, Irwin Pearl (Miles Teller) vive uma vida comum de classe média estadunidense nos anos 1980. Casado com Hester (Scarlett Johansson), eles buscam um futuro mais próspero para os seus filhos através do trabalho duro. Só que seu irmão Gary (Adam Driver), ex-policial, aparece com uma proposta de trabalho incrível para eles se juntarem como uma firma de consultoria para ajudar os russos de Howard Beach a descontaminar a água da região. Irwin se empolga e, sem querer, causa um acidente diplomático que pode colocar tudo o que eles tinham planejado a perder.
Se a sinopse parece um pouco com os trabalhos anteriores do diretor, isso acontece porque este é mesmo um retorno ao cinema que ele fazia no início de sua carreira, talvez com um pouco menos de paixão e um tanto a mais de maturidade. Mas temáticas como os ritos de passagem masculinos, a violência das ruas de Nova York nesse período específico e até mesmo a relação familiar entre irmãos se faz presente como já o esteve em diversos outros momentos de sua carreira. O tom nostálgico, sem deixar de ver os problemas daquele período, se colocam como elementos importantes no longa-metragem.
O filme trabalha com uma chave de naturalismo que segue seus personagens sem tentativas de prendê-los a recursos formais da cinematografia, sendo mais focado no estudo desses caráteres do que em recriar a roda de como fazer um bom filme. Aqui, Adam Driver brilha tanto por conta de seu talento como ator quanto pela criação de um personagem extremamente carismático, ainda que falastrão. Infelizmente, o roteiro acaba levantando muitas linhas narrativas, como a de Hester e sua dor de cabeça, que acabam se perdendo dentro de toda a orquestração do filme. Por mais que haja um fundo autobiográfico, essa parte específica parece afastada do resto, e por ser uma das poucas presenças femininas no filme, soa quase como uma tentativa de manter uma cota.
O filme ainda consegue ser muito emocionante na medida em que ele está discorrendo sobre o amor que esses personagens sentem um pelo outro, e isso é um elemento que segue com o espectador mesmo após o fim da sessão. Entre isso, uma cena final de perseguição muito eficiente e um conto de precaução sobre o fim do sonho americano, Gray acerta em voltar para as suas origens para falar sobre o que existe de melhor na humanidade: as relações que criamos com os outros.




